“Compasso e descompasso em Heráclito” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“Deste logos sendo sempre os homens se tornam descompassados quer antes de ouvir quer tão logo tenham ouvido; pois, tornando-se todas as coisas segundo esse logos, a inexperientes se assemelham embora experimentando-se em palavras e ações tais quais eu discorro segundo (a) natureza distinguindo cada (coisa) e explicando como se comporta. Aos outros homens escapa quanto fazem despertos, tal como esquecem quanto fazem dormindo”.[1]

(Frag. I, SEXTO EMPÍRICO, Contra os Matemáticos , VII, 132)

O objetivo deste ensaio é investigar algumas idéias e concepções do filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso, cujo pensamento complexo e enigmático não cessa de suscitar, entre seus leitores e estudiosos, muita dúvida, divergência de opiniões e confusão.

Historicamente situado na transição do pensamento mítico para o racional-filosófico, Heráclito representa um período de peculiar maneira de explicar a existência, a natureza e o cosmos como um todo (apesar de que ele não usa o termo grego kósmos). Sua linguagem críptica e seu estilo labiríntico de escrever, ao mesmo tempo em que buscavam dar conta de explicar o complexo funcionamento velado por trás de toda a aparência sensorial do que é (ou parece ser), sem que isso acabasse sendo reduzido e simplificado pelos limites da linguagem, causou e causa até os dias de hoje mais uma dificuldade para que seja devidamente entendido.

Para dificultar ainda mais seu estudo, restam para nós, desde a Antigüidade, apenas alguns fragmentos e recortes de sua obra completa. Uma boa parte foi perdida durante os séculos, fazendo muita falta para se ter uma apreensão mais abrangente e consistente da filosofia heraclitiana. O tipo de pensamento, pois, próprio dos filósofos pré-socráticos pode-se dizer que está no intermédio entre o pensamento mítico concreto e pensamento racional-filosófico abstrato; não deixou totalmente de empregar o artifício de imagens, por assim dizer, característica própria da linguagem mítica, como ainda também não se utiliza propriamente de conceitos abstratos. É possível perceber, não só nos fragmentos de Heráclito, mas também no poema de Parmênides e nos fragmentos de Anaximandro (entre outros pré-socráticos), esta mesma marca de um pensamento na transição entre a concretude mítica e a conceitualização teórica do pensamento filosófico.

O nosso objetivo final aqui é refletir acerca das noções de “compasso” e “descompasso” em Heráclito; dicotomia (ou ambivalência) esta na maneira de pensar o universo, ou o ser, que está centrada na diferença entre estar “sintonizado” com o logos (o ser enquanto ser) ou alheio a ele, como que “fechado” em sua inteligência particular. Logos é princípio (arkhé), ou poder, pelo qual tudo é. Além de outras coisas, Heráclito pensava que “tudo é um”, ou seja, que por trás de toda a multiplicidade de coisas do mundo, disponíveis para nossa experiência empírica, há algo que as une, que faz com que sejam uma e a mesma. Trataremos do conceito de Logos em Heráclito, que está na base de seu pensamento. O Logos é como que o “estofo” do universo, de tudo que é, presente em todas as coisas variadas e mutáveis que vemos. Para captar a sua essência, para intuir a sua presença oculta por detrás do “que se recusa a mergulhar”, é preciso sintonizar-se com ele, justamente por intermédio da razão (outro significado para a palavra grega logos). Logos possui diversos significados: entre eles, razão, pensamento, medida, palavra e discurso falado. Em Heráclito, Logos — no sentido forte — designa “o-que-é-com”, ou seja, o que é comum: uma instância universal que “participa” de tudo e de todos. Por este motivo, ela aparece em diferentes fragmentos com diferentes significações.

Começaremos analisando o fragmento presente na introdução do trabalho: “Deste logos sendo sempre (…)” logo nesta primeira frase, Heráclito se refere ao logos em questão; este logos é o ser enquanto tal, o logos universal, segundo o qual tudo vem a ser. Ele é sempre (sempre foi e sempre será), não importa as mudanças que venham a acontecer no mundo sensível, empírico. Esta é a meta ou preocupação de Heráclito: estar em contato com esta razão universal segundo a qual tudo vem a ser, portanto percebendo o universo na sua essência, seu outro lado, o da unidade, da permanência (mesmo que em contraste com ela haja, constantemente, conflito e guerra). Antes de continuarmos o trabalho, é extremamente importante deixar claro aqui que este logos não implica exatamente em ordem, harmonia, repouso, enquanto tais.

