Só amam a música aqueles que sofrem por causa da vida. A paixão musical substitui todas as formas de vida que não foram vividas e compensa no plano da experiência íntima as satisfações encerradas no círculo dos valores vitais. Quando se sofre vivendo, a necessidade de um mundo novo, distinto do que vivemos habitualmente, nasce de forma imperiosa para não diluir-nos em um vazio interior. E esse mundo só a música pode trazê-lo. Todas as outras artes descobrem novas visões, configurações ou formas novas; somente a música traz um novo mundo. As obras mais importantes da pintura, por maior que seja o enlevo que te produza sua contemplação, te obrigam a fazer comparações com o mundo de todos os dias e, por conseguinte, não te oferecem a possibilidade de entrar em um mundo absolutamente distinto. Em todas as outras artes, tudo está próximo, mas não tanto que se torne uma intimidade suprema; na música, todavia, tudo está tão longe e tão perto que a alternância entre o monumental e o íntimo, entre o inacessível e o lírico, cria uma inteira gama de êxtases interiores. Diante de nenhum quadro do mundo sentiste que o mundo poderia começar contigo; mas há finais de sinfonias que muitas vezes te levaram a perguntar-te se não serás tu o princípio e o fim. A loucura metafísica provocada pela experiência musical cresce conforme se perdeu mais e se sofreu mais na vida; pois através dela pudeste entrar de maneira mais completa em outro mundo. Quanto mais te aprofundas na vivência musical, mais aumentas a insatisfação inicial e agravas o drama originário que te fez amar a música. Se a música é o resultado de uma doença, não faz então senão ajudar o progresso dessa doença. Pois a música destrói o interesse pela ação, pelos dados imediatos da existência, pelo fato biológico como tal, e desabitua o indivíduo. O fato de que, depois das tensões íntimas às quais te levam os estados musicais, sintas a inutilidade de seguir vivendo não expressa senão esse fenômeno de desadaptação. Muito mais que a poesia, a música enfraquece a vontade de viver e as molas vitais. Renunciamos à música então? Todos nós que somos fortes quando escutamos música, porque somos fracos na vida, seremos tão ineptos a ponto de renunciar também à nossa última perda, a música?

*

Aconselho a música de Mozart e de Bach como remédio contra o desespero. Em sua pureza aérea, que às vezes chega a alcançar uma sublime gravidade melancólica, te sentes leve, diáfano e angélico. Tens então a impressão de que em ti, ser inconsolável, crescem asas que te lançam em um voo sereno, acompanhado de discretos e velados sorrisos, em uma eternidade de evanescente encanto e de doces e acariciantes transparências. É como se evoluísses em um mundo de ressonâncias transcendentes e paradisíacas. Todo homem tem em potência algo de angélico, nem que seja pela pena de não ter tal pureza e pela aspiração a uma serenidade eterna. A música nos desperta o pesar de não ser o que teríamos de ser, e sua magia nos cativa por um instante transportando-nos para o nosso mundo ideal, para o mundo onde deveríamos viver. Após o conflito furioso de teu ser, nasce em ti um desejo de pureza angélica, no qual possas alcançar um sonho de transcendência e serenidade, longe do mundo, pairando em um voo cósmico, com as asas abertas na direção de vastas distâncias. E eu queria engolir os céus que para mim nunca se abriram…

CIORAN, Emil, O Livro das Ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

Um comentário sobre ““Nossa última perda, a Música” (Emil Cioran)

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