O dicionário romeno Dex define assim o substantivo feminino zeflemea: ironia sutil, troça, piada jocosa. Mofar-se de, zombar de alguém, rir-se de.

Zeflemea é uma forma de derrisão, ironia ou sarcasmo, tipicamente balcânica. Em francês, costuma-se traduzir por uma palavra que também existe em português: boutade, tirada espirituosa ou engraçada, pensamento ou dito sutil, original e imprevisto que frequentemente contraria propositadamente a verdade, as opiniões estabelecidas e as convenções (esta palavra aparece no Breviário de decomposição quando Cioran diz que se sente “mais seguro junto de um Pirro do que de um São Paulo, pela razão de que uma sabedoria de boutades é mais doce do que uma santidade desenfreada”).

O autor nascido em Răşinari faz uso constante da zeflemea, mesmo escrevendo em francês. À quoi bon fréquenter Platon, quand un saxophone peut aussi bien nous faire entrevoir un autre monde ? [Para que reler Platão quando um saxofone pode nos fazer entrever igualmente outro mundo?]

Na entrevista a Benjamin Ivry, que lhe pergunta sobre este aforismo em particular, ele responde que é “um pouco exagerado, um paradoxo barato. É um mau gosto balcânico. Para provocar.” É ela também quando ele elogia um chef dizendo que a sua comida faria desistir um suicida, ou quando se põe a discorrer sobre a superioridade civilizacional dos franceses, por terem inventado o bidet, num almoço de entrevista com intelectuais alemães.

A zeflemea não carece de relação com essa frivolidade deliberada cujo elogio será uma marca distintiva da escrita francesa de Cioran a partir do Breviário de decomposição (cf. “Civilização e frivolidade). Frivolidade como remédio contra o mal de ser “profundo”, “fuga para longe desses abismos naturalmente sem fundo que não podem levar a parte alguma”, um “privilégio” e uma “arte”: ela é a “busca do superficial por aqueles que, tendo descoberto a impossibilidade de toda certeza, adquiriram nojo dela.” (Breviário de decomposição). A zeflemea, como a frivolidade, são antídotos contra o preconceito do sérieux (“seriedade”), contra todo dogmatismo e, no limite, contra o fanatismo. Pois o Fanático se define por levar-se demasiado a sério.

Outro exemplo de zeflemea, neste caso extraído de um livro romeno, Amurgul gîndurilor [O crepúsculo do pensamento]: Pascal — dar mai cu seamă Nietzsche — par nişte reporteri ai eternităţii. [Pascal e — sobretudo — Nietzche parecem repórteres da eternidade.]

Diga-se de passagem que Silogismos da amargura (1952) é, desde o título, um livro “zeflemeático” por excelência, e que foi extremamente mal recebido, um fracasso de vendas e de crítica. Por conta dele Cioran quase desistiu da carreira de escritor, sendo dissuadido da ideia pelo editor da Nouvelle Revue Française (NRF), que lhe encomendava ensaios para serem publicados na prestigiada revista. Estes ensaios comporiam, posteriormente, o livro que se sucede aos Silogismos: A tentação de existir (1957), no qual, pela primeira vez em francês, Cioran pode mostrar a sua veia ensaísta, para além da brevidade aforística do livro anterior, e incompreendido.

Abaixo, algumas expressões da zeflemea, essa ironia ou derrisão (boutade) tipicamente balcânica, muitas vezes voltada à si mesmo, nos Silogismos da amargura (e, dentro dele, especialmente o capítulo “O circo da solidão”):

Todo ocidental atormentado faz pensar em um herói de Dostoievski que tivesse uma conta no banco.

§

Estoicismo de fachada: ser um apaixonado pelo “Nil Admirari”, um histérico da ataraxia.

§

“Não fica bem”, me dizia você, “praguejar o tempo todo contra a ordem das coisas.” “É culpa minha se sou apenas um novo rico da neurose, um Jó em busca de uma lepra, um Buda de pacotilha, um Cita indolente e extraviado?”

§

Em um mundo sem melancolia, os rouxinóis se poriam a arrotar.

§

Entediar-se é mascar tempo.

§

A poltrona, essa grande responsável, essa promotora de nossa “alma”.

§

Busquei em mim mesmo meu próprio modelo. Para imitá-lo, dediquei-me à dialética da indolência. É tão mais agradável fracassar na vida…

§

Em contato com os franceses se aprende a ser infeliz gentilmente.

§

Os espíritos lúcidos, para dar um caráter oficial a seu desalento e impô-lo aos outros, deveriam constituir uma Liga da Decepção. Talvez assim conseguiriam atenuar a pressão da história, tornar o futuro facultativo…

§

O catolicismo só criou a Espanha para melhor sufocá-la. É um país onde se viaja para admirar a Igreja e para adivinhar o prazer que pode existir em assassinar um pároco.

O circo da solidão

Quando, de uma mansarda, contemplo a cidade, parece tão honrado ser nela sacristão como cafetão.

§

Se tivesse que renunciar a meu diletantismo, me especializaria no uivo.

§

Por necessidade de recolhimento, livrei-me de Deus, desembaracei-me do último chato.

§

Quando as paixões, os acessos da fé, a intolerância me dominam, desceria com muito gosto à rua para lutar e morrer como militante do Vago, como entusiasta do Talvez…

§

Não me pergunte mais qual é o meu programa: respirar não é um?

§

Todo ato lisonjeia a hiena que existe em nós.

§

De tanto mudar de atitude com relação ao sol, já não sei mais como tratá-lo.

§

Quando não tivemos a sorte de ter pais alcoólatras, devemos nos intoxicar toda a vida para compensar a pesada herança de suas virtudes.

§

O odor da criatura nos põe na pista de uma divindade fétida.

§

O mendigo é um pobre que, ávido de aventuras, abandonou a pobreza para explorar as selvas da piedade.

§

Não se podem evitar os defeitos dos homens sem fugir ao mesmo tempo de suas virtudes. Assim, nos arruinamos pela sensatez.

§

Desde sempre, Deus escolheu tudo por nós, até as nossas gravatas.

§

Só o idiota está equipado para respirar.

§

Refutação do suicídio: não é deselegante abandonar um mundo que com tão boa vontade se pôs a serviço de nossa tristeza?

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