Para Heráclito, tudo vem a ser segundo a tensão entre os opostos. Tudo está em constante transformação, e os opostos, que são universais, estão presentes em tudo que é, batalham entre si o tempo todo para “assumir a posição”. No entanto, nunca o fazem, e a tensão se mantém eternamente. Só podemos pensar em repouso, harmonia e unidade do cosmos, em Heráclito, se entendermos que, para isso, é necessário que haja constante luta e guerra, pois somente esta tensão garante a permanência do universo.

O pensamento de Heráclito é, em linhas gerais, dominado por estes paradoxos e contradições; para ele, o próprio universo é regido segundo estes movimentos contrários e equivalentes, que se combatem e opõem numa “guerra cósmica”. Sem esta guerra, o universo pereceria. Precisamos esclarecer isto, pois, por mais que não seja nosso foco dentro da filosofia heraclitiana neste momento, não queremos deixar o entendimento equívoco de que Heráclito concebe a razão por trás do universo como algo perfeitamente ordenado e harmonioso. Como dissemos antes, nosso tema central aqui é a oposição entre compasso e descompasso, e o que isto implica no pensamento de Heráclito.

Voltando à análise do frag. 1, recolhido por Sexto Empírico, filósofo cético do século II d.C. – nele, Heráclito afirma, em seguida, que “os homens tornam-se descompassados do logos quer antes de tê-lo ouvido, quer tão logo o tenham ouvido”. Mais adiante, no frag. 50, recolhido por Hipólito, lemos: “Não de mim, mas do logos tendo ouvido é sábio homologar, tudo é um”. Heráclito se refere àqueles que permanecem presos ao mundo sensível, das aparências, enquanto têm acesso a conhecer “o-que-é-com”. Ele tem em mente “a massa de vulgos e inexperientes, como ele próprio os chama”, que constitui o senso comum – baseado em doxa e limitado a conhecer o mundo em sua transição e multiplicidade contingentes.

Para “o Obscuro”, não é possível o conhecimento empírico fundamentado, científico, uma vez que a realidade sensível está constantemente em transformação, transitoriedade, ao ponto de qualquer formulação ou definição acerca de algum objeto sensível ser inviável. É como se a realidade empírica fosse pura ilusão, aparência, que nos afasta da verdade última que se esconde por trás do visível. Isto nos leva ao problema fundamentalmente heraclitiano do descompasso entre o ser e o dizer: dado que a realidade sensível está em constante mudança, num estado de contingência dispersivo e múltiplo, qualquer tentativa de objetivação desta realidade está fadada ao erro; o ser escapa o tempo todo ao dizer, o que justifica a forma com que Heráclito usa a linguagem para expressar a efemeridade das coisas e o constante movimento de passar de um estado para outro, de forma que a as palavras acabam tendo que “correr atrás do ser, que vive fugindo delas”.

A escrita de Heráclito é esguia, fugaz, dá voltas, se contradiz, está o tempo todo em tensão consigo mesma (e com o objeto da experiência empírica, como por exemplo, o rio que é e não é o mesmo), tudo isso para dar conta da não-fixidez da realidade sensível. Sem dúvida, não devemos esperar dele, como talvez tenha feito Aristóteles, nenhum rigor lógico: seu pensamento, derivado de sua cosmovisão, é de fato paradoxal, contraditório, enigmático, e não poderia deixar de sê-lo. É fascinante como consegue unir os elementos mais opostos e disparatados entre si, fazendo com que permaneçam “juntos” num repouso conflitante, ao mesmo tempo se contradizendo e complementando. Esta sua qualidade expressa o quanto o pensador tinha consciência do descompasso abismal entre a inteligência particular (da qual faz parte inclusive a linguagem humana) daqueles que “estão dormindo”, e a inteligência afinada com o logos que-é-com. No frag. 50, ele diz “não de mim, mas do logos tendo ouvido é fácil homologar, tudo é um”. Homologar aqui significa colocar-se junto ao logos, em comunhão ou consonância com ele. Como escreve Marilena Chaui[2], “e pelo mesmo motivo, o Obscuro critica o vulgo ou o senso comum, incapaz de ir além do que a experiência sensível lhe oferece e de compreender que tudo é um, tudo flui e que a permanência é mudança”.

