“Aquele que diz sim, aquele que diz não: religiosidade e heresia” (Marília Fiorillo)

Revista Estudos de Sociologia, v. 18, n. 34 (2013

RESUMO: Imaginação e religião entronizada são antitéticas. O dogma, cerne das grandes religiões monoteístas, nada mais é que uma diligente e metódica rejeição à curiosidade, autonomia e inventividade. É nesta relação assimétrica entre aquele que ignora, teme e suplica, e o Outro que tudo sabe e tudo dispensa que reside o poder das Igrejas.
PALAVRAS-CHAVE: Imaginação. Dogma. Assimetria. Medo. Igreja.

Se tomarmos imaginação em sua acepção primeira, ela é quase o mesmo que poesia: aquele modo de pensar e exprimir dúbio, sinuoso e plástico, linguagem elíptica e larga, na qual hesitações, contrastes e incoerências, o chiaroscuro dos obrigatórios oxímoros, enfim, são virtudes cardeais. A imaginação não teme o exagero nem o ambíguo, vagueia no fluxo contínuo e contraditório de ideias e humores, e é seu empenho fazer emergir o inesperado: numa palavra, cabe à imaginação dar vida ao sujeito. O sujeito ímpar, imprevisível e assertivo em sua incorrigível unicidade. Se a imaginação corteja o universal, é porque se nutre do absolutamente individual. Ela é inseparável do singular, do irrepetível, do novo, da criatura se afirmando e se recriando, condensando seu potencial e cintilando, inconfundível. Desta perspectiva, qualquer exercício de imaginação, por tímido que seja, será sempre um insulto às religiões.

Assim entrevistas, imaginação e religião são praticamente antitéticas. Religiões podem ser fortemente emocionais, em seu apelo e ritos, mas a ênfase na emoção (pessoal ou coletiva, catártica ou silenciosamente íntima), é serva do cânone, para que até mesmo o êxtase mais arrebatado corresponda aos padrões ditados pela convenção e devoção. A visão do paraíso será sempre estritamente na moldura do dogma, e a emoção catalisada nos rituais religiosos não pode fugir ao léxico das Igrejas: longe dela a intervenção anárquica da imaginação. Neste pequeno ensaio, ilustrado por um ou outro exemplo histórico, defenderemos que a imaginação coabita muito mal, conflagrada mesmo, com as religiões institucionalizadas, pois é outra a natureza do sentimento que a religiosidade institucionalizada demanda. De fato, quase o oposto: a emoção mais frequentemente convocada nas religiões, perene e diligentemente insuflada nos corações e preces, aquela vertiginosa emoção que as religiões despertam, depuram e alimentam é o medo. Na mais branda prudência, cautela extrema ou no terror, puro e simples, a mesma sensação de abismo. O medo é o guia, seja para justificar, naturalizando, vicissitudes e males do mundo, seja para acomodá-los a uma qualquer teodicéia, seja para confortar, negociando a punição. É no medo que repousa o inabalável poder das religiões.

E na petulante, desregrada e prolixa imaginação está sua antítese, uma letal abominação para a forma mentis religiosa; pecado sem remissão, sintoma inequívoco de heresia.

Não que as religiões deixem de recorrer ao fantasioso, claro. A fantasia mais comumente evocada nas religiões é a que recorre ao tremendum, corolário aterrador da noção, cunhada por Rudolf Otto (1992), de numinoso, a de que o inefável do fenômeno divino é o que provoca assombro, temor, tremor, o “sentimento de estado de criatura” mencionado por Rudolf Otto, sensação de se abismar no próprio nada diante da terrível transcendência, da inacessibilidade absoluta da divindade; não resta à criatura senão anular-se, pulverizando-se perante o que está acima (do pó ao pó). Daí a verdadeira vocação da emoção religiosa: a de ser, não a promessa do maravilhamento, (aquela promessa de felicidade contida na expressão e fruição artística), mas a ameaça do aniquilamento, precedida do aviso recriminador, do alerta continuo e da subreptícia vigilância, o trombetear cotidiano sobre o final dos tempos. A escatologia é matéria por excelência da emoção religiosa, e cumpre à perfeição seu papel: aterrorizar e, aterrorizando, assegurar-se da disciplina dos fiéis.

Seita ou religião?

O poder da religião não está em suas manifestações extremas, nos fundamentalismos (que tanto tem engajado, ultimamente), sequer em seu considerável braço temporal. Está além da mera aparência, da mera influência. Muito além dos decantados nepotismo e corrupção dos papas da Renascença, aquele ecumenicamente conferido privilégio para cometer excessos e vilanias, que fez do pontífice Alexandre VI, pai de Cesare e Lucrezia Borgia, o político mais astuto e letal de seu tempo. Também está além, muito além, dos arranjos políticos e guinadas na história que ela promove, dos feitos de um Salâh Al Din Yusef ibn Ayyub, ou Saladino o Grande, líder muçulmano curdo (curiosamente, o maior herói do Islã não era árabe) cuja diplomacia, mesclada à arte da guerra, minou a empreitada das Cruzadas (as Cruzadas,aliás, são outro cristalino exemplo da aliança pleonástica poder & religião). O poder da religião não repousa nas jihads ou outras sangrentas guerras santas que ela costumeiramente patrocina, nem é visível nos monumentos que ergue para se eternizar, pirâmides, catedrais, Michelangelos, Berninis, nem mesmo na riqueza patrimonial que as Igrejas amealham ou dissipam. Também não está, exatamente, na capacidade que elas têm demonstrado para transtornar o destino de povos inteiros, confortar e ludibriar muitos (com promessas de dádivas em outro mundo, traficando indulgências neste) ou mesmo arruinar uns poucos (hereges ao fogo).

