“Elogio da mosca” (Luciano de Sam贸sata)

(n.t.), ano viii, vol. 1, junho/2017

O TEXTO: Os estudiosos da obra de Luciano e do movimento ret贸rico- filos贸fico do qual ele participara, a Segunda Sof铆stica, costumam classificar o Elogio da Mosca como um elogio paradoxal. Trata-se de um desafio ret贸rico (havia concursos voltados a esse tipo de texto) cujo intuito 茅 pegar um objeto o mais ordin谩rio, o mais inusitado, desprez铆vel mesmo, para se fazer dele um elogio, um enc么mio, e ressaltar seus caracteres, inventar suas hist贸rias, intrinc谩-lo a ponto de se fazerem sentir os efeitos c么micos do paradoxo.

Texto traduzido: 螠蠀喂伪蟽 螘纬魏蠅碌喂慰谓 (Praise of the Fly). In. Lucian. A Selection. Ed. Neil Hopkinson. Cambridge: Cambridge UP, 2008, pp.35-38.

O AUTOR: Luciano nasceu em Sam贸sata, prov铆ncia romana da S铆ria, em 125 d.C., de fam铆lia artes茫, e morreu em 181 d.C., provavelmente em Alexandria. De origem semita, escrevia e fazia seu trabalho na l铆ngua grega antiga, mais precisamente no dialeto 谩tico, da Atenas cl谩ssica. A edi莽茫o atualmente melhor reputada, de M. D. Macleod (Oxford, 1972-87), divide-se em 4 tomos e 86 t铆tulos, entre di谩logos, romances, exerc铆cios de ret贸rica, s谩tiras religiosas e filos贸ficas, etc.

O TRADUTOR: Guilherme Ivo 茅 tradutor e doutorando em Filosofia e Tradu莽茫o pela Universidade de Campinas.

A mosca n茫o 茅 o menor dos p谩ssaros, contanto que se a compare com o mosquito, com o pernilongo e outros ainda mais mi煤dos; mas ela tanto possui de grandeza para com aqueles quanto 茅 deixada para tr谩s pela abelha. Emplumada n茫o 脿 guisa de outros, nos quais h谩 cabelo em todas as partes do corpo, e que usam como 谩geis asas; mas com membranas iguais 脿s do gafanhoto, da cigarra e da abelha, sendo t茫o graciosa com essas asas quanto 茅 leve e suave a veste indiana em cotejo 脿 grega. Se algu茅m atento a observar, 茅 florida de nuan莽as como o pav茫o, quando porventura bate as asas ostentando-se para o sol.

Seu voo n茫o 茅 conforme ao do morcego, as asas remando convictamente, nem ao do gafanhoto, salteado, nem ao das vespas, silvante, mas com obl铆qua ondula莽茫o para qualquer peda莽o do ar que venha a se mover. E h谩 tamb茅m a seu dispor, n茫o um voar envolto em sil锚ncio, mas s铆mile a um canto. N茫o 茅 estr铆dulo ao jeito do pernilongo e do mosquito, e ela nem se exibe com o grave ronco das abelhas ou com o terr铆fico e amea莽ante proceder das vespas. Seu som 茅 t茫o brando quanto o das flautas 茅 mel铆fluo ao lado de trompetas e c铆mbalos.

Quanto ao corpo, a cabe莽a est谩 delicadamente firmada no pesco莽o e 茅 de f谩cil circumeneio, n茫o crescida conjuntamente a ele, como no gafanhoto. Os olhos s茫o proeminentes, maiores que os chavelhos; o peito 茅 firme, estando os p茅s implantados em ranhuras pr贸prias, e n茫o apertadinhos, como nas vespas. A barriga 茅 fortificada, e tanto ela quanto o busto t锚m como que uma larga e escamada cinta. Defende-se, todavia, n茫o por meio do traseiro, como a vespa e a abelha, mas com a boca e a tromba, da qual est谩 armada como os elefantes e com a qual busca alimento, pega coisas e, ficando grudada, com o biquinho aferrenha-se nelas, como se fosse sugadouro. Dessa tromba, sa- lienta-se um dente com o qual ela pica, bebendo o sangue (embora beba tamb茅m leite, o sangue lhe 茅 mais doce), e os que s茫o picados n茫o sentem muita dor. Tendo seis p茅s, anda somente com quatro e o par da frente faz t茫o somente as vezes de m茫os. Decerto poderias v锚-la, apoiada sobre os quatro p茅s, elevando com ambas as m茫os um petisco, numa fei莽茫o toda humana, como n贸s.