Damião Berge, em sua obra O Logos Heraclítico[3], afirma que, para Heráclito, o que caracteriza a conduta humana em relação ao logos é a falta de compreensão, inclusive de interesse, pelo mesmo. Os inexperientes, ou ignorantes (axýnetoi; aqueles que não participam, que não se lançam com, não compreendem), segundo Berge, experimentam-se em palavras e ações, ou seja, ocupam-se com as práticas e atividades banais e as questões irrelevantes do cotidiano e da opinião pública. Outro fragmento que ilustra bem esta crítica é o segundo, também recolhido por Sexto Empírico: “Por isso é preciso seguir o-que-é-com, isto é, o comum, pois o comum é o-que-é-com. Mas, o logos sendo o-que-é-com, vivem os homens como se tivessem uma inteligência particular”. Não são capazes de dar o “salto” do particular para o universal, do equívoco para o unívoco, do sono para a vigília. Particular, descompassada, equívoca; qualquer desses atributos seria adequado para designar a inteligência daqueles que não participam do logos, que não o conhecem por que não o buscam. Mas que é buscar o logos? Como encontrá-lo? Para Heráclito, a resposta é bem parecida com aquela que posteriormente Sócrates sugeriria: conhece-te a ti mesmo.

A busca de si

Procurei-me a mim mesmo
(Frag. 101, PLUTARCO, Contra Colotes, 20.1 118 C)

A todos os homens é compartilhado o conhecer-se a si mesmos e pensar sensatamente.
(Frag. 116, ESTOBEU, Florilégio, V, 6)

Passaremos agora a analisar a questão da “busca” pelo logos, de acordo com Heráclito e, para começar, refletiremos acerca dos dois fragmentos acima que, juntos, sugerem e ilustram bem a concepção heraclitiana deste movimento. O logos para Heráclito é a verdade última sobre todas as coisas; o princípio, como dissemos anteriormente, de tudo. “Tendo ouvido a ele, é sábio homologar, tudo é um”. E não só isso: que Guerra é pai e rei de todas as coisas e que o repouso é ao mesmo tempo conflito. Buscar o logos é compassar-se, tornar-se junto com ele; é compreendê-lo racionalmente, por intuição. Retomemos, pois, a questão: como buscar o logos? Como o logos é o-que-é-com, todas as coisas dele participam – principalmente os homens, por serem racionais.

A resposta que Guthrie[4] sugerirá é a de uma auto-busca, ou auto-conhecimento (“self-search”); uma investigação profunda dentro de si mesmo que tem como objetivo ir de encontro com o logos, sintonizar-se com ele. Segundo Guthrie, Heráclito nunca tivera mestre, tampouco aprendeu com outrem tudo o que sabia. Era uma espécie de autodidata, que aprendia tudo de si mesmo, através do seu próprio método filosófico: o “self-search”. Para Heráclito, esta parecia ser a única via para se alcançar a verdade universal escondida. Para a maioria das pessoas, no entanto, fechadas no mundo das aparências, este plano superior está inacessível, pois dormindo não conseguem enxergar nada, ao contrário de caso estivessem despertos.

Homens que não sabem ouvir nem falar” (frag. 19), estes são aqueles que ignoram a dimensão interior de si mesmos, dimensão esta que os leva ao conhecimento divino daquilo que de tudo participa, segundo o qual tudo vem a ser e cuja centelha, por assim dizer, está presente em qualquer pessoa. Isto nos leva à relação conceitual entre os dois fragmentos apresentados no início desta parte do trabalho: Heráclito procurou-se a si mesmo, assim como “a todos os homens é compartilhado conhecerem-se a si mesmos e pensar sensatamente”, ou seja, de acordo com o-que-é-com.

Aparentemente, sua doutrina pode parecer de um caráter essencialmente religioso, ou teológico, como afirma Giovanni Reale em sua obra Os Primeiros Teólogos. Particularmente, não compartilhamos desta opinião: muito mais que religioso-teológica, a doutrina heraclítica é fundamentalmente cosmológica; até por que nas suas teorias a respeito do “mecanismo” do universal, estão excluídos os pares sexuais típicos das gonias mítico-religiosas. Sua intenção é a homologação do microcosmo humano com o macrocosmo universal, da razão equívoca humana com a razão cósmica unívoca, da inteligência particular com a inteligência universal. Isto é estar compassado com o logos. Sua filosofia era mais a de uma cosmovisão totalizante, transcendente, que meramente um método religioso cujo objetivo seria unir-se ao Divino enquanto tal.

