Sobre duplos, (des)ilusões e a “idiotia do real”: Clément Rosset

Nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a imperiosa prerrogativa do real. Esta faculdade falha tão frequentemente que parece razoável imaginar que ela não implica o reconhecimento de um direito imprescritível — o do real a ser percebido –, mas representa antes uma espécie de tolerância, condicional e provisória. Tolerância que cada um pode suspender à sua vontade, assim que as circunstâncias o exijam: um pouco como as aduanas que podem decidir de um dia para o outro que a garrafa de álcool ou os dez maços de cigarros — “tolerados” até então — não passarão mais. Se os viajantes abusam da complacência das aduanas, estas demonstram firmeza e anulam todo o direito de passagem. Da mesma forma, o real só é admitido sob certas condições e apenas até certo ponto: se ele abusa e mostra-se desagradável, a tolerância é suspensa. Uma interrupção de percepção coloca então a consciência a salvo de qualquer espetáculo indesejável. Quanto ao real, se ele insiste e teima em ser percebido, sempre poderá se mostrar em outro lugar.

Esta recusa do real pode, naturalmente, tomar formas muito variadas. A realidade pode ser recusada radicalmente, considerada pura e simplesmente como não-ser: “Isto — que julgo perceber — não existe.” As técnicas a serviço de uma tal negação radical são, aliás, elas mesmas muito diversas. Posso aniquilar o real aniquilando a mim mesmo: fórmula do suicídio, que parece a mais segura de todas, ainda que, apesar de tudo, um mínimo coeficiente de incerteza pareça vinculado a ela, se acreditarmos, por exemplo, em Hamlet: “Quem gostaria de carregar esses fardos, gemer e suar sob uma vida fatigante, se o temor de algo após a morte, desta região inexplorada, de onde nenhum viajante retorna, não perturbasse a vontade e não nos fizesse suportar os males que temos por medo de nos lançarmos naqueles que não conhecemos?” Posso também suprimir o real com menores inconvenientes, salvando a minha vida ao preço de uma ruína mental: fórmula da loucura, muito segura também, mas que não está ao alcance de qualquer um, como lembra uma célebre frase do doutor Ey: “Não é louco quem quer”. Em troca da perda de meu equilíbrio mental, obterei uma proteção mais ou menos eficaz com relação ao real: afastamento provisório no caso do recalcamento descrito por Freud (subsistem vestígios do real em meu inconsciente), ocultação total no caso da forclusão descrita por Lacan. Posso, enfim, sem sacrificar nada da minha vida nem de minha lucidez, decidir não ver um real do qual, sob outro ponto de vista, reconheço a existência: atitude de cegueira voluntária, que simboliza o gesto de Édipo furando os olhos, no final de Édipo Rei, e que encontra aplicações mais ordinárias no uso imoderado do álcool ou da droga.

Entretanto, essas formas radicais de recusa do real permanecem marginais e relativamente excepcionais. A atitude mais comum, face à realidade desagradável, é bastante diferente. Se o real me incomoda e se desejo livrar-me dele, me desembaraçarei de uma maneira geralmente mais flexível, graças a um modo de recepção do olhar que se situa a meio-caminho entre a admissão e a expulsão pura e simples: que não diz sim nem não à coisa percebida, ou melhor, diz a ela ao mesmo tempo sim e não. Sim à coisa percebida, não às consequências que normalmente deveriam resultar dela. Esta outra maneira de se livrar do real assemelha-se a um raciocínio justo coroado por uma conclusão aberrante: é uma percepção justa que se revela impotente para acionar um comportamento adaptado à percepção. Não me recuso a ver, e não nego em nada o real que me é mostrado. Mas minha complacência pára por aí. Vi, admiti, mas que não me peçam mais. Quanto ao restante, mantenho o meu ponto de vista, persisto no meu comportamento, exatamente como se não tivesse visto nada. Coexistem paradoxalmente a minha percepção presente e o meu ponto de vista anterior. Aí, trata-se menos de uma percepção errônea do que de uma percepção inútil.

