Galaxia (São Paulo, Online), n. 29, p. 308-313, jun. 2015

PELBART, P-P.
O avesso do niilismo:
cartografias do esgotamento.
São Paulo: N-1 Edições, p.345, 2013.

Resumo: O avesso do niilismo é um rigoroso diagnóstico dos afetos que o governo niilista da vida aciona. O objetivo do estudo é, a partir da relação entre niilismo e biopolítica, atualizar o sentido do conceito nietzschiano, inscrevendo-o no diagrama histórico contemporâneo. Pelbart parte do sintoma mais flagrante do presente – o esgotamento, a crise – para expressar o campo microfísico das forças ativas e reativas em jogo na composição social neoliberal. A cartografia é o método pelo qual é possível nuançar, por um lado, o funcionamento dos dispositivos de produção de valores e subjetividades capitalísticas, para, no movimento seguinte, revirá-los do avesso no ato de nomear as possibilidades de resistência que espocam mundo afora e criam formas outras de viver, produzir e pensar em comum.
Palavras-chave: niilismo; biopolítica; esgotamento; cartografia; resistência; produção de subjetividade.

Abstract: Between becoming and exhausting. This book is a rigorous diagnosis of the affections that the nihilist government of life sets up. The objective of this study is, departing from the relation between nihilism and biopolitics, update the sense of nietzshcian concept, typing it in the contemporaneous historic diagram. Palbert starts from the most flagrant symptom in the present – the exhaustion, the crises – to express the microphysic field of the active and reactive forces in play in the neoliberal social composition. The cartography is the method by which is possible highlight, on one hand, the functioning of dispositifs that produces values and capitalism subjectivities, to, on the other hand, turn then upside down in the act of naming resistance possibilities that popes around the world and create other ways of living, producing and thinking in common.
Keywords: nihilism; biopolitics; exhaustion; cartography; resistance; production of subjectivity

Nada mais em sintonia à candente contemporaneidade do que o tema do niilismo. Disso trata o recente livro do filósofo Peter Pál Pelbart. O Avesso do Niilismo: cartografias do esgotamento (2013) (345 p.) foi publicado, em versão bilíngue, pela N-1 edições, fruto de uma parceria entre editores de Brasil e Finlândia. Os ensaios reunidos são, em sua maioria, resultado de intervenções apresentadas por Pelbart ao longo das duas últimas décadas em seminários de filosofia, conversas sobre criação artística e debates políticos realizados no Brasil e no mundo, bem como artigos escritos exclusivamente para o adensamento da obra, dando um caráter indisciplinar à pesquisa.

Nesta multiplicidade de textos, o filósofo não mobiliza a noção cara à Nietzsche no marco de uma querela que supostamente desvelaria a essência subjacente ao conceito. Antes, o objetivo do autor é nomear adequadamente a energética niilista que agita cotidianamente as micro relações sociais e diagnosticar, por conseguinte, o campo das forças ativas e reativas em jogo. A ideia é problematizar e atualizar o niilismo no diagrama histórico contemporâneo, notadamente biopolítico, no qual o estado de esgotamento generalizado é o sintoma mais flagrante. A cartografia é o método pelo qual é possível seguir e nuançar os processos materiais e subjetivos, o pathos, da associação entre niilismo e biopolítica que se encontram dentro da constituição do maquinário capitalista neoliberal.

Para essa empreitada, Pelbart faz uma leitura cerrada da obra de Niezstche e do pós-estruturalismo de Deleuze, Guattari e Foucault e os conecta com uma rede de intercessores que mistura o pensamento de Espinoza, Negri, Lazzarato, Simondon, Preciado, Stenger, James, Deligny, Viveiros de Castro, Agamben, até mesmo Heidegger, com a literatura de Becket, Melville, Kafka, Proust, Joyce, Dostoievsky entre outros. Dessa conversação desdobram-se os conceitos mais inusitados, com suas personagens filosóficas correlatas, num mapeamento cuidadoso dos afetos que circulam pelo território político-econômico-subjetivo do presente.

O niilismo marca o tom e o ritmo dos quatro platôs que compõem o livro: nomeadamente, Estados de Esgotamento, Perspectivas sobre o niilismo, Políticas de dessubjetivação, Modos de Existência. Não são exatamente capítulos sequenciais, não há linearidade na obra. A temática se desdobra por saltos, rupturas, desvios. Cada artigo é um acontecimento, na acepção rigorosa do termo. Os ensaios problematizam repetidamente a dinâmica niilista, mas sempre com uma linha de diferenciação, uma tonalidade afetiva nova, estendendo o sentido do conceito em várias direções, a depender das questões formuladas e das referências mobilizadas.

Pode alguém indagar, contudo, qual é a validade de recuperar um tema tão desbotado e europeu a partir da conjuntura sul-americana? Como não pensar, entretanto, em outro lugar senão este, os trópicos, e o Brasil particularmente, como o terreno onde se experimenta os efeitos niilísticos estalando em toda sua fervura? Não por acaso, o livro foi publicado logo após as Jornadas de Junho de 2013, quando a multidão brasileira rugiu
alto contra os poderes constituídos da nação, inscrevendo o país no ciclo de lutas globais aberto pela Primavera Árabe e viralizado por todos os continentes, sem exceções, matéria abordada, inclusive, em dois textos da obra.

Tudo se passa como se os corpos vibrassem numa nova frequência, cuja onda Pelbart arrisca captar. Momentos de crise como este propiciam a abertura de um processo incontornável de mutação sensível, de recusa subjetiva e de afirmação ética, isto é, de criação de novos modos de existência. Esse contexto insinua uma metamorfose antropológica e exige do pensamento um estilo outro de nomear os encontros da vida. O avesso do niilismo enuncia, à sua maneira, essa angustiante condição, na qual oscilamos entre um estado de esgotamento quase irreversível do arranjo niilista e o desejo por uma forma de viver autônoma, democrática e alegre. Em termos conceituais, essa dinâmica é assim caracterizada: o embate entre os poderes sobre a vida – biopoder – e as potências da vida – biopotência… [PDF]