Ontem, hoje, amanhã: categorias para uso de criados. Para o ocioso suntuosamente instalado no Desconsolo, e ao qual todo instante aflige, passado, presente e futuro são somente aparências variáveis do mesmo mal, idêntico em sua substância, inexorável em sua insinuação e monótono em sua persistência. E esse mal possui a mesma extensão do ser, é o ser mesmo.

Fui, sou ou serei, é questão de gramática e não de existência. O destino – enquanto carnaval temporal – presta-se a ser conjugado, mas, despojado de suas máscaras, mostra-se tão imóvel e tão desnudo como um epitáfio. Como se pode conceder mais importância à hora que é do que à que foi ou será? O equívoco no qual vivem os criados – e todo homem que se apegue ao tempo é um criado – representa um verdadeiro estado de graça, um obscurecimento encantado; e este equívoco – como um véu sobrenatural – cobre a perdição à qual se expõe todo ato engendrado pelo desejo. Mas, para o ocioso desenganado, o puro fato de viver, o viver puro de todo fazer, é uma obrigação tão extenuante, que suportar a existência simplesmente parece-lhe um ofício pesado, uma carreira fatigante – e todo gesto suplementar, impraticável e nulo.

CIORAN, E.M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.