Será que a inteligência artificial nos tornará uma espécie de Über-marionetes, como sugere John Gray em seu primoroso ensaio sobre a liberdade humana, A Alma da Marionete?

Após a notícia de que uma prestigiada casa de leilões de Londres iria leiloar o primeiro quadro pintado por inteligência artificial, desta vez a notícia é de que inteligência artificial tenta prever quando as pessoas vão morrer. Algo análogo — o determinismo científico baseado na aplicação antropológica dos algoritmos — já havia sido imaginado pela série Black Mirror (temporada 4), no episódio “Hang the DJ”, em que pessoas se conhecem através de um aplicativo de relacionamentos que estabelece, de antemão, se elas são feitas uma para a outra e, se não (mesmo que os pretendentes tenham outra percepção), o tempo que deverá durar, por convenção ou regra (nomos), o relacionamento entre eles. O que o Tinder une, apenas o Tinder pode separar…

Cioran viveu para testemunhar bastante “progresso”, muitos avanços tecnocientíficos — ele, que tinha horror ao telefone, ao automóvel e ao avião, mas que gostava da bicicleta –, mas não o que surgiu de 20 anos para cá, modificando ainda mais a paisagem.

Se é verdade que a civilização avançou tecnologicamente nos últimos 200 anos mais do que em dois milênios, é verdade também que tem avançado cada vez mais rápido nas últimas décadas do que no último século. É a chamada aceleração em direção à “singularidade“, para falar como o futurólogo Ray Kurzweil, cujo entusiasmo pela tecnociência é discutido por Gray.

Gráfico logarítmico contendo quinze listas de mudanças paradigmáticas para eventos-chave na história da humanidade, que mostra uma tendência de natureza exponencial. Listas preparadas por Dorion Sagan, Paul D. Boyer, Enciclopédia Britânica, Museu Americano de História Natural e Universidade do Arizona, dentre outros, e compiladas por Ray Kurzweil.

Estamos atravessando uma profunda e irreversível revolução antropológica. Não fazemos ideia do que será o Homem daqui a 100 ou 200 anos — se é que ainda existirá sobre a face da Terra. Antropólogos, filósofos e ecologistas têm tido exaustivos debates em torno do Antropoceno. Segundo Bruno Latour, “apesar de suas ciladas, o conceito de Antropoceno oferece uma via poderosa, se usado de maneira sensata, de evitar o perigo de naturalização ao mesmo tempo em que assegura que o antigo domínio do social – o domínio do “humano” – seja reconfigurado como sendo a terra dos Terráqueos ou dos Terranos. […] Mas esse conceito pode também chamar nossa atenção para o fim do que Whiteahead chamou de ‘bifurcação da natureza’, ou a recusa da separação entre Natureza e Humanidade que tem paralisado a ciência e a política desde a aurora do modernismo.”

Argumentando a favor da atualidade da concepção aristótelica de phronesis como virtude intelectual de cunho prático (ético, político), Marcelo Perine afirma que “o descrédito da razão nas ‘coisas humanas’ em uma civilização cada vez mais submetida ao império da tecnociência explica, pelo menos em parte, a esquizofrenia mais popular do nosso tempo: a que opõe natureza e cultura” (Quatro lições sobre Aristóteles, p. 47).

Essa “esquizofrenia”, esse dualismo é, ademais, uma preocupação comum a Hans Jonas, conforme problematizado pelo artigo de Márcio Adriano dos Santos Dias. Em todo caso, trata-se de saber em que ela se distingue da mesma oposição, a saber, entre physis e nomos, afirmada por Sofistas, Céticos e filósofos Cínicos na Antiguidade. Uma coisa é certa: a nossa oposição entre natureza e cultura ou técnica é indissociável do niilismo, enquanto que os Antigos desconheciam esse “hóspede sinistro” que, segundo Nietzsche, está a porta da nossa morada, e que a esta altura pode-se dizer que já adentrou o recinto e doravante se confunde com os habitantes.

Cumpre assinalar que dita “esquizofrenia”, dito dualismo é uma oposição de fato, não propositiva e normativa. Ela é o fato da humanidade, ou melhor, da nossa civilização esfalfada, ofegante de tanta pressa, de tanta aceleração. Em direção a quê? O fenômeno identificado por Hans Jonas, Bruno Latour e Marcelo Perine é, historicamente, ao mesmo tempo contingente e necessário: em tese, a priori, poderia não ser/ter sido assim; efetivamente, foi, é, tem sido assim, e à medida que não pôde ser de outro modo, é necessário — e de certa forma trágico — que assim seja.

O intelecto pode muito bem negar a oposição “esquizofrênica” entre natureza e cultura, afirmando a sutil mas necessária continuidade entre uma coisa e outra. Estará respaldado por Platão, Aristóteles, Kant, e tantos outros ilustres Filósofos. Teoricamente, faz todo sentido pensar a continuidade, a unidade entre o que a physis faz/produz e o que o anthropos faz/produz. Afinal, este é parte integrante daquela.

Sim, mas o homem se insere na natureza como um verme no fruto ou um câncer no organismo, em todo caso, como um titã temerário, usurpador e falsificador das coisas (naturais). De onde o anti-prometeísmo, o desprezo a Prometeu por parte dos Cínicos, e o seu elogio dos Ciclopes, que não precisam da técnica para cultivar a terra, não precisam suar a fronte para viver. O paradoxo da unidade entre physis e nomos é que, se por um lado nos vemos forçados a entender um câncer, do ponto de vista biológico, como algo natural e, em alguma medida, normal, por outro, se não há oposição ou descontinuidade entre physis e nomos, deveremos concluir que a bomba atômica é tão “natural”, tão naturalmente inserida e integrada no ecossistema planetário e na ordem universal, quanto o é um cogumelo selvagem.

Por fim, O que Cioran pensaria da Internet, dos smartphones, de conceitos como realidade virtual e realidade aumentada? O que pensaria ele sobre o papel do algoritmo nas nossas vidas? Ele faleceu em 1995 e, feliz ou infelizmente, mal pôde imaginar o que estava por vir nesses tempos de aceleração e “singularidade”. Pensador existencial com certa vocação metafísica, se não mística, o autor nascido em Rasinari nunca se interessou pela tecnologia, pela técnica, pela ciência… “Objeção contra a ciência: este mundo não vale a pena ser conhecido”, lê-se nos Silogismos da amargura. Face ao homo duplex, o seu interesse por excelência é o homem interior.

O historiador Yuval Harari, em excelente artigo sobre Big Data, Google e o fim do livre arbítrio (Financial Times, 26 de agosto de 2016), afirma que na era teológica, o homem recorria a Deus como fonte da verdade acerca de questões essenciais; na era humanista, aos sentimentos e à “consciência”; na era dataísta (de Big Data), recorremos ao Google e ao poder oracular dos algoritmos. Eles já detectam preventivamente o câncer de mama. Também pintam quadros. Agora, pretendem calcular a hora exata em que morreremos.

L’homme accepte la mort mais non l’heure de sa mort. Mourir n’importe quand, sauf quand il faut que l’on meure ! [O homem aceita a morte, mas não a hora da sua morte. Morrer não importa quando, salvo quando é preciso morrer!]

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