Ela n茫o nasce assim de uma s贸 vez, mas na verdade 茅 primeiro uma larva sa铆da de cad谩veres de homens ou de outros animais. Ent茫o, pouco a pouco, v茫o emergindo as patinhas, desabrolham-se as asas, e o rastejante passa a ser p谩ssaro. Fica prenhe e d谩 脿 luz uma larvinha, a futura mosca. Crescendo junto com os homens 鈥 mesmo teto, mesma mesa 鈥, ela prova de tudo exceto 贸leo 鈥 beb锚-lo seria sua morte. Embora tenha Moira-breve 鈥 sua vida 茅 mensurada sob estreit铆ssimo alcance 鈥, regozija-se sobremaneira com a luz, sentindo-se em casa quando sob ela. Recolhe-se, pois, ao sossego da noite e n茫o voa nem canta, mas enguruja-se e aqueda.

Eu posso falar de sua manha, que n茫o 茅 pouca, sempre que consegue escapulir da aranha, seu trai莽oeiro inimigo. Enquanto a aranha prepara a emboscada, a mosca fica de olho e, observando-a cara a cara, esquiva-se do assalto, de modo a n茫o ser capturada, como peixe que na rede fica 脿 merc锚, na teia espiralada da fera. Ora, falar de sua valentia e coragem n茫o 茅 dado a n贸s, mas a Homero, o grandiloquente-mor dos poetas. Ele retrata a coragem do mais excelente dos her贸is buscando n茫o equipar谩-lo com o le茫o, o leopardo ou o javali, mas com a firmeza da mosca, o destemor e a persist锚ncia do seu ataque. 脡 com a firmeza e n茫o com a afoiteza que ele a vincula. E ainda diz que ela, ao ser espantada, n茫o se arreda por isso, mas se lan莽a em uma mordida. Em t茫o subido grau ele enaltece e corteja a mosca, que n茫o 茅 uma nem tr锚s as vezes que dela se lembra, mas a toda hora, e lembrando-a desse modo embeleza suas palavras. Aqui discorre sobre seu voo que vai em enxame pra cima do leite; ali sobre quando Atena recha莽a de Menelau a flecha, de modo a n茫o ir de encontro ao mais fatal dos instantes, retratando a m茫e zelosa que junto a si nina o rec茅m-nascido, e de novo introduz a mosca em compara莽茫o. Al茅m disso tudo, ataviou-as com bel铆ssimos ep铆tetos, a elas se referindo como a um conglomerado e vendo em seu enxame as mais belas na莽玫es.

Ela 茅 t茫o forte que, quando quer que morda algo, machuca n茫o s贸 a pele humana, mas a do boi e a do cavalo, e aflige o elefante, penetrando em suas rugas, na medida do poss铆vel lacerando-o com sua pr贸pria tromba. As moscas t锚m muita liberdade no sexo, nos prazeres carnais e no casamento. 脡 que o macho n茫o faz como o galo, que monta e logo em seguida apeia, mas cavalga a f锚mea sem parar, com o que ela segura seu esposo e, no meio da transa, saem voando pelo ar, sem que nada degringole. E uma vez decepada sua cabe莽a, a mosca vive com o corpo por ainda muito tempo, mantendo o sopro da vida.

