Um comentário que sempre me chamou a atenção na entrevista de Cioran a Sylvie Jaudeau, e que me parece uma chave de leitura ao essencial do pensamento insone e errático de Cioran, é o seguinte: “A única experiência profunda é a que se realiza na solidão. Aquela que resulta de um contágio permanece superficial — a experiência do nada não é uma experiência de grupo.” (p. 17)

Ironia à parte, a “experiência do nada”, assim formulada para não causar impressão de um teísmo que não é seu, poderia muito bem ser dita o êxtase, e “o nada”, “Deus” ou “o Absoluto”. Mas Cioran está falando no contexto de uma França radicalmente laica, em pleno século XX, de modo que é preciso cautela na comunicação de seus transes e estremecimentos solitários. É preciso bon ton no falar de abismos.

Não se trata de amar a solidão nela mesma; o que a solidão proporciona é esse desnudamento interior, a experiência ensurdecedoramente muda do monólogo interior, a abertura invisível a si mesmo e ao Infinito, a esse “puro indeterminado” que é, segundo o filósofo pré-socrático Anaximadro, de Mileto, o absoluto. Nenhum pensador menos positivista, “politizante” e  “sociológico” do que Cioran. Nenhum espírito menos entusiasta da “cultura” e da “produção cultural”. Um apaixonado da Solidão como refúgio contra essa “tentação de decadência”, esse “inferno de salvadores” (e de assassinos virtuais), essa “horda esbaforida entre crimes e sonhos” que é a sociedade:

Incapazes de guardar nossas mãos limpas e nossos corações intactos, nos sujamos ao contato de suores estranhos, chafurdamos sedentos de nojo e entusiastas de pestilência na lama unânime. […] E se encontramos os outros, é para aviltar-nos juntos em uma fuga para o vazio, seja no intercâmbio de ideias, nas confissões ou nas intrigas. A curiosidade não só provocou a primeira queda, como as inumeráveis quedas de todos os dias. A vida não é senão esta impaciência de decair, de prostituir as solidões virginais da alma pelo diálogo, negação imemorial e quotidiana do Paraíso. O homem só deveria escutar a si mesmo no êxtase sem fim do Verbo intransmissível, forjar palavras para seus próprios silêncios e acordes audíveis apenas a seus remorsos. (“Exegese da decadência”, Breviário de decomposição)

Cioran prioriza o homem interior, em oposição ao exterior: “Os místicos, em especial Mestre Eckhart, ao fazer a distinção entre o homem interiorhomem exterior, optavam necessariamente pelo primeiro; o segundo, o ser no tempo, mais precisamente na sociedade, pertencia de direito aos moralistas; é a ele que examinam, perscrutam e denunciam, sem se preocuparem se possui alguma dimensão intemporal.” Aos moralistas e também aos políticos e espíritos “culturais” afins.

Por “espírito cultural”, refiro-me a todo entusiasta da cultura, a todo aquele que crê no valor da “cultura”, a todo aquele que fala em “cultura” como se falasse de todas as coisas, sem saber precisar exatamente a que se refere. E toda “cultura” é política, politizada ou politizável. Espíritos “culturais” têm pavor da solidão, dessa Grande Solidão pela qual Cioran preza como quem preza pela Vida. Espíritos “culturais” são desesperadamente gregários, espíritos de rebanho, enquanto que o Solitário busca desesperadamente a Solidão. Espíritos assim, “culturais”, acreditam que na Solidão todo ser humano é incompleto, vazio, irrealizado.

