“O absurdo e a revolta em Camus” (José João Neves Barbosa Vicente & Frances Deizer Gontijo)

TRÍAS – Revista eletrônica online de Filosofia, História, Literatura e Ciências Sociais, nº 3 (2º semestre de 2011)

RESUMO: O presente artigo propõe analisar os conceitos de absurdo e de revolta na obra O homem revoltado (1999) de Albert Camus no intuito de mostrar que, no primeiro conceito existe um “eu” solitário, no segundo, um “eu” solidário. A análise incidirá essencialmente sobre o conceito de revolta porque é este que torna o “eu” solidário, instituindo o pensamento ético em Camus.
PALAVRAS-CHAVE: Absurdo; Revolta; Liberdade; Deus; O outro.

ABSTRACT: The present article proposes to analyze the concepts of absurdity and revolt in the work the rebelled man (1999) of Albert Camus in intention to show that, in the first concept exists one “solitary I”, in the one second, one “solidary I”. The analysis will happen essentially on the revolt concept because he is that returns “solidary I”, instituting the ethical thought in Camus.
KEYWORDS: Absurdity; Revolt; Freedom; God; The other

Toda a obra de Camus é permeada pela presença do absurdo e da revolta. No entanto, em O homem revoltado (1999) esses conceitos são tomados como interrogações filosóficas. A obra mais refletida do filósofo, O homem revoltado é o resultado de toda sua experiência de filósofo, escritor e homem. Diferente das práticas filosóficas que defendem sistemas teóricos abstratos, Camus escolhe defender os seres humanos através de um humanismo sincero. O “eu” e o “outro” são colocados em perfeita equidade e o intento da obra é manifesto na introdução:

Nada saberemos, enquanto não soubermos se temos o direito de matar este outro que se acha diante de nós ou de consentir que seja morto. Já que atualmente qualquer ação conduz ao assassinato (…), não podemos agir antes de saber se, e por que, devemos ocasionar a morte.

Camus não se preocupa com os conteúdos que estão afastados dos homens, conteúdos abstratos capazes de serem assimilados apenas pelos “escolhidos”. Seus conteúdos filosóficos são comuns a todos os homens; isto é, acessíveis. Mais ainda, são práticos, motivam ações. São conteúdos que refletem sobre o viver, seu sentido, seu absurdo, enfim, refletem sobre questões que geram verdadeiros torvelinhos em nós, que põem em questão nosso próprio existir, como por exemplo, a reflexão sobre o suicídio:

Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo.

O sentido da existência humana é o assunto essencial em Camus. No Mito de Sísifo (1989) ele concentra sua reflexão no antagonismo viver ou suicidar-se, transformando assim, o absurdo que é viver e que, à primeira vista, conduziria ao suicídio, em liberdade que é um convite à vida. No Homem revoltado ele reflete sobre a morte do outro. Para entender a correspondência entre “própria-morte” e “morte-do-outro”. Faz-se necessário debruçar sobre alguns conceitos analisados por Camus.

O sentimento do absurdo, essa “doença do espírito” consiste em viver a cisão, em sentir no espírito o divórcio entre homem e mundo, a disparidade entre a avidez humana por um significado e a indiferença do mundo. O absurdo nasce de uma trindade e só existe enquanto seus três elementos persistem: O homem, o mundo e a comparação desses dois. A primeira característica dessa trindade “é que ela não pode dividir-se. Destruir um de seus termos é destruí-la de ponta a ponta. Não pode haver absurdo fora de um espírito humano. Assim como todas as coisas, o absurdo termina com a morte”. Outra questão importante em relação ao absurdo, é que “não há pró nem contra, o assassino não está certo nem errado. Podemos atiçar o fogo dos comentários, assim como também podemos nos dedicar ao cuidado dos leprosos. Malícia e virtude tornam-se acaso ou capricho”.

Será que o assassinato é legitimado? Se no absurdo não há um propósito no mundo, não há moralidade e, consequentemente, não há bondade nem malícia, certo nem errado, louvável nem condenável, tudo parece ser permitido e as ações são dirigidas tão somente pela eficácia, pelo proveito e pela lógica. Ora, é justamente pela lógica que Camus justifica que o assassinato não é legítimo e que o outro tem seu “direito à vida” incólume. Ou seja, a consciência do outro tem a mesma obrigação de viver que minha consciência para manter o constante conflito “homem-mundo”, manter o sentimento do absurdo. Para Camus, a vida sempre é preferível à morte, já que devemos manter com nossa consciência, a cisão “homem-mundo”.

A lógica não pode encontrar satisfação numa atitude que deixa perceber que o assassinato ora é possível, ora impossível. Isso porque a análise absurda, após ter tornado no mínimo indiferente o ato de matar, na mais importante de suas conseqüências, acaba por condená-lo. A conclusão última do raciocínio absurdo é, na verdade, a rejeição do suicídio e a manutenção desse confronto desesperado entre a interrogação humana e o silencio do mundo. O suicídio significaria o fim desse confronto. (…) Tal conclusão, segundo ele, seria fuga ou liberação. Mas fica claro que, ao mesmo tempo, esse raciocínio admite a vida como o único bem necessário porque permite justamente esse confronto (…). Para dizer que a vida é absurda, a consciência tem necessidade de estar viva. (…). “Não se pode dar uma coerência ao assassinato, se a recusamos ao suicídio”.

No absurdo nada tem porquê de acontecer e o mundo não tem propósito algum. Depois que se passa a enxergar com as lentes do absurdo a indiferença do mundo, a próxima sensação que vem é a da revolta que “nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível”.

“O revoltado (…) é alguém que se rebela. Caminhava sob o chicote do senhor; agora o enfrenta. Contrapõe o que é preferível com o que não é”. É o homem do “quero-que-assimseja”, e vai tão longe nisso que preferirá morrer a não ter satisfeito um direito que hoje ele exige. Que agora, consciente, ele chama de sua liberdade. Mas a liberdade que ele defende não pode ser apenas uma consagração individual, mesmo porque ele a põe acima de si mesmo, preferindo a morte a tê-la negada. Ele insurge contra uma condição que não é só sua. No revoltar-se está implícito um valor que é caro a todos os homens. A afirmação implícita em todo o ato de revolta estende-se a algo que transcende o individuo, na medida em que o retira de sua suposta solidão, fornecendo-lhe uma razão para agir… [PDF]

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