Na natureza delas h谩 um tra莽o ainda maior, do qual quero falar agora. 脡 que a mim parece que Plat茫o deixou-o de lado na doutrina da alma e sua imortalidade. A mosca, quando morta, com um pouco de cinza esparramada sobre ela, levanta-se, regenera-se e come莽a de novo uma outra vida. E assim todos est茫o devidamente convencidos de que a alma dela 茅 imortal, sendo que, uma vez tendo partido, volta ao corpo, reconhece-o e reanima-o, assim provando o mito sobre Herm贸timo Clazom锚nio, de que sua alma repetidamente o abandonava, viajando ao seu sabor, para ent茫o voltar e novamente encher o corpo e levantar Herm贸timo.

Por ser pregui莽osa e relaxada, ela se aproveita do fruto do trabalho alheio e encontra mesa farta em tudo quanto 茅 lugar. Tanto que as cabras leiteiras deixam que ela as sugue, as abelhas trabalham n茫o menos 脿s moscas que aos homens, e cozinheiros temperam seus pratos a ela. Chega at茅 a provar os quitutes antes mesmo que os reis e, perambulando pelas mesas, participa do banquete deles, deliciando-se com tudo. N茫o firma ninho tampouco abrigo em canto algum, mas, puxando aos Citas, ziguezagueia afora e 脿 toa, ficando entregue ao que de fortuito a noite der, fazendo a铆 sua cama e aconchego. Na escurid茫o, contudo, como eu j谩 dizia, ela n茫o se mexe: acha indigno agir sorrateiramente e n茫o pratica inf芒mias, das quais se vexaria caso estivesse em plena luz.

A narrativa segue dizendo que havia ainda uma criatura, uma certa Musca, por demais bela, malgrado faladeira, tagarela e cantante, que virou rival de Luna, pois ambas se apaixonaram por End铆mion. A铆 ent茫o, como ela vinha com chocarrices, brincadeirinhas e, cantarolando, tirava-o do sono, tirando-o do s茅rio, Luna ficou nervosa e transformou Musca nisso que conhecemos. 脡 por isso que hoje, em lembran莽a de End铆mion, ela n茫o deixa ningu茅m dormir, principalmente os que est茫o na tenra idade. Da铆 sua pr贸pria mordida e seu apetite por sangue serem um sinal n茫o de selvageria, mas de amor e de benquerer. Ela se beneficia do que pode e colhe de qualquer coisa a frescura da beleza.

Segundo os antigos, tamb茅m existiram duas mulheres com esse mesmo nome, uma poetisa deveras bonita e inventiva, e uma famosa cortes茫 de Atenas, sobre a qual o poeta c么mico disse:

鈥淎 Musca o mordeu bem no cora莽茫o.鈥

Da铆 se v锚 que o gracejo c么mico n茫o desdenhou o nome da mosca e nem o tolheu dos palcos. Tampouco os pais se envergonhavam de chamar suas filhas assim. E a trag茅dia 鈥 como n茫o! 鈥 lembrou-se da mosca com grande estima. Por exemplo:

鈥淓 a mosca 鈥 茅 espantoso! 鈥 em for莽a e aud谩cia
Que 谩vida de sangue assalte um morto,
Enquanto 脿 lan莽a hostil soldados fogem.鈥

Eu bem que poderia dizer muitas coisas sobre a pitag贸rica Musca, se sua hist贸ria j谩 n茫o fosse conhecida por todos. H谩 ainda algumas moscas enormes que muitos chamam de soldadinhas, ou ainda de cadelas. S茫o de um zumbido escabroso, de um voo veloz, e 茅 incr铆vel como duram! Resistem um inverno inteiro sem comida, quase sempre encolhidas debaixo de toldos. Sobre elas vale a pena admirar o fato de tanto o macho quanto a f锚mea ficarem invertendo os pap茅is, igual ao filho de Hermes e de Afrodite, que 茅 de uma natureza mista e de dupla beleza. Mesmo que eu tenha ainda muito a dizer, vou botar um fim nessa conversa, pra n茫o ficar parecendo que estou, como diz o prov茅rbio, fazendo da mosca um elefante.聽[PDF]

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