Como o mal preside tudo o que é corruptível, o que equivale a dizer tudo o que vive, é uma tentativa ridícula querer demonstrar que ele possui menos ser que o bem, ou que não possui nenhum. Os que o assimilam ao nada imaginam salvar, assim, o pobre deus bom. Só se pode salvá-lo tendo a coragem de dissociar sua causa daquela do demiurgo. Por se recusar a fazê-lo, o cristianismo devia, durante toda sua carreira, esforçar-se a impor a inevidência de um criador misericordioso: empresa desesperada que esgotou o cristianismo e comprometeu o deus que ele queria preservar.

Não podemos evitar pensar que a criação, tendo permanecido em estado de esboço, não podia ser concluída nem merecia sê-lo, e que é, em seu conjunto, uma infração, sendo que o delito famoso, cometido pelo homem, aparece como uma versão menor de um delito muito mais grave. De que somos culpados se não de ter seguido, mais ou menos servilmente, o exemplo do criador? A fatalidade que era sua, nós a reconhecemos muito bem em nós: não foi por acaso que saímos das mãos de um deus infeliz e malvado, de um deus maldito.

*

Uns predestinados a crer no deus supremo, mas impotente; outros, no demiurgo; nós outros, finalmente, no demônio, não escolhemos nossas venerações nem nossas blasfêmias.

O demônio é o representante, o delegado do demiurgo, de cujos assuntos toma conta aqui embaixo. Apesar de seu prestígio e do terror ligado ao seu nome, ele não passa de um administrador, de um anjo encarregado de uma tarefa baixa, a história.

Outro é o alcance do demiurgo: sem ele, como enfrentaríamos nossas provações? Se nós estivéssemos à altura delas, ou se fôssemos simplesmente um pouco dignos delas, poderíamos nos abster de invocá-lo. Diante de nossas insuficiências patentes, nós nos agarramos a ele, imploramos para que exista: se se revelasse uma ficção, qual não seria nossa aflição ou nossa vergonha! Sobre quem mais descarregar-nos de nossas lacunas, de nossas misérias, de nós mesmos? Erigido por nosso decreto a autor de nossas carências, ele nos serve de desculpa para tudo o que não pudemos ser. Quando, ademais, o fazemos assumir a responsabilidade por este universo falhado, saboreamos certa paz: nenhuma incerteza mais sobre nossas origens nem sobre nossas perspectivas, mas a plena segurança no insolúvel, fora do pesadelo da promessa. Seu mérito é, na verdade, inestimável: ele nos dispensa inclusive de nossos lamentos, pois tomou para si a iniciativa dos nossos fracassos.

É mais importante encontrar na divindade nossos vícios que nossas virtudes. Nós nos resignamos às nossas qualidades, ao passo que nossos defeitos nos perseguem, nos trabalham. Poder projetá-los num deus suscetível de cair tão baixo quanto nós, e que não esteja confinado no sem-sabor dos atributos comumente admitidos, nos alivia e nos tranquiliza. O deus malvado é o deus mais útil que já existiu. Se não o tivéssemos à mão, aonde escoaria nossa bílis? Qualquer forma de ódio se dirige, em última instância, contra ele. Já que todos acreditamos que nossos méritos são desconhecidos ou desprezados, como admitir que uma iniquidade tão geral seja obra tão-somente do homem? Ela deve remontar mais acima, confundir-se com alguma tramoia antiga, com o próprio ato da criação. Sabemos, portanto, com quem nos avir, quem vilipendiar: nada nos agrada tanto, nada nos sustém tanto quanto poder localizar a fonte de nossa indignidade o mais longe possível de nós.

Quanto ao deus propriamente dito, bom e débil, entramos em acordo com ele sempre que não resta em nós mais traço algum de nenhum mundo, nesses momentos que o postulam, que, fixados a ele de pronto, o suscitam, o criam, e durante os quais ele surge de nossas profundezas para a maior humilhação de nossos sarcasmos. Deus é o luto da ironia. Basta, contudo, que ela se recomponha, que torne a ficar por cima, para que nossas relações com ele se azedem e se interrompam. Temos então muito que nos interrogar a seu respeito, queremos expulsá-lo de nossas preocupações e de nossos furores, inclusive de nosso desprezo. Tantos outros, antes de nós, infligiram-lhe golpes que nos parece ocioso, agora, encarniçar-nos sobre um cadáver. E, no entanto, ele ainda conta para nós, nem que seja pelo lamento de não termos, nós mesmos, o derrubado.

CIORAN, E. M., Le mauvais démiurge. Paris: Gallimard, 1969. Trad. do francês: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes

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