A base psicológica do caráter nascido duas vezes parece ser uma certa discordância ou heterogeneidade do temperamento congênito do sujeito, uma constituição moral e intelectual incompletamente unificada:

“Homo duplex, homo duplex!”, escreve Alphonse Daudet

A primeira vez que percebi que eu era dois foi por ocasião da morte de meu irmão Henri, quando meu pai gritou tão dramaticamente, “Ele está morto, ele está morto!” E ao passo que meu primeiro eu chorava, o segundo pensava: “Como foi natural e espontâneo esse grito, como ele ficaria bem no teatro!” Eu tinha, então, catorze anos.
Essa horrível dualidade forneceu-me, reiteradas vezes, matéria para reflexão. Oh, esse terrível segundo eu, sempre sentando enquanto o outro está de pé, agindo, vivendo, sofrendo, atarefando-se. Esse segundo eu que nunca fui capaz de embebedar, de fazer chorar, ou de adormecer. E como ele enxerga o fundo das coisas, como zomba!

Obras recentes sobre a psicologia do caráter têm tido muita coisa para dizer sobre esse ponto. Algumas pessoas nascem com uma constituição interior harmoniosa e bem equilibrada desde o princípio. Os impulsos são compatíveis uns com os outros, a vontade segue sem dificuldade a orientação do intelecto, as paixões não são excessivas, e suas vidas são pouco assediadas pelos pesares. Outros são constituídos de maneira oposta; e assim o são em graus que podem variar desde alguma coisa tão leve, que resulta numa inconsequência apenas estranha ou caprichosa, até uma discordância cujas consequências podem ser inconvenientes ao extremo. Dos tipos mais inocentes de heterogeneidade encontro bom exemplo na autobiografia da Sra. Annie Besant,

Sempre fui a mais estranha mistura de fraqueza e força, e tenho pago um preço alto pela fraqueza. Criança, eu costumava sofrer as torturas da vergonha e, se o atilho do meu sapato estivesse solto sentia, achanhadíssima, todos os olhares fitos no desastrado cordão; moça, fugia de estranhos e me julgava não desejada e desamada, de modo que me enchia de gratidão por quem quer que se mostrasse bondoso comigo; jovem dona de casa, eu tinha medo dos criados, e preferia deixar passar serviços descuidados ao sofrimento de recriminar o desleixado; depois de haver pronunciado uma palestra ou participado de um debate sem que me faltasse o ânimo no tablado, eu preferia voltar para o hotel sem ter obtido o que desejava a tocar a campanhia e mandar o garçom trazer-mo. Combativa no palanque em defesa de qualquer causa que me interessasse, fujo de discussões ou desaprovações em casa, e sou essencialmente covarde em particular, embora me mostre boa lutadora em público. Quantas vezes passei infelizes quartos de hora cobrando coragem para admoestar algum subordinado que o dever me obrigava a escarmentar, e quantas vezes escarneci de mim mesma quando a falsa heroína de palanque, quando fugia de censurar algum rapaz ou rapariga por haverem feito mal o seu serviço. Um olhar desamorável ou uma palavra desamável me obrigam a encolher-me dentro de mim, como a lesma se recolhe ao caracol, ao passo que, no palanque, a oposição sempre me faz defender com ardor minhas ideias.

Essa dose de incoerência só será considerada uma amável fraqueza; mas um grau mais forte de heterogeneidade pode estragar a vida do sujeito. Há pessoas cuja existência é pouco mais que uma série de zigue-zagues, quando ora uma tendência, ora outra, leva a melhor. O espírito entra em choque com a carne, os desejos são incompatíveis entre si, impulsos caprichosos lhe interrompem os planos mais deliberados, e suas vidas são um longo drama de arrependimento e esforço para reparar inconveniências e erros.

JAMES, William, As variedades da experiência religiosa: um estudo sobre a natureza humana. Trad de Octavio Mendes Cajado. São Paulo: Cultrix, 2017.

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