Cioran amava Bach acima de tudo. Se a Música era para ele a quintessência da “cultura”, e a única justificativa da Humanidade, Bach era a quintessência da Música: um Deus musical.

A sua obra como um todo está cheia de elogios à Música em geral e a Bach em particular. Nos Silogismos da amargura (1952), este aforismo: “Se há alguém que deve tudo a Bach, esse alguém é Deus.”

Em Lacrimi şi sfinÅ£i [Lágrimas e santos], seu terceiro livro (1937), lemos que “a música é a emanação final do universo, assim como Deus é a emanação última da música.”

Para o autor nascido em Raşinari, “a teologia é a negação de Deus. Que ideia descabida pôr-se a buscar argumentos para provar a sua existência! Desde que a teologia existe, nenhuma consciência conseguiu ganhar com ela uma certeza sequer, pois a teologia é a versão ateia da fé”.

Totalmente outro é o sentido e o valor da obra de Bach. “Quando escutamos Bach, vemos germinar Deus. A sua obra é geradora de divindade. Após um oratório, uma cantata ou uma ‘Paixão’, Ele tem que existir. Do contrário, toda a obra do Cantor seria uma ilusão desagarradora… E pensar que tantos teólogos e filósofos perderam dias e noites buscando provas da existência de Deus, esquecendo-se da única…” (Lacrimi şi sfinÅ£i)

Para Cioran, nenhuma diferença entre êxtase místico e êxtase musical (afinal, o êxtase é apenas uma sensação, a mais extraordinária e jubilosa de todas, mas também pode ser a mais desesperadora). Tanto faz alcançá-lo pela oração e o jejum, ou pela fruição de Bach (“fruição” direta e imediata do absoluto, de Deus). Para ele, a Música é a linguagem do Definitivo, a única arte e a única “produção” humana capaz de capturar o absoluto no tempo: “O infinito atual, paradoxo para a filosofia, é a realidade, a essência mesma da música.” (Silogismos da amargura)

A meditação musical deveria ser o protótipo do pensamento em geral. Que filósofo alguma vez seguiu um motivo até o seu esgotamento, até o seu limite extremo? Só em música há pensamento exaustivo. Mesmo depois de ler os filósofos mais profundos, experimentamos a necessidade de voltar a começar. Só a música nos dá respostas definitivas. (Lacrimi şi sfinţi)

Sempre me perguntei porque Bach, e não outro compositor. Após Cioran, sempre que escuto Bach, eu me lembro dele (Cioran) e da sua “teologia bachiana”. Sinceramente, nunca consegui sentir essa divindade, nunca fui transportado graças a Bach. Até escutar este Prelúdio & Fuga no. 1 em C maior. Creio ter encontrado aí um vislumbre musical da divindade (não a encontrei em nenhum oratório, em nenhuma cantata, em nenhuma “Paixão”). Escutando-a, sinto-me aconchegado no seio imaterial do Absoluto, e a existência é um leve aroma transparente e sem destino. O Mal mesmo torna-se inatual, nulo… Deus é mais facilmente imaginável como som, como Música, do que propriamente como Imagem, Ser, Substância, em todo caso, uma forma visual (sempre antropomórfica, sempre suspeita; de onde a superioridade estética e ontológica de toda música puramente instrumental, destituída de voz). Nenhuma arte melhor do que a Música para nos fazer ver a divindade sonora…

Aliás, “imaginação” deveria se chamar “sensacinação”, pois não se restringe à imagem, e talvez as “imaginações” mais profundas, as mais essenciais, não sejam imagéticas. Expressão equívoca de certo “logocentrismo” (Derrida), de uma cultura da Razão e da Palavra baseadas na visão e em metáforas predominantemente ópticas, em detrimento de outros órgãos e faculdades da percepção e da experiência humanas (exterior e interior). “Eu vi, logo sei”… Um místico bachiano como Cioran diria: “Eu escutei (ou auscultei), logo sei”.

É verdade, como escreveu Schopenhauer, que todo filosofar começa, como a abertura do Don Juan, com um acorde menor. E termina com um C maior