“Gnosticismo e Niilismo em Hans Jonas: o pneumáticos gnóstico enquanto primórdio do ‘indivíduo autêntico’ existencialista” (Renzo Nery)

intuitio – Revista do PPG em Filosofia da PUC-RS

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo analisar alguns aspectos relacionais do gnosticismo dos primeiros séculos cristãos e sua relação com o niilismo moderno, por meio da “interpretação existencial do gnosticismo” de Hans Jonas. Um desses aspectos investiga o esforço intelectual do filósofo em localizar no gnosticismo meios analíticos essenciais à sua interpretação do niilismo existencialista, em especial o heideggeriano. Para isso, faz-se necessário compreender como ambas as perspectivas – gnóstica e existencialista – negam a ordenação do cosmos rumo a um conceito de bom, dividem entre si a transcendência do eu acósmico e situam suas noções de indivíduo – o pneumáticos gnóstico e “indivíduo autêntico” existencialista – acima de qualquer lei moral ou nomos.

Palavras-chave: Hans Jonas, Panvitalismo, Evolucionismo

Abstract: The present work aims at analyzing some of the relational aspects of the first Cristian centuries‟ Gnosticism and its relationship with modern nihilism through Hans Jonas‟ “existential interpretation of Gnosticism”. One of these aspects investigates the philosopher‟s intellectual effort to locate in Gnosticism analytical means which are essential to his interpretation of the existentialist nihilism, specially Heidegger‟s. For that, it is necessary to comprehend how both perspectives – gnostic and existentialist – deny the cosmos‟ direction towards a concept of Good, share with one another the transcendence of the acosmic self and place its notions of the individual – the gnostic pneumaticos and the existentialist “authentic individual” – above any moral law or nomos.
Keywords: Hans Jonas, Gnosticism, Existencialism, Nihilism.

Totalmente outro, alienígena e desconhecido, o Deus gnóstico possui mais do nihil do que do ens em seu conceito. Para todos os propósitos da relação humana com a realidade que o cerca, este Deus furtivo é um termo negativo; nenhuma lei emana dele – nenhuma para a natureza e, portanto, nenhuma para a ação humana como parte da ordem natural. Sua única relação com o mundo é aquela de salvar-se do mundo. Antinomianismo corre normalmente, senão inevitavelmente, dessas premissas.

Hans Jonas

INTRODUÇÃO

A coleção de ensaios organizada em forma de livro e intitulada Mortality and Morality: a search for the Good after Auschwitz (1996), de autoria do pensador judeu-alemão Hans Jonas, editada por Lawrence Vogel e supervisionada pela falecida Lore Jonas, esposa de Jonas, reúne o conjunto de produções que marca a trajetória reflexiva de Jonas, especificamente o existencialismo alemão e sua teologia pós-holocausto. Apresentaremos de imediato a maneira pela qual os estudos gnósticos do autor contribuíram para a constituição de sua visão naturalista e prepararam o enfrentamento dos aspectos niilistas inerentes à ratio científica e filosófica moderna. Ser e Tempo – obra capital de seu Doktorvater, Martin Heidegger – é de pronto classificada como a quintessência do niilismo moderno. Nas palavras de Vogel,

O projeto fundamental de Jonas pode ser visto nada menos como uma superação de sua figura intelectual paterna, cujo comportamento durante o Terceiro Reich é diagnosticado por Jonas como um sintoma da fragilidade ética das ideias niilistas de Heidegger.

Postas à parte a ligação entre a vida pessoal de Heidegger e as implicações éticas de sua filosofia, a intensão nuclear de Jonas é apresentar uma réplica sistemática e deliberada ao legado heideggeriano, entendido pelo autor como o estandarte do niilismo do século XX, corresponsável pela destruição da ética tradicional e pela cauterização dos conteúdos ontológicos e metafísicos da natureza, processo que o autor em outro lugar descreve como turn ontológico, ou passagem da “ontologia da vida” à “ontologia da morte”.

Se por um lado as ciências naturais exponenciam drasticamente o poder da ação humana por meio da técnica ao habilitá-la o manuseio das estruturas profundas da natureza, por outro, postulam a augura antropocêntrica criada pela ética tradicional, presumindo que a ação humana sobre a natureza não constitui objeto da reflexão ética, uma vez que a própria techne é entendida como neutra ou mesmo a ética. A ética estaria confinada à dimensão estritamente humana, não podendo ser direcionada à natureza. Nesse contexto, a hipótese de uma finalidade subjacente à natureza é encarada como um devaneio antropomórfico, inaplicável às coisas não humanas.

Jonas é essencialmente um filósofo do niilismo. Desde os seus primeiros escritos aos mais tardios, este problema persiste, percorrendo três prismas de análise: o existencial, o metafísico e o teológico. Defendendo enfaticamente que o niilismo não é em absoluto um fato cultural novo ou estritamente moderno, o autor detecta seu nascimento no gnosticismo dos primeiros séculos cristãos. Apresentaremos a seguir o grounding existencial e gnóstico da visão jonasiana do niilismo, assim como as primeiras diretrizes de sua ética biológica… [PDF]

 

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