Sobre a relação entre individualidade e cultura, Cioran escreveu um interesse texto, ainda jovem, e que viria a ser reunido no volume Solitude et Destin, com artigos jornalísticos de juventude:

O indivíduo dotado sente a solidão mais intensamente nas formas culturais homogêneas do que nas formas complexas, pois a especificidade de um fundo de vida subjetivo o impede de descobrir uma direção particular que poderia conduzi-lo à integração. O indivíduo transcende a solidão estabelecendo relações e correspondências graças às quais ele deixa de constituir uma irredutibilidade para tornar-se uma expressão simbólica de uma totalidade supra-individual. A inserção nas objetividades ideais do espírito objetivo é o resultado da necessidade de se integrar na cultura. […] Quase ninguém mais fala de sua própria experiência, de suas penas e de suas angústias pessoais, todo mundo fala das complicações de uma cultura que não lhes fornece um sentido preciso nem uma fórmula de equilíbrio. Esse processo de objetivação é bastante vivaz. Lembra o fenômeno que, no mito, objetiva nos meios de expressão extraídos do mundo natural as realidades e os problemas mais profundos da vida espiritual.

Individ şi cultură in Floarea de foc, an I, nr. 11, 19 martie 1932, p. 2., apud Solitude et destin. Paris: Arcades/Gallimard, 2004, p. 62-65.

Entende-se porque Cioran não entende o seu processo criativo em termos de “produzir cultura” (e não seria difícil aproximar a sua crítica àquela feita pela Escola de Frankfurt à “indústria cultural”, com sua lógica da reprodutibilidade, da reificação e da homogeneização).

Não se trata, em absoluto, de “fazer cultura”, domínio (quimera) por excelência do homem exterior; nem de “literatura”, ou de “filosofia” (tudo isso se enquadraria, pois, sob essa categoria abstrata e incerta chamada “cultura” humana, como se as bactérias também não tivessem a sua). Trata-se antes de virar as costas à “cultura”, ao mundo, ao tempo (cf. “Virando as costas ao tempo“, in Breviário de decomposição), e voltar-se para dentro, para si, para Deus ou o Nada. Pois

nascemos para existir, não para conhecer; para ser, não para afirmar-nos. O saber, tendo irritado e estimulado nosso apetite de poder, nos conduzirá inexoravelmente a nossa perda. O Gênese percebeu, melhor que nossos sonhos e sistemas, nossa condição humana.” (História e utopia)

Dito isso,

a função dos olhos não é ver, mas chorar; e para ver realmente é preciso fechá-los: é a condição do êxtase, da única visão reveladora, enquanto que a percepção esgota-se no horror do já visto, do irreparavelmente sabido desde sempre. (Breviário de decomposição)

Eis toda a a divisa mística (homem interior) de Cioran, o que torna a sua écriture tão pulsante, tão sublime, e tão vertiginosa: “Queremos, à força, ver o fundo das palavras? Não se vê nada, pois este, separado da alma expansiva e fértil, é vazio e nulo. O poder da inteligência exercita-se em projetar sobre ele um brilho, em poli-lo e torná-lo deslumbrante; este poder, erigido em sistema, chama-se cultura – fogo de artifício em um cenário de nada.” (Breviário de decomposição)

Aos que o acusam de individualismo e egoísmo, ele responderia que é incompreensão ou preconceito. Não se trata disso. Pode-se mesmo depreender dos seus textos toda uma teoria da alteridade na solidão, uma ética do homem interior, de cunho místico. Por exemplo:

“O verdadeiro contato entre os seres não se estabelece senão pela presença muda, pela aparente não-comunicação, pela troca misteriosa e inaudita que se assemelha à oração interior.”

“A única maneira de ir ao encontro de outrem em profundidade é indo em direção ao que há de mais profundo em si mesmo. Noutras palavras, seguindo o caminho inverso ao que seguem os espíritos ditos ‘generosos’.”

Trata-se de um encontro (silencioso) entre solidões, na Solidão. É o único contato possível que se pode travar com Cioran, através de sua obra. Ele não é um autor para as massas, para ser declamado em público, em voz alta. Não é um pensador do consenso, da unanimidade, do “povo”. Seus livros parecem palpitar de solidão na prateleira, como se estivessem estranhamente vivos, agonizando e rindo ao mesmo tempo…

Cioran é como esse mendigo cego de que ele mesmo fala em um dos seus aforismos: como aquele mendigo, o autor romeno parece estender a mão para entregar-nos a sua… cegueira. A sua solidão. Quem quiser, que a aceite.

