“Filosofia e mística em Simone Weil” (Maria Clara Lucchetti Bingemer)

Revista CULT, no. 64, 2002 (edição especial “Cristianismo e modernidade”)

A pensadora francesa que viveu os dilaceramentos da Segunda Guerra Mundial encontrou na vulnerabilidade da carne humana um caminho para a união com Deus e para a redenção

Simone Weil (1909-1943) nasceu em Paris, filha de uma família de origem judaica. Seu pai era um médico da Alsácia e sua mãe, originária da Rússia. Seu irmão, um precoce matemático. Formada em filosofia pela Sorbonne, foi a primeira mulher catedrática da França. Era a discípula predileta do filósofo Alain, formada em completo agnosticismo, apaixonada pelo tema da condição humana no mundo do trabalho.

Viveu intensamente as lutas, esperanças e dores de seu tempo. Movida por intenso sentimento de solidariedade, abandona o magistério para trabalhar como operária fabril. Experienciou desde dentro as lutas operárias na França do início do século. Nos anos 30, a intelectual Simone vive junto aos operários franceses a crise e o desemprego. São anos duros, decisivos em sua vida. Neles, em  suas cortantes palavras, recebe na carne a marca da escravidão que “é o trabalho sem luz de eternidade, sem poesia, sem religião” (“A mística do trabalho”, em La pesanteur et la grâce, editora Plon).

A dolorosa experiência do trabalho fabril em condições de aguda exploração é alimento para reflexões que marcam toda sua trajetória como pensadora. Uma pensadora ferida pela verdade de que “nenhuma poesia sobre o povo é autêntica se a fadiga não estiver presente nela, assim como a fome e a sede nascidas da fadiga” (“A mística do trabalho”), nos deixa um insuperável diagnóstico das causas da escravidão moderna: “as coisas representam o papel dos homens, os homens representam o papel das coisas: eis a raiz do mal” (“Expérience de la vie d’usine”, em Écrits historiques et politiques II, Oeuvres complètes, editora Gallimard).

A “marca da escravidão” e o sentimento de solidariedade levam Simone às portas da fé cristã, quando de numa viagem de repouso em Viana do Castelo, um vilarejo português de pescadores. Dessa experiência temos o relato: “num estado físico miserável, entrei nessa pequena aldeia portuguesa – que era, ai! tão miserável também – sozinha à noite, sob a lua cheia, no dia da festa do padroeiro. As mulheres dos pescadores faziam a volta aos barcos em procissão, levando círios e cantando cânticos certamente muito antigos e de uma tristeza dilacerante… Ali tive de repente a certeza de que o cristianismo é, por excelência, a religião dos escravos, que os escravos não podem não aderir a ela, e eu entre os outros” (citado por Ecléa Bosi em Simone Weil – A condição operária e outros estudos sobre a opressão, editora Paz e Terra).

Após retornar à França, Simone vive na carne os tempos difíceis da ascensão do nazi-fascismo na Europa, tempos “em que tudo o que normalmente parece constituir uma razão de viver se desvanece; em que devemos, sob pena de afundarmos no desnorteamento ou na inconsciência, questionar tudo” (“Réfléxions sur les causes de la liberté et de l’oppression sociale”, em Écrits historiques et politiques II, Oeuvres complètes).

Convalescente, se recolhe a uma clínica em Montana, no caminho da Itália. Conhece o país. Em Assis, teve significativa experiência religiosa: “estando só na capelinha românica do século XII de Santa Maria dos Anjos, incomparável maravilha de pureza onde São Francisco rezou muitas vezes, alguma coisa mais forte do que eu me obrigou, pela primeira vez na vida, a me por de joelhos” (citado por Ecléa Bosi).

