Antes de responder a esta pergunta inicial, impõe-se uma precaução preliminar: não pretendo fazer aqui uma interpretação do Trágico. Apenas desejo fazer a sua descrição, e a ideia de uma interpretação compromete toda possibilidade de descrição. Pode-se inclusive dizer que o rechaço de toda interpretação é tão mais indispensável em nosso assunto tanto mais quanto a alma constitui a alma mesma do sentimento trágico — e que poderíamos propor, como primeira definição do Trágico, a revelação de um súbito rechaço de toda ideia de interpretação. Não que ninguém deva proibir-se de refletir sobre a definição do Trágico, mas é que primeiro se faz importante conhecer aquilo sobre o qual vamos focar a nossa reflexão. Inicialmente, pois, nada a interpretar. Comecemos então pela mais humilde e imediata das análises: o que é que nos revela a mera análise psicológica do Trágico?

A primeira verdade que a análise psicológica nos ensina é que não há situações trágicas, que a ideia do trágico repousa inteiramente numa relação entre duas situações, que ela é a representação ulterior da passagem de um estado a outro, e que, por conseguinte, pode-se falar de mecanismo trágico, mas não de situação trágica. Mas, atenção: para que nossa definição seja completa, cumpre precisar que o trágico só aparece quando nos representamos, retrospectivamente, o mecanismo trágico, não quando o vivemos; e se ocorre de alguém sentir o trágico no momento mesmo em que este se põe em jogo, então essa pessoa antecipa o trágico, representado como algo já consumado, passado: pressente-se, poder-se-ia dizer, o mecanismo antes mesmo que se tenha ativado, prevê-se a maneira exata como o ressorte trágico vai entrar em cena quando, de fato, nada mais faz do que detonar-se. De modo que há duas ideias essenciais e complementares no sentimento trágico: a ideia de movimento e a ideia da súbita imobilidade, fundidas numa única intuição — horribile sentitu –; a ideia de um mecanismo fixo, que se pode representar, dir-se-ia, num quadro, sem ter conta do tem po, pois se trata de um esquema trágico que, quando entra em ação, usurpa de algum modo o tempo, serve-se dele, atua como se fosse o tempo: e então é apenas quando o mecanismo trágico terminou a sua obra que nós nos damos conta de que não se tratava do tempo, mas do trágico disfarçado, que se havia revestido das aparências do tempo para melhor nos enganar. […]

Examinemos, por exemplo, o caso de uma morte acidental: estou eu caminhando pela rua, ao pé de um edifício em construção; um trabalhador dá um passo em falso no andaime, cai de uma altura de 20 metros, na minha frente, e morre. A náusea me sobe à garganta, mas, enquanto levam o corpo numa maca e contemplo a mancha de sangue sobre a qual jogam areia, dou-me conta de que me submergi num horror intelectual e não sob uma comoção psicológica. Com efeito, não apenas me encontro em presença de um espetáculo trágico, não sou a testemunha de uma “situação”, como o seria o transeunte que desemboca numa rua adjacente após o acidente e que, na presença de um cadáver, crê descobrir a morte. De fato, sou o único a ter captado o trágico da morte, não porque o trabalhador se estatelou aos meus pés, mas porque eu o vi, no espaço de um segundo, vivo, morrer, morto; porque o trágico se apresentou a mim como mecanismo, não como situação, e, repito, a ideia de uma situação trágica, caso se dê à palavra “trágico” o seu sentido mais forte, parece-me uma contradição em termos. O trágico não é esse cadáver que levam embora, é a ideia de que esse monte de carne sangrenta é o mesmo que aquela pessoa que há pouco caiu, que deu um passo em falso; é a ideia da passagem entre o estado vivo e o estado morto que me represento agora, quando ele já está morto, quando a ambulância já o levou: “a representação ulterior de um estado a outro”, o mecanismo trágico. […]

Separar a vida da morte, fazer distinção entre a vida e a morte equivale a negar a ideia da morte: ao menos o que há de trágico na ideia da morte. O que nós entendemos por essa separação consiste em ver a morte exclusivamente com as colores da vida… Esta visão “otimista”, se me atrevo a dizê-lo, é a dos parentes da vítima, para quem a ideia do cadáver que lhes é entregado não vai se sobrepor à ideia do companheiro vivo que conheceram, e também a dos transeuntes que não veem senão um mero cadáver, que veem a morte apenas com os olhos da morte. A ideia da identidade do vivo e do morto, ideia trágica dentre todas, segue sendo estranha a eles.

Mas sigamos com nossa investigação psicológica: descobrimos que a visão do mecanismo trágico não nos causa horror senão pelo fato de que o representamos como uma entidade fixa, fora do tempo; que, à nossa definição de mecanismo, é preciso acrescentar a definição de rigidez; que, para compreender a nossa comoção diante desta morte acidental, seria necessário introduzir uma ideia de imobilidade dentro da nossa representação móvel do tempo. […] No lugar do tempo “livre”, da livre sucessão dos instantes, eis que descobrimos aqui um tempo rígido, necessário: um tempo “determinado”, no sentido mais forte do termo. Tão determinado que já não podemos concebê-lo como móvel e, consequentemente, como tempo. Com efeito, nós representamos simultaneamente o que em nosso espírito não podemos deixar de dissociar: por um lado, os instantes transcorridos enquanto o operário trabalhava, resvalava, caía e morria; por outro, nossa representação intelectual do esquema da morte, a descrição da armadilha da morte tal como a abraçamos no espírito, não no tempo: “Para morrer, quando se trabalha num andaime situado a 20 metros acima do solo, basta dar um passo em falso, perder o equilíbrio; o centro da gravidade deve abandonar o polígono de sustentação, etc.” Aqui, a ideia da morte; lá, o tempo da morte; a reunião simultânea dos dois constitui o tempo trágico: o tempo, tal como o representamos após o acidente, não é um tempo como os demais, não é o tempo. Só posteriormente é que descobrimos que não era o tempo, pois a ideia mesma de mecanismo intelectual — intemporal — que se desenvolveu durante o tempo tomou, sem que nos déssemos conta, o lugar do tempo: o monstro trágico devorou o tempo adaptando-se ao seu contorno! Nesse momento, o horror nos congela de espanto, sobretudo se tomamos consciência da morte do tempo no momento mesmo em que o mecanismo trágico o devorou e se coloca em seu lugar — no lugar que deveria ocupar o tempo. Parece-nos ouvir a risada sardônica do inimigo que pouco a pouco se revela: “Não é que vos enganei bem? Não é certo que me disfarcei muito bem para devorar-vos? Eu me vesti de todas as formas e de todos os hábitos de teu mais íntimo amigo, o mais conhecido, para que não suspeitasses… E agora teu amigo está morto, está em meu poder. Já não podes contar com o tempo, pois o tempo está morto, e eu o matei”.

ROSSET, Clément, La filosofía trágica. Trad. de Ariel Dilon. Buenos Aires: El Cuenco de Plata, 2010.

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