O gnosticismo, então e agora, em minha opinião, se levanta como um protesto contra a fé apocalíptica, mesmo quando o faz dentro de uma dessas fés, como fez sucessivamente no judaísmo, cristianismo e Islã. A religião profética torna-se apocalíptica quando a profecia falha, e a religião apocalíptica torna-se gnóstica quando o apocalipse falha, como felizmente sempre falhou e, devemos esperar, voltará a falhar. O gnosticismo não falha; não pode falhar, porque seu Deus está ao mesmo tempo no fundo do eu e também separado, infinitamente distante, além de nosso Cosmo. Historicamente, o gnosticismo sempre foi varrido pela perseguição, que foram das relativamente benignas rejeições do judaísmo normativo até a horrível violência do catolicismo romano contra os gnósticos cristãos em todas as épocas e sempre que a Igreja foi aliada próxima de autoridades seculares repressoras. O derradeiro gnosticismo ocidental organizado foi destruído nas chamadas Cruzadas albigenses, que devastaram o sul da França no século 13, exterminando não apenas os hereges gnósticos catares, mas também a língua provençal e sua cultura de troubadors, que sobreviveu apenas no mito e ideal predominantes ocidentais do amor romântico. Constitui mais uma ironia o fato de nossas vidas eróticas, com sua dependência autodestrutiva dessa doença da psique chamada “paixão”, serem uma herança final e inconsciente do último gnosticismo organizado até hoje. […]

Os anarquísticos Irmãos do Livre Espírito do século 15, como os catares provençais do século 12, juntam-se aos maniqueístas como os três grandes exemplos de movimentos gnósticos que transcenderam uma religião esotérica dos intelectuais. O gnosticismo antigo, como as variedades romântica e moderna, era uma religião só das elites, quase uma religião literária. Um gnosticismo purificado, então como agora, na verdade é apenas para relativamente poucos, e talvez seja uma disciplina tão estética quanto espiritual. Mas, com a aproximação do Milênio, com a remota mas real possibilidade de uma América gingrichiana virtual, podemos ver um gnosticismo maciço de protesto levantar-se com novos Irmãos do Livre Espírito, compostos de desprivilegiados urbanos sem assistência social federal e das tristes legiões da Geração X, os jovens de classe média que se ressentirão a vida inteira para pagar os déficits das revoluções reaganista e gingrichiana. É uma profecia sinistra, mas 1996-2000 pode continuar sendo o reino do presidente Gingrich, e portanto tornar-se de fato um choque do futuro, uma Coalizão Cristã (com alguns seguidores judeus neoconservadores) que aboliria grande parte da Carta de Direitos com emendas constitucionais, devolvendo-nos aos barões-ladrões dos Estados Unidos de fins do século 19.

BLOOM, Harold, Presságios do milênio: anjos, sonhos e imortalidade. Trad. de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996.

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