O itinerário de vida de Simone vai ser um contínuo servir, um despojar-se, um “abaixar-se” para uma união amorosa cada vez mais profunda, uma proximidade cada vez mais solidária com os pequenos, os humildes, os desprezados, os “párias” da modernidade. Durante suas férias trabalha de servente em propriedades rurais, onde trata de vacas, colhe beterrabas e causa espanto em meio aos proprietários: “… ela comia pouco, mas quantas perguntas! Falava nos campos a perder de vista, sobre um futuro martírio dos judeus, sobre a guerra que viria sem demora. Quando lhe oferecíamos um bom pedaço de queijo, ela o rejeitava dizendo que as crianças indochinesas tinham fome. Pobre moça! Tanta instrução fez com que perdesse a cabeça” (citado por Ecléa Bosi).

Nesse “abaixar-se” que enlaça no amor às carências do humano, Simone é progressivamente seduzida pelo Mistério cristão. O pensamento da Paixão de Cristo penetra-lhe o fundo da existência: sente-se vivendo hoje a continuidade dessa Paixão, dessa vulnerabilidade amante que se doa a si mesma em meio às dores do mundo. Na Páscoa de 1938, Simone, acompanhada pela mãe, vai à abadia de Solesmes ouvir canto gregoriano. Acometida de fortes dores de cabeça, mal que lhe retornava periodicamente em crises agudas, a audição se lhe constitui verdadeiro ato penitencial. Ali conhece estudantes que apresentam obras de poetas ingleses do século XVII. Passa a recitar, em oração, em diversos momentos, o poema “Love”, de George Hebert. Numa dessas ocasiões, em novembro de 1938, tem experiência mística profunda: “Senti, sem estar de maneira alguma preparada, porque nunca tinha lido os místicos, uma presença mais pessoal, mais certa, mais real que a de um ser humano… No instante em que Cristo se apoderou de mim, nem os sentidos, nem a imaginação tiveram parte alguma; senti somente através do sofrimento a presença de um amor semelhante ao que se lê no sorriso de um rosto amado” (Attente de Dieu, editora Fayard).

A Segunda Guerra Mundial será para Simone a grande e derradeira interpelação. Formula planos insensatos de engajamento no conflito recusados pelas autoridades francesas. De início recusa-se a abandonar Paris, mas por fim cede diante da insistência dos pais. Em 1940, os Weil fogem em direção a Marseille. No racionamento alimentar do tempo de guerra dá a maior parte de seus talões para os refugiados e senta-se à mesa dos mais miseráveis para compartilhar as refeições. Em Marselha, conhece o Padre dominicano Perrin, que a encaminha para a casa do escritor católico Gustave Thibon, onde trabalha no campo. Ali faz todos os trabalhos da fazenda, conduz o gado, descasca os legumes, ajuda as crianças nas lições. Nessa época escreve carta a Xavier Vallat, comissário para assuntos judaicos, respondendo com fina ironia à discriminação: “O governo fez saber que desejava que os judeus entrassem na produção e de preferência fossem para a terra… Sou nesse momento vindimadora… Meu patrão me deu a honra de me dizer que mereço meu lugar. Ele me fez mesmo o maior elogio que um agricultor possa fazer a uma mocinha vinda da cidade quando me disse que eu poderia desposar um lavrador. Ele ignora, certamente, que carrego, pelo simples fato do meu sobrenome, uma tara de origem que seria desumano de minha parte transmitir a filhos… considero o estatuto dos judeus, de um modo geral, injusto e absurdo, pois como alguém pode acreditar que um professor de matemática possa fazer mal às crianças que aprendem geometria pelo simples fato que três de seus avós iam à Sinagoga? Mas em meu caso particular, tenho que vos expressar o reconhecimento sincero que sinto pelo governo por me tirar da categoria social dos intelectuais e por me ter dado a terra, e com ela toda a natureza” (citado por Ecléa Bosi).

A Gustave Thibon, que permanece seu amigo, escreve mais tarde: “Penso que a vida intelectual, longe de dar direito a privilégios, é em si mesma um privilégio quase terrível que exige, em contrapartida, responsabilidades terríveis” (Simone Weil, telle que nous l’avons connue, de Thibon, editora La Colombe). O trabalho no campo ganha para ela simbolismo de conotação  eucarística: “As fadigas de meu corpo e de minha alma se transformam em nutrição para um povo que tem fome” (carta a Simone Pétrement reproduzida no livro de Thibon)… [+]

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