Schopenhauer foi, como filósofo, o primeiro ateísta confesso e inabalável que nós, alemães, tivemos: esse era o pano de fundo de sua hostilidade a Hegel. A profanidade da existência era para ele algo dado, tangível, indiscutível; ele perdia a sua compostura de filósofo e se encolerizava toda vez que alguém mostrava hesitação e fazia rodeios nesse ponto. Toda a sua retidão está nisso; o ateísmo incondicional e honesto é o pressuposto de sua colocação dos problemas, como vitória obtida afinal e com grande custo pela consciência europeia, como o ato mais pródigo em consequências de uma educação para a verdade que dura dois mil anos, que finalmente se proíbe a mentira de crer em Deus… Vê-se o que triunfou realmente sobre o Deus cristão: a própria moralidade cristã, o conceito de veracidade entendido de modo sempre mais rigoroso, a sutileza confessional da consciência cristã, traduzida e sublimada em consciência científica, em asseio intelectual a qualquer preço. Encarar a natureza como se ela fosse prova da bondade e proteção de um Deus; interpretar a história para glória de uma razão divina, como perene testemunho de uma ordenação moral do mundo e de intenções morais últimas; explicar as próprias vivências como durante muito tempo fizeram os homens devotos, como se tudo fosse previdência, aviso, concebido e disposto para a salvação da alma: isso agora acabou, isso tem a consciência contra si, todas as consciências refinadas o veem como indecoroso, desonesto, como mentira, feminismo, fraqueza, covardia — devemos a este rigor, se devemos a algo, o fato de sermos bons europeus e herdeiros da mais longa e corajosa autossuperação da Europa. Ao assim rejeitarmos a interpretação cristã e condenarmos o seu “sentido” como uma falsificação, aparece-nos de forma terrível a questão de Schopenhauer: então a existência tem algum sentido? — essa questão que precisará de alguns séculos para simplesmente ser ouvida por inteiro e em toda a sua profundidade. A resposta do próprio Schopenhauer a essa questão foi — que isto me seja perdoado — um tanto precipitada, juvenil, apenas um compromisso, um modo de permanecer e se prender nas perspectivas morais cristão-ascéticas a cuja crença se renunciara juntamente com a fé em Deus…  Mas ele colocou a questão — como bom europeu, já disse, não como alemão. — Ou teriam os alemães demonstrado, ao menos na forma como se apoderaram da questão de Schopenhauer, íntima afinidade e parentesco, preparação e necessidade quanto ao seu problema? O fato de, após Schopenhauer, também na Alemanha se ter pensado e escrito — um pouco tarde, aliás! — acerca do problema por ele colocado não basta, certamente, para decidir a favor de uma tal afinidade; pode-se mesmo apresentar contra isso a característica inabilidade desse pessimismo pós-schopenhaueriano — evidentemente, os alemães não se comportaram como se estivessem no seu elemento. Nisso não estou aludindo absolutamente a Eduard von Hartmann; pelo contrário, ainda hoje não desapareceu minha velha suspeita de que ele é hábil demais para nós, isto é, de que ele, grande finório desde o início, talvez tenha não apenas zombado do pessimismo alemão — de que, no fim, pode mesmo haver “legado” em testamento, para os alemães, o modo como era possível zombar deles em plena Época da Fundação. Mas eu pergunto: deve-se contar em prol dos alemães o velho pião rangento Bahnsen, que a vida inteira rodou voluptuosamente em volta de sua miséria real-dialética e “má sina pessoal” — seria justamente isso alemão? (recomendo suas obras, aliás, para o uso que eu mesmo fiz delas, como dieta antipessimista, sobretudo por sua elegantiae psychologicae [elegância psicológica]; com elas, imagino, pode-se lidar mesmo com os intestinos e os ânimos mais presos). Ou deveríamos considerar alemães autênticos os diletantes e velhas solteironas  como Mainländer, o sacarino apóstolo da virgindade? Ele terá sido judeu, afinal (– todos os judeus se tornam sacarinos ao moralizar). Nem Bahnsen nem Mainländer, menos ainda Eduard von Hartmann, fornecem dados seguros para a questão de saber se o pessimismo de Schopenhauer, seu olhar de horror a um mundo desdivinizado, que se tornara estúpido, cego, louco e questionável, seu honesto horror… seria não um mero caso excepcional entre os alemães, mas um evento alemão: ao passo que tudo o mais que se acha em primeiro plano, nossa valente política, nossa alegre patrioteirice, que muito resolutamente considera todas as coisas segundo um princípio bem pouco filosófico (“Alemanha, Alemanha acima de tudo”), isto é, sub specie speciei [do ponto de vista da espécie], quer dizer, da species alemã, prova nitidamente o contrário. Não, os alemães de hoje não são pessimistas! E Schopenhauer era pessimista, repito, como bom europeu e não como alemão. —

NIETZSCHE, Friedrich, Gaia ciência, § 357. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

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