Não está preocupado em agradar gregos e troianos (ou simplesmente agradar), pois a sua preocupação é comunicar a enorme tensão das suas vivências capitais experimentadas na atmosfera penosa da insônia. É criar a partir da própria existência, da própria experiência vivida, a partir do desespero e do êxtase. Esta é a sua única fidelidade, o seu único “projeto”. Não está preocupado porque teve certas experiência-limite, que considera verdadeiras, e que lhe renderam certo “conhecimento”, que ele considera igualmente verdadeiro, “lúcido”, apesar de toda controvérsia (por exemplo, com Clément Rosset, que se diz um filósofo trágico, e despreza o lado sombrio de Cioran).

Para melhor aproveitar essas vivências, é preciso algum preparo, certo pré-requisito. Afinal, são experiências extraordinárias e únicas, que nos fazem roçar a eternidade. Por que é que a maioria das pessoas não se desespera, não estremece, não agoniza de entusiasmo, pondo-se a escrever poesia ou “filosofia lírica” (Nos cumes do desespero)? Pois trata-se de algo que exige aquilo que a maioria das pessoas repele, fugindo dela como quem foge da cruz: a Solidão, princípio de ascese, sem dúvida, desde que bem conduzida, assim como outras tantas “técnicas”, igualmente desinteressantes e indesejáveis aos olhos do hedonista.

O Cioran de sempre, não importa a língua em que ele se traduz, não importa a fase da vida, é o mesmo que escreveu no Livro das Ilusões:

A nós, aos que estamos mais sós, aos que a vida deixa de lado, quem nos dará a esperança de esquecer-nos de morrer?
Irmãos no desespero, esquecemos a força de nossas solidões, esquecemos que os mais sós são os mais fortes? Pois chegou a hora de que nossas solidões ultrapassem o rebanho, que vençam toda resistência e conquistem tudo. A solidão deixará de ser estéril quando através dela o mundo seja nosso, quando o engulamos com nossos desesperados ímpetos. Que sentido tem toda a nossa solidão se não é a suprema conquista, se através dela não vencemos tudo? – Irmãos, nos espera a conquista suprema, a última prova de nossas solidões. Este mundo tem que ser nosso, dos mais sós, dos que têm que recuperar a vida! Estamos perdidos se não recuperamos tudo o que perdemos, se não recuperamos tudo. Só assim nossa coragem ressuscitará e só assim aprenderemos a viver. Não sei quantas solidões são necessárias para conquistar o mundo; mas sei que bastam algumas para fazê-lo tremer. Porque o mundo só pode ser nosso, dos que não viveram.
Poderemos, irmãos, unir todas as nossas solidões? Teremos a perseverança e a coragem de morrer pelo que não vivemos?

Por fim, este belo aforismo logo ao início de Amurgul Gîndurilor [O Crepúsculo do Pensamento], aliás, um dos mais belos (e religiosos) livros de Cioran, publicado na Romênia em 1938 e pertencente à mesma fase intempestiva do Livro das Ilusões (1936) e de Lágrimas e Santos (1937):

Singurătatea nu te-nvaţă că eşti singur, ci singurul.
[A solidão não te ensina a estar só, mas a ser o único.]

(Em francês a oposição entre eşti singur, “estar só”, e [eşti] singurul, “ser o único”, funciona melhor em virtude do trocadilho entre être seul, “estar só”, e être le seul, “ser o único”: La solitude n’apprend pas à être seul, mais le seul.)

Enfim, trata-se da Solidão por excesso — de lirismo, agitação interior, esse “rico desperdício de energias sem gestos” (Breviário); não é solidão por deficiência, por déficit de vitalidade, mas, como reza a passagem citada do Livro das Ilusões, uma Solidão da força, por abundância de (louca, caótica) vitalidade, tanta que transcende a vida em direção à morte, a existência em direção a Deus ou o Nada.

Ele compartilha conosco suas vertigens íntimas, ele nos empresta suas sensações. Cioran, ou a generosidade da Solidão luminosa…