O poder da religião vem de algo bem mais singelo e prosaico, intrínseco a ela, latente até em tempos de paz e prosperidade, quando os lírios do campo apenas florescem e as Igrejas tornam-se um tanto ociosas. Provém de sua entranha: de suas verdades inabaláveis, da imunidade atávica de seus dogmas.

Todo o resto é mera consequência: ouro, incenso e mirra, glória, magnificência, fortaleza, longevidade e também a incomparável habilidade de converter gente simples em fanáticos (ou, como disse o prêmio Nobel de física Steven Weinberg, de fazer com que gente boa pratique más ações). Estes são sintomas do poder das religiões, não seu fundamento. A arkhé, a causa primeira do poderio religioso é a altiva segurança de si que tem as Igrejas, suas doutrinas e embaixadores terrenos. Uma segurança que não admite réplica e que é o fulcro mesmo de toda religião. Pois em religiões que se prezam não cabem dúvidas e hesitações ( e divagações, digressões, oxímoros), não cabe o vício da imaginação. Blindada do efeito mortífero que mentes curiosas provocariam, amparadas pela infalibilidade do dogma, o resto é fácil. O resto, isto é, a extraordinária potência política, financeira ou bélica das Igrejas, sua autoridade moral e, finalmente, a infinita resiliência que têm demonstrado. Pois as religiões parecem ter sobrevivido intactas ao breve interregno dos renascentistas, primeiro, (que queriam reconduzir o homem ao centro do mundo), dos iluministas no século XVII, depois, (que queriam fazer da Razão um antídoto à superstição), assim como passaram impávidas e indiferentes, na virada para o XX, à cólera aristocrática de Nietzsche e sua repulsa à mentalidade de rebanho e tiraram de letra a passageira concorrência das religiões laicas de esquerda e direita, e seus profetas milenaristas Stalin e Hitler. Enfim, a perenidade e a incolumidade das religiões devem-se ao singelo motivo de que elas nunca precisam prestar contas. Nem à navalha de Ockham da lógica, nem à história, muito menos às suas fileiras. Pois um dos axiomas das religiões é nunca ter que se explicar. “Creio porque absurdo”, já dizia, no século II, um dos primeiros teólogos cristãos, o genial e vociferante Tertuliano de Cartago3. Ao contrário da ciência, cujo motor é a dúvida – perguntas, discórdia, desconfianças e rupturas de paradigmas foram o oxigênio de Galileu, Newton, Einstein, Heisenberg – a religião nasce, cresce, amadurece e se reproduz no dogma.4 E dogmas são incontestáveis não por serem tabus, leis que nos precedem e nos galvanizam como grupo, mas exatamente na medida em que significam, literalmente, mistérios.

Mistérios não estão por aí para ser deslindados, como o genoma humano, ou o bóson de Higgs. Qualquer tentativa de explicar, situar ou dar coerência ao dogma seria uma ingerência indevida, do ponto de vista religioso, além de tarefa vã, tola e inútil. Pretender destrinchar o sentido de um dogma, ou mistério religioso, denuncia o total despreparo espiritual do intrometido. Um mistério só é mistério porque absolutamente impenetrável, adverso a qualquer lógica, e, sobretudo, terreno minado para questionamentos ou contestações. De que maneira se poderia discordar do inefável, já que a inefabilidade é intraduzível? Para que argumentos a sustentar a fé, se a fé, quando legítima, prescinde de frivolidades como arrazoados? Estamos precisamente na terra do assim é, porque é assim, palácio dos truísmos em que os intelectualmente inquietos não devem pisar. Aliás, quanto mais implausível, bizarro ou abstruso for o dogma, melhor. Mistérios seduzem porque operam como os milagres: tanto mais poderosos quanto mais impossíveis e, acima de tudo, insondáveis. Uma curiosa recorrência no capítulo dos milagres é sua acachapante inutilidade: porque, em geral, eles nunca acontecem onde mais se precisa deles, como em Auschwitz ou na Aleppo de 2012, mas em Fátima, e seus beneficiários parecerem escolhidos randomicamente, (e não pelo critério da necessidade ou bondade), além de seus benefícios soarem um tanto avoados; afinal, não haveria nada mais premente que fazer uma estátua verter sangue? Bertrand Russell (1965) faz uma reclamação desta natureza numa passagem em que pergunta por que, nos evangelhos, há tão pouca caridade e amor por bichos e plantas: os pobres porcos, possuídos por um capricho de exibicionismo, são atirados ao abismo, e uma cândida árvore, num arroubo de pirotecnia milagreira, é condenada a secar.

Uma recente e respeitável tentativa de dotar de racionalidade e legitimidade certas religiões e Igrejas, aquelas entronizadas pelo crivo da longevidade, é a teoria de Rodney Stark.5, sedimentada uma noção difusa de suposta diferença entre seita e religião, que desqualifica a primeira e autoriza a última. O corolário desta diferenciação e hierarquização é uma visão também diferenciada entre compensadores religiosos e recompensas religiosas, que tende a desvalorizar novas denominações no mercado religioso. Em A Theory of Religion, Stark (1996) calca sua tipologia da espiritualidade partindo do pressuposto de que a religião, como qualquer outra esfera da existência humana, mais do que ser movida por impulsos irracionais e mistérios indecifráveis, obedece a um mesmo princípio de racionalidade, segundo o qual ninguém faz nada por acaso ou de graça, isto é, sem buscar algum tipo de recompensa. Os seres humanos buscariam o que percebem ser recompensas e evitariam o que percebem ser custos. Recompensas são custosas para se obter, e custos são tudo o que os seres humanos tentam evitar, embora, muitas vezes sejam um pedágio obrigatório para as primeiras…[PDF]

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