Da negligência para com este itinerário logotrópico necessário (logotrópico por ir em direção, em busca do logos), com esta busca interior pela verdade universal, Heráclito acusava não somente o vulgo, a massa imersa no senso comum, mas também outros célebres filósofos pré-socráticos de sua época e antecessores seus, como Homero e Hesíodo. Não eram somente os incultos que ignoravam o-que-é-com, mas também aqueles ditos por serem grandes eruditos. No frag. 40, recolhido por Diógenes Laércio, Heráclito diz que “muita instrução não ensina a ter inteligência; pois teria ensinado Hesíodo e Pitágoras, Xenófanes e Hecateu”. Se colocarmos o fragmento 41 como continuação deste último, apreendemos ainda mais da sua concepção de verdadeiro conhecimento: “pois uma só é a (coisa) sábia, possuir o conhecimento que tudo dirige através de tudo”, ou seja, o conhecimento do logos. Inclusive os filósofos eram alvo das invectivas de Heráclito: vemos isto em relação a Hecateu e principalmente Pitágoras (entre outros) que, segundo o efésio, eram condenados por praticarem historas, conceito que tangencia a noção de investigação empírica, sensível. Historie consistia em coletar o maior número de conhecimentos diversos possíveis, viajando pelo mundo afora, conhecendo pessoas diferentes e inquirindo-as a respeito das mais variadas coisas; incluía também o estudo da natureza exterior (os corpos celestes, fenômenos metereológicos, terremotos, etc.) nos moldes do método investigativo empregado pelos milésios. É como se os filósofos (a quem Heráclito se refere ironicamente no fragmento 35) buscassem nos lugares mais alhures e remotos conhecimentos superficiais e diversos quando o que deveriam buscar (o único conhecimento verdadeiro, universal, absoluto e eterno, “que tudo dirige através de tudo”) já está dentro deles.

Outra atitude filosófica que, ainda segundo Guthrie, Heráclito abominava era a polimatia, ou seja, a pretensão de posse dos mais diversos saberes. Ficamos sabendo, a partir deste estudioso da Grécia Antiga, que os poetas, neste período, era reconhecidamente habilitados a ensinar disciplinas como teologia, moral e até mesmo artes e ofícios. Como dito antes, o método heraclitiano era outro: o auto-conhecimento, uma investigação infindável de si mesmo, em busca do que Guthrie chama de a “verdadeira natureza de si”.

Para Damião Berge (e Guthrie também parece pensar assim), não conhecer o logos é um erro, ou falha (hamartia), do qual os axýnetoi são culpados. Segundo ele, há tão-somente duas atitudes possíveis para com o logos: aquela a favor dele e a que o hostiliza (sendo esta a atitude dos chamados “inexperientes”, ou “adormecidos”). Portanto, ignorar o-que-é-com é ir, de certa maneira, contra o logos sendo-sempre, uma idéia com a qual consideramos razoável concordar

Vigília e sono como compasso e descompasso

Não se deve agir nem falar como os que dormem
(Frag. 73, MARCO AURÉLIO, IV, 46)

“Heráclito diz que para os despertos um mundo único e comum é, mas os que estão no leito cada um se revira para o seu próprio
(Frag. 89, PLUTARCO, Da Superstição, 3 p., 166C)

Aqui nos deteremos sobre as metáforas, ou analogias, do “estar acordado” e “estar dormindo” como referências para o estado de descompasso e compasso, respectivamente, em relação ao logos.

Guthrie, na mesma obra citada anteriormente, dá uma explicação coerente para o emprego desta metáfora, baseando-a no próprio ato “fisiológico” de dormir. Segundo o estudioso, para Heráclito, cada homem, quando desperto, tem a possibilidade de um duplo acesso ao logos, ou ser enquanto tal: pela inteligência e pelos sentidos (incluindo aqui não apenas os cinco sentidos básicos, mas também todos os canais de contato entre o corpo humano e o exterior, principalmente a respiração). No entanto, quando está adormecido, sua mente como que se “fecha” ao Logos, cedendo vez para os sonhos, que são irreais, e as ilusões. Durante este estado, a única via de acesso ao Logos – notemos aqui que esta noção abrange “logos” tanto como “natureza que ama esconder-se” quanto “aquilo que jamais mergulha”, ou seja, tanto na sua forma material, empírica, externa, quanto na forma suprema, divina, velada.

