Medo de tudo; medo de tudo o que existe e de tudo o que não existe! Conheceis a angústia sem motivo, a angústia que se engendra no ser sem motivo, sem justificação, a angústia de viver como tal, quando as coisas se tornam ocasião de estarrecimento e calafrio? E esse calafrio desfigura as coisas, assim como o estremecimento as faz vacilar em meio a uma insegurança atroz. Como se insinua a angústia em todo o corpo e como reduz todo nosso ser a uma sombria e crepuscular vibração, a um agônico calafrio, como a última migalha de existência se torna um estremecimento! Existe na embriaguez musical um canto de todos os órgãos, um hino de todas as fibras, uma vibração extática pelo voluptuoso encanto dos cumes; de idêntica intensidade é a angústia de todos os órgãos, o medo da vida pelo seu sentido, a angústia nascida da alucinante confusão da morte com a vida, da barafunda que oculta as divergências últimas do ser e mistura paradoxalmente todas as expressões irredutíveis da existência. O êxtase musical como um canto dos órgãos e a angústia absoluta como um estremecimento premonitório de todos os órgãos! O que, no final, é uma fusão consoladora provém desse caráter premonitório de toda angústia, que quer mostrar-nos como, no fim de cada uma delas, existe uma harmonia absoluta mesmo se esta signifique não ser. Quando toda a sensibilidade estremece, quando te tornas sujeito de maneira absoluta, no mundo todo só existe a tua angústia. No paroxismo da angústia, o homem se torna sujeito absoluto, porque então tomou consciência plena de si mesmo, da unicidade e da existência exclusiva de seu destino. As outras vivências totais criam comunhões limitadas por certos esquecimentos e que se comprazem nas reticências, enquanto a angústia absoluta coloca o sujeito na posição demiúrgica da unicidade. Não da unicidade como um irreversível individual no plano de outros irreversíveis, mas como uma existência irreversível absoluta, como a existência única. A angústia absoluta leva à solidão absoluta, ao sujeito absoluto. Quando te tornas sujeito absoluto, tudo o que não és só entra em ti para que a angústia encontre para si um objetivo. A angústia dissolve e despedaça o mundo para isolar de modo absoluto o ser; no êxtase musical, a dissolução e a desagregação ocorrem por uma suprema comunhão, de forma que o desejo de unicidade e de exclusividade desse êxtase não é outra coisa senão a expressão de um desejo de comunhão integral. No êxtase musical estás pleno para além dos limites de tua essência; na angústia absoluta, estás pleno de nada.

CIORAN, Emil, O livro das ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

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