“Coisas”, em romeno, se diz lucruri (pl.), de lucru (sing.), “coisa”:

Tot ceea ce există (în afară de ființe) și care este conceput ca o unitate de sine stătătoare; obiect. Lucru în sine = noțiune a filozofiei lui Kant desemnând realitatea obiectivă, existentă independent de cunoașterea noastră, care, deși percepută sub formă de reprezentare, nu poate fi cunoscută în esența ei. [Tudo o que existe (à parte os seres) e que é concebido como uma unidade independente; objeto. Coisa em si = noção da filosofia de Kant, designando a realidade objetiva, que existe independente do nosso conhecimento, pois, embora possa ser percebida de forma representativa, não pode ser conhecida em sua essência.] (DEX.ro)

A coisa-em-si kantiana, em romeno, se diz o “lucro-em-si”. O substantivo romeno lucru deriva do latim lucrum. Uma das palavras gregas para “lucro”, “ganho”, “vantagem”, “proveito”, é κέρδος [kérdos], de onde “crédito”, que por sua vez está etimologicamente relacionado a khremata: “coisas” em geral (por exemplo, como na proposição de Protágoras, de que o homem é medida de todas as coisas), mas também “dinheiro” (de onde, no Fédon, philokhremate, “amantes do dinheiro”)

Assim, “as coisas” (em romeno, lucrurile, pois os nossos artigos, em romeno, vão dentro do substantivo) designam não apenas tudo o que existe em geral, conforme a definição do Dicionário Dex, mas especialmente as coisas no sentido de que estão ao alcance, à mão, à disposição do homem, para dominá-las, apropriar-se delas, empregá-las, consumi-las em proveito próprio: de onde o seu valor (sempre variável) e a sua (maior ou menor) utilidade. O dinheiro seria como uma “coisa-em-si” (lucru în sine), pois todas as coisas por dinheiro se trocam, assim como escreveu Heráclito, enigmaticamente: “Por fogo se trocam todas (as coisas) e fogo por todas, tal como por ouro mercadorias e por mercadorias ouro.” Não se usa dinheiro para comprar dinheiro, a não ser que se trate de câmbio entre moedas de diferentes países, de um especulador financeiro ou de um agiota; o dinheiro compra tudo, mas não pode ser comprado (como o sujeito puro do conhecimento, que conhece mas não pode ser conhecido, por ser transcendental e situar-se fora de toda experiência); e os juros indicam o valor do dinheiro no tempo.

Por fim, Barbara Cassin faz uma interessante análise sobre o termo grego khremata que é bastante elucidativa no tocante à relação etimológica entre “coisa’ em romeno e o nosso lucro.

Assim, em lugar da bivalência do verdadeiro e do falso, se instala uma problemática do valor; e não sob a forma de uma nova exclusão entre bem e mal, mas, segundo a pluralidade inerente ao comparativo, como um cálculo do melhor, no sentido do “útil”, e, mais exatamente, do “útil para”. É a partir daí que se deve compreender, na frase sobre o homem-medida, o termo khremata que Protágoras utiliza para designar justamente aquilo de que o homem é a medida. Khrema, da mesma família que khre, “é preciso, é necessário”, e que khraomai, “desejar, sentir falta, utilizar-se de”, se entende como ligado a kheir, “a mão”: designa, diferentemente dos pragmata (“as coisas” como resultado de uma ação, o estado de coisas) e dos anta (“as coisas” na condição de estarem presentes, os entes), aquilo de que se necessita ou de que se utiliza —  um caso, um acontecimento e, no plural, as riquezas, o dinheiro. Essa palavra-chave da sofística inaugura, face à economia eterna do ser, o desdobramento temporalizado do uso, da usura, do gasto: “Aquilo que alguém não utilizou nem utilizará (me ekhresato mede khresetai), quer seja seu ou não, isso não terá mais ou menos efeito” , diz, por exemplo, Antifonte, para consolar o avarento da fábula (87 B 54 D.K.) que, ao invés de “despejar o máximo possível” , como Cálicles em seus tonéis furados, enterrara seu tesouro (khremata, portanto) no jardim – e foi roubado. Poder-se-á, com Aristóteles, relacionar isso ao mau infinito da crematística, em que o dinheiro, apenas por sua circulação, produz dinheiro independentemente de qualquer necessidade, ou então ler aí o modelo de uma economia geral em que a acumulação e a troca dão lugar ao fluxo e ao que Bataille denomina de “consumação” [gaspillage]. Quer se trate de logos ou de khremata, compreende-se, em todo caso, que a sofística escolhe o tempo e seu curso contra o espaço e a presença. (O Efeito Sofístico)