Quando dormindo, portanto, saímos do mundo comum (segundo o qual todas as coisas participam umas das outras) para um mundo privado, que encontra conformidade conceitual com a inteligência particular. Daí que “para os despertos um mundo único e comum é”, enquanto para os que estão adormecidos, cada um se revira para o seu próprio mundo particular e equívoco. O estado de vigília é, portanto, tanto no sentido metafórico quanto no literal, o único no qual é possível participar do logos da maneira mais completa, por assim dizer, mais perfeita: não só através dos órgãos e dos sentidos, mas principalmente através da inteligência. Diante disto podemos tirar uma conclusão acerca da distinção heraclitiana entre mundos (ou realidades) privado e comum. Sobre isso, Guthrie diz que

os sentidos são canais através dos quais, assim como a respiração, nós entramos no logos num sentido literal, físico. Eles são comparados a janelas através das quais ‘a mente (nous) presente em nós’ avança e, fazendo contato com tudo o que a rodeia, instala o ‘poder do pensamento’. Entretanto, ao dormir, esses canais se fecham e então a mente é ‘prevenida de participar do que está lá fora’ (…) Resta a respiração como único meio de contato com a fonte exterior de vida, como uma ‘raiz’, diz Sexto Empírico. Nós ainda participamos em alguma medida da atividade cósmica (…) A respiração, pelo que parece, é suficiente para manter a vida, mas não a racionalidade”[5].

Não é à toa que Heráclito acusa a maioria de, mesmo, acordada, limitar-se a colaborar passivamente com os acontecimentos do universo. Virados cada um para o seu leito privado, cometem a falta para com o Logos. O Efésio dá a impressão de que sua doutrina, muito mais do que meramente um exercício ou busca racional de logos, é antes uma atividade noética, do nous, que compreende não só a razão humana, mas o intelecto, ou espírito, a intuição. Uma questão que levantamos, a partir disto, é se a filosofia heraclitiana não teria, no fundo, o caráter de uma gnose, no sentido de um conhecimento especial, superior, mesmo de uma ascese.

O que nos traz de volta para a interpretação teológico-religiosa de Reale, para quem Heráclito e outros pré-socráticos foram, antes de qualquer coisa, teólogos. Não seria absurdo, talvez, considerar que o pensamento heraclítico integrasse ambas as coisas, como se a cosmologia e a teologia fossem, para ele, uma só.  Porém, não importa qual destas hipóteses esteja certa, aqueles de mente descompassada estavam, para o Obscuro, muito longe de chegarem a qualquer lugar, no sentido de despertarem para sua ignorância da verdade única, suprema, absoluta e eterna do universo.

Considerações finais sobre compasso e descompasso: o uno no múltiplo e o imutável no mutável

Conjunções o todo e o não todo, o convergente e o divergente, o consoante e o dissoante, e de todas as coisas um e de um todas as coisas
(Frag. 10, ARISTÓTELES, Do Mundo, 5.396 b)

Não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias como de arco e lira
(Frag. 51, HIPÓLITO, Refutação, IX, 9)

Resta-nos, antes de concluir o objetivo deste trabalho – que é precisamente o de levantar as questões fundamentais envolvendo as noções de compasso e descompasso, assim como as relações que esta dupla e antinômica maneira de “ver” o mundo mantêm com o resto do pensamento heraclitiano – fazer algumas considerações finais sobre a unidade escondida por trás da multiplicidade e o repouso divergente por trás da realidade sensível.

Heráclito chamava a realidade que está aí, perante nossos olhos, daquilo que “se recusa a mergulhar”, a esconder-se. Portanto, a isto é impossível deixar de ver, uma vez que se impõe aos nossos sentidos. Por outro lado, no fragmento 123, recolhido por Temístio, Heráclito afirma que “natureza ama esconder-se”. Escutando o Logos, temos acesso a esta natureza que se vela, por trás da qual se dá a conjunção do todo com o não todo, do convergente com o divergente e de todas as coisas com uma coisa só. Porém, descompassados, não percebemos como tudo está em constante mudança, que os contrários se combatem incessantemente e que tudo flui. Vemos apenas a natureza em sua aparência sensível, a natureza que jamais mergulha.

