via “Em nome do medo” (Moonspell) — 🎼 Delìrivm Còrdia*

Uma bela e pesada faixa da banda portuguesa Moonspell. Metal simples, muito bem composto e tocado, sem virtuose nem afetações (do jeitinho que eu gosto). A propósito, o Moonspell tem um álbum intitulado 1755 (2017), em referência ao ano do terrível terremoto (seguido por um tsunami) que destruiu Lisboa quase por completo.

O terremoto de 1755 provocou dois tipos de reação opostas nos europeus, uma apavorada, reativa e reacionária, a outra lúcida, esclarecida e moderna. A primeira, por parte dos cristãos e particularmente da Igreja Católica, que não tardou a lançar pela Europa diversas Cruzadas para caçar os hereges cuja impiedade teria supostamente causado a ira injustificada de Deus.

A outra reação é bem exemplificada pela postura — não religiosa, menos ainda supersticiosa — do Marquês de Pombal, que teria respondido a um voluntário que lhe perguntou: “E agora, o que fazemos?” A resposta pragmática: “Enterremos os mortos e cuidemos dos vivos.”

O irônico é que, enquanto igrejas, santuários e monumentos foram reduzidos a pó, um dos poucos espaços que permaneceram intactos foi um bairro do baixo meretrício de Lisboa.

Que não se subestime o impacto — não apenas sísmico — que aquele terremoto teve sobre a mentalidade dos europeus. Em função dessa tragédia — totalmente inesperada, tendo pegado de surpresa os lisboetas enquanto cuidavam de seus afazeres cotidianos — toda uma cosmovisão mudaria como que da noite para o dia. A filósofa Susan Neiman identifica naquele fatídico dia o início da Modernidade:

Uma razão central para localizar o início do moderno em Lisboa é justamente sua tentativa de dividir claramente a responsabilidade. Um exame atento dessa tentativa revelará toda sua ironia. Embora os philosophes sempre tenham acusado Rousseau de nostalgia, a discussão de Voltaire sobre o terremoto deixava ainda mais coisas na mão de Deus do que a de Rousseau. E, quando Rousseau inventou as ciências modernas da história e da psicologia para lidar com questões que o terremoto trazia à tona, foi em defesa da ordem de Deus. Sem levar em conta as ironias, a consciência que emergiu depois de Lisboa foi uma tentativa de maturidade. Se o Iluminismo é a coragem de pensar por si mesmo, é também a coragem de assumir responsabilidade pelo mundo no qual se é lançado. Separar radicalmente o que épocas anteriores chamavam de males naturais dos males morais fazia, portanto, parte do significado da modernidade.

Uma das ideias tradicionais da cultura ocidental que mais seria abalada pelo Terremoto de Lisboa é a ideia de uma Providência divina a conduzir o rumo dos acontecimentos (isso que Kant chama de “fio condutor da História”). Pode-se dizer que, se o ateísmo já era uma tendência em ascensão na mentalidade europeia, o terremoto só contribuiu para acentuá-la. Assim como, segundo Neiman, os horrores e a barbárie das guerras mundiais que o século XX testemunhou, e especialmente os campos de concentração nazistas. Dois marcos históricos, dois tipos distintos de mal, um natural, o outro humano e moral: a aurora e o crepúsculo da Modernidade…

Em nome do medo, do medo sem fim
Na ira dos deuses, caímos enfim
A vida cruel, tormenta assim
O céu que nos esmaga n’ausência de ti
Em nome do medo, do medo sem fim
Em nome do medo, medo

Sou sangue de teu sangue
Sou luz que se expande
Sou medo de teu medo
Senhor do teu tempo
Em nome do medo

Negro alfabeto do chão te levanta
Tua confiança jamais se aquebranta
Comemos os frutos de tão triste jardim
Faltou-nos o tempo, chegamos ao fim
Em nome do medo, medo

Sou sangue de teu sangue
Sou luz que se expande
Sou medo de teu medo
Senhor do teu tempo
Em nome do medo

Mas nem o vento por terra me deita
E nem o fogo por dentro me queima

Sou sangue de teu sangue
Sou luz que se expande
Sou medo de teu medo
Senhor do teu tempo

Sou sangue
Sou Medo
Medo! Medo!

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