Esta “percepção inútil” constitui, ao que parece, uma das características mais marcantes da ilusão. Estaríamos provavelmente enganados em considerar esta como resultando principalmente de uma deficiência no olhar. Às vezes se diz que o iludido não vê: ele está cego, cegado. É inútil a realidade se oferecer à sua percepção: ele não consegue percebê-la, ou a percebe deformada, tão completamente atento que está apenas aos fantasmas de sua imaginação e de seu desejo. Esta análise, válida sem nenhuma dúvida para os casos propriamente clínicos de recusa ou ausência de percepção, parece muito sumária no caso da ilusão. Menos ainda que sumária: antes à margem de seu objeto.

Na ilusão, quer dizer, na forma mais corrente de afastamento do real, não se observa uma recusa de percepção propriamente dita. Nela a coisa não é negada: mas apenas deslocada, colocada em outro lugar. Mas no que concerne à aptidão para ver, o iludido vê, à sua maneira, tão claro quanto qualquer outro. Esta verdade aparentemente paradoxal se torna perceptível a partir do momento em que pensamos no que se passa com a pessoa cega, tal como nos mostra a experiência concreta e cotidiana, ou ainda o romance e o teatro. Alceste, por exemplo, em O misantropo, vê bem, de forma perfeita e total, que Célimène é uma coquete: esta percepção, que ele acolhe todo dia sem protestar, nunca é posta em questão. E, no entanto, Alceste está cego: não por não ver, mas por não associar seus atos à sua percepção. O que vê é colocado como fora de circuito: o coquetismo de Célimène é percebido e admitido, mas estranhamente separado dos efeitos que seu reconhecimento deveria normalmente acarretar no plano prático. Pode-se dizer que a percepção do iludido é como que cindida em dois: o aspecto téorico (que designa justamente “aquilo que se vê”, de théorein) emancipa-se artificialmente do aspecto prático (“aquilo que se faz”). Aliás, é por isso que este homem afinal de contas “normal” que é o iludido está, no íntimo, muito mais doente do que o neurótico: porque, de maneira diferente do segundo, ele é deliberadamente incurável. Aquele que está cego é incurável não por ser cego, mas sim por ser dotado de visão: porque é impossível lhe “fazer ver de outra forma” algo que já viu e que ainda vê. Toda “advertência” é vã: não se poderia “advertir” alguém que já tem, debaixo dos olhos, aquilo que se pretende que ele veja. No recalcamento, na forclusão, o real pode eventualmente reaparecer, se acreditarmos na psicanálise, graças a um “retorno do recalcado”, nos sonhos e nos atos falhos. Mas, na ilusão, esta esperança é vã: o real não voltará jamais, porque já está . Observaremos de passagem a que ponto o doente de que os psicanalistas se ocupam representa um caso anódino e, em suma, benigno, em comparação com o homem normal.