Outra alegoria importante para ilustrar a questão da natureza que ama esconder-se é o da tensão contida tanto no arco quanto na lira: aparentemente, aquele conjunto de armação e corda parece em repouso, parado, mas uma análise mais sensata revela imediatamente que a corda, esticada, está exercendo uma contínua tensão entre si e o suporte do arco ou da lira. Se cortada, perceberemos o efeito da tensão sendo dissipada. Assim se dá em toda a natureza que, embora aparente estar parada, no sentido de em repouso e harmonia, está, na verdade, em constante tensão consigo mesma, ou melhor, os opostos universais contidos nela estão o tempo todo em tensão e conflito consigo mesmos, e se para Heráclito há alguma harmonia no universo, esta harmonia tem como pressuposto necessário a incessante tensão entre os divergentes.

Tomemos por referência, agora, a alegoria do rio, segundo o qual “nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos”: para Heráclito, pelo fluxo constante das coisas, não podemos afirmar que elas são uma coisa num primeiro momento e continuam sendo esta mesma coisa num momento seguinte; tudo está em constante transformação, em constante passagem de um estado para outro, e os opostos entre si convergindo, tudo segundo a discórdia, que rege todas as atividades do universo. Com o rio se dá o mesmo, e quando dizemos isto, devemos prestar atenção que, de certa maneira, é à palavra “rio”, isto é, à linguagem, que estamos nos referindo.

Voltamos ao problema da linguagem descompassada com o logos sobre o qual falamos brevemente no início do trabalho: a partir do momento em que definimos aquele fluxo constante de elementos contrários que se disputam e mudam de estado continuamente como “rio”, caímos em erro, pois no momento seguinte, ele não é mais “rio”, pelo menos não como no momento anterior. Lembremos como, para Heráclito (o que influenciou muito o pensamento de Platão) o conhecimento empírico do mundo é inviável, uma vez que tudo está mudança e nada para no lugar; não há repouso, não há fixidez, portanto não há como estabelecer conceitos fixos, denominações, atribuições estáveis.

É notável a forma como Heráclito demonstra estar consciente desta gigantesca ruptura gnoseológica entre a inteligência particular, descompassada, e a inteligência em sintonia com o logos, compassada. Ele próprio, pela sua linguagem obscura e difícil, mostrava sua preocupação com o problema essencialmente humano de estar dividido entre duas razões, duas maneiras de conceber o universo e a si mesmo dentro dele. A linguagem humana falha ao tentar exprimir o logos; o máximo que se consegue é traduzir de forma bem simplificada seus movimentos e transformações de acordo com os opostos entre convergente e divergente, repouso e tensão, unidade e multiplicidade e mutabilidade e imutabilidade, como o fez Heráclito brilhantemente. O ensinamento que ele nos lega é que, uma vez alcançado certo grau de lucidez, uma vez tendo chegado a enxergar o mundo em sua essência mais íntima, para além do que nos aparece sensivelmente, passamos a ter uma noção totalmente diferente do universo como um todo, e nas suas formas de funcionar e se manifestar. Fica evidente como, partindo de uma cosmovisão como a de Heráclito, em que o microcosmo humano é posto frente a frente com o macrocosmo universal, o ser humano enfim consegue se dar conta de seu lugar no mundo e do seu tamanho nele. E se dá conta também de que, querendo ou não, é uma parte ativa deste universo, agindo de acordo ou contra ele, colaborando ativa ou passivamente.

Comum a todos é o pensar
(Frag. 113, ESTOBEU, Florilégio, I, 179)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2004

BIBLIOGRAFIA:

[1] PENSADORES, Os (Abril Cultural, São Paulo, 1973)

[2] CHAUI, Marilena (Introdução à Filosofia – dos pré-socráticos a Aristóteles, p. 85 – São Paulo, Cia. Das Letras, 2002)

[3] BERGE, Damião – O Logos Heraclítico; introdução ao estudo dos fragmentos (Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1969)

[4] GUTHRIE, W.K.C. – A History of Greek Philosophy I; The Earlier Pre-Socratics and the Pythagoreans (Cambridge University Press, USA, 1962)

[5] GUTHRIE, W.K.C. – A History of Greek Philosophy I; The Earlier Pre-Socratics and the Pythagoreans (Cambridge University Press, USA, 1962), tradução própria.

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