A contradição é o que salva Cioran. É dela que deriva o seu humor irresistível, que não raro leva a gargalhadas niilistas.

Na entrevista radiofônica com Paul Assall, em 13 de março de 1985, Cioran começa dizendo que o ceticismo “deriva da minha experiência de vida pessoal, da minha luta cotidiana com a vida. E de uma enorme, direi antiga, desilusão, de uma desilusão inata.”

E quando o entrevistador, Paul Assall, lhe pergunta se o seu pensamento “se move a partir de uma constante da natureza humana”, Cioran responde:

Isto é absolutamente verdadeiro. Todavia, apesar de eu ser essencialmente um cético, não sou apenas cético, mas talvez também um fanático. Ainda que o tom da minha vida seja cético, tenho atitudes que não o são. Direi assim: por toda a minha vida, por exemplo, eu me confrontei com a mística. Ela é o exato oposto, a negação do ceticismo e, enfim, sempre acabei voltando para o ceticismo. Na minha vida, eu também me entusiasmei por muita coisa, mas o ceticismo sempre foi o cume negativo de tudo o que eu vivi. Assim, devo reconhecer que, apesar de tudo, sou fundamentalmente um cético.

Páginas depois, após manifestar algumas expressões dessas atitudes que não são céticas, Paul Assall pergunta a Cioran se “isso significa que a certeza é a categoria do seu pensamento filosófico, a certeza histórica e a privada.” Resposta:

A certeza absoluta. Neste sentido, não sou um cético! Quero dizer isto: não posso imaginar que, no futuro, o homem possa realizar alguma coisa que seja mais grandiosa que a música. Tenho uma altíssima consideração pela música, que para se coloca acima inclusive da metafísica. Não posso imaginar que no futuro possa vir a existir outro Bach ou outro Beethoven. Na história há dois fenômenos que representam, para mim, o ápice: a metafísica indiana e a música alemã. Elas duas são, para mim, as coisas mais grandiosas que o ser humano já produziu. Não creio que possa existir nada mais profundo nem expressivo. Talvez em outros âmbitos existam produções comparáveis, sem nenhuma necessidade de absolutizar, mas é a minha firme convicção de que a metafísica indiana e a musica alemã são o que há de maior. Uma justificação do homem.

CIORAN, E. M., La speranza è più della vita. Intervista con Paul Assall. A cura di Antonio di Gennaro. Trad. di Stefania Achella. Milano: Mimesis, 2015.

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