A expressão literária mais perfeita da recusa da realidade é talvez a oferecida por Georges Courteline em sua célebre peça Boubouroche (1893). Boubouroche intalou a sua amante, Adèle, em um pequeno apartamento. Um vizinho de andar de Adèle previne caridosamente Boubouroche da traição cotidiana de que é vítima este último: Adèle partilha o seu apartamento com um jovem namorado que se esconde num armário toda vez que Boubouroche visita a sua amante. Louco de raiva, Boubouroche irrompe na casa de Adèle numa hora inabitual e descobre o amante no armário. Cólera de Boubouroche, à qual Adèle responde  com um silêncio desgostoso e indignado: “Você é tão vulgar”, declara ao seu protetor, “que não merece nem a mais simples explicação que logo teria dado a outro, se ele tivesse sido menos grosseiro. É melhor nos separarmos”. Boubouroche admite imediatamente os seus erros e o infundado de suas suspeitas: depois de ser perdoado por Adèle, só lhe resta voltar-se contra o vizinho de andar, o odioso caluniador (“Você é um velho corno e um imbecil”). Esta pequena peça chama imediatamente atenção por uma característica singular: ao contrário do que acontece frequentemente, a vítima de um logro não se satisfaz aqui com nenhuma desculpa, com nenhuma explicação. O espetáculo de seu infortúnio não é velado por nenhuma sombra. Há, em suma, um impasse para o engodo: a vítima de um logro não tem necessidade de ser enganada, basta-lhe realmente ser vítima de um logro. É que a ilusão não está do lado daquilo que se vê, daquilo que se percebe: assim se explica que se possa, como Boubouroche, ser vítima de um logro ao mesmo tempo que não se está sendo enganado por nada. E, contudo, Boubouroche, mesmo desfrutando de uma visão correta dos acontecimentos, mesmo tendo surpreendido o seu rival no esconderijo, continua a acreditar na inocência da sua amante. Essa “cegueira” merece que nos detenhamos um pouco nela.

Imaginemos que, por uma razão ou por outra, eu esteja ao volante do meu caso, muito apressado para chegar ao destino, e encontre um sinal vermelho no meu caminho. Posso me resignar ao atraso que ele causa, parar o meu veículo e esperar que o sinal mude para o verde: aceitação do real. Posso também recusar uma percepção que contraria meus propósitos; decido então ignorar a interdição e ultrapasso o sinal, isto é, procuro não ver um real cuja existência reconheci: atitude de Édipo furando os próprios olhos. Ainda posso, sempre na hipótese de uma recusa de percepção, considerar rapidamente que este obstáculo colocado no meu caminho acarretará um sofrimento demasiado cruel para minhas faculdades de adaptação ao real; decido então acabar com isso suicidando-me com o auxílio de um revólver guardado no meu porta-luvas, ou “recalco” a imagem do sinal vermelho no meu inconsciente. Assim enterrado, este sinal vermelho que ultrapassei jamais virá à tona na minha consciência, a menos que um psicanalista ou um policial se envolvam. Nestes dois últimos casos (suicídio, recalcamento), opus uma recusa de percepção à necessidade de parar em que a percepção do sinal vermelho teria me colocado. Mas ainda existe outro meio de ignorar esta necessidade, que se distingue de todos os meios precedentes no que faz justiça ao real, concordando assim, pelo menos em aparência, com a percepção “normal”: percebo que o sinal está vermelho — mas concluo que é a minha vez de passar.

É exatamente o que acontece com Boubouroche. O raciocínio que o tranquiliza poderia se enunciar mais ou menos assim: “Há um rapaz no armário — logo Adèle é inocente, e eu não sou cornudo.” Esta é, na verdade, a estrutura fundamental da ilusão: uma arte de perceber com exatidão, mas de ignorar a consequência. Assim, o iludido transforma o acontecimento único que percebe em dois acontecimentos que não coincidem, de tal modo que a coisa que percebe é posta em outro lugar, incapaz de se confundir consigo mesma. Tudo se passa como se o acontecimento fosse magicamente cindido em dois, ou melhor, como se dois aspectos do mesmo acontecimento viessem a assumir cada um uma existência autônoma. No caso de Boubouroche, o fato de Adèle ter escondido um amante e o fato de ele ser um cornudo tornam-se miraculosamente independentes um do outro. Descartes diria que a ilusão de Boubouroche consiste em tomar uma “distinção formal” por uma “distinção real”: Boubouroche é incapaz de perceber a ligação essencial que, no cogito, une o “eu penso” ao “eu existo”; ligação exemplar da qual uma das inúmeras aplicações ensinaria a Boubouroche que é impossível distinguir realmente entre “minha mulher me trai” e “sou um cornudo”.

ROSSET, Clément, O real e seu duplo: ensaio sobre a ilusão. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.

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