Clément Rosset: sobre sabedoria erudita e sabedoria popular (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

Nietzsche, Além do Bem e do Mal

“Ao divinizar a história para desacreditar Deus, o marxismo só conseguiu tornar Deus mais estranho e mais obsedante. Pode-se sufocar tudo no homem, salvo a necessidade de absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, e mesmo ao desaparecimento da religião sobre a Terra.”

Cioran, História e utopia

*

Em sua Lógica do Pior, Clément Rosset é bastante severo com Bataille, cuja interpretação de Nietzsche, segundo ele, seria demasiado romântica, e inaceitavelmente pueril:

Numa obra que, de certo modo, anunciava na França o verdadeiro início dos estudos nietzscheanos, Georges Bataille desenvolve o tema seguinte’: Nietzsche teria sido o primeiro filósofo a fundar uma filosofia sobre o “não-sentido”, ou o acaso, libertando sua representação do mundo de todo pensamento racionalizante, finalista ou teológico. A este primeiro erro histórico (tais visões não tendo de modo algum sido inauguradas por Nietzsche) sucede um contra-senso ao mesmo tempo mais grosseiro e mais revelador da habitual incapacidade daqueles que falam — os “intelectuais” — em dar a palavra ao trágico: a afirmação do não-Sentido constitui, aos olhos de Bataille, uma “‘experiência tão desarmante” que ela não poderia ser tentada senão por um brilhante solitário de nosso tempo”. Em outros termos: o saber trágico é o apanágio de alguns intelectuais particularmente brilhantes. Visão superficial, e popular, daquilo que “sabe” e daquilo que “não sabe” o popular. Sobre esse ponto, a situação é bem precisamente o contrário: o saber trágico é o apanágio da humanidade inteira, com a única exceção de alguns intelectuais particularmente brilhantes, como Bataille. Os pontos-de-vista populares sobre o mundo são de maneira geral centrados sobre idéias de desordem, de acaso, de uma absurdidade, inerente à toda existência, que a expressão “é a vida” resume em todas as línguas e em todas as épocas; em contrapartida, a idéia de que o mundo está submetido a uma qualquer “razão” ou ordem não é o apanágio senão de um pequeníssimo número de homens, filósofos, cientistas, teólogos, cuja cegueira não é a de se crerem autorizados em afirmar uma ordem, mas antes de pensar que esta afirmação tem uma influência profunda sobre os pontos-de-vista do “popular”.

A controvérsia se constitui em torno da questão do significado do saber trágico, do “conteúdo” objetivo desse saber, se algum, e de sua relação com a consciência que o comporta. Na visão de Rosset, não há “saber” nenhum, ao menos não no sentido que parece sugerir Bataille. Não se trata de uma verdade metafísica ou mística, oculta e velada em todo caso, acessível apenas para alguns poucos intelectuais e “eleitos” de todo tipo, mas eterna e infinitamente distante da quase totalidade dos indivíduos.

Se é isso mesmo o que acredita Bataille (o que será sempre objeto de controvérsias), Rosset tem toda razão. Em todo caso, ele vai além dessa discussão pontual com Bataille. É o que se segue que mais interessa aqui. Releiamos Rosset, que ironiza:

O saber trágico é o apanágio de alguns intelectuais particularmente brilhantes. Visão superficial, e popular, daquilo que “sabe” e daquilo que “não sabe” o popular. Sobre esse ponto, a situação é bem precisamente o contrário: o saber trágico é o apanágio da humanidade inteira, com a única exceção de alguns intelectuais particularmente brilhantes, como Bataille. Os pontos-de-vista populares sobre o mundo são de maneira geral centrados sobre idéias de desordem, de acaso, de uma absurdidade, inerente à toda existência, que a expressão “é a vida” resume em todas as línguas e em todas as épocas; em contrapartida, a idéia de que o mundo está submetido a uma qualquer “razão” ou ordem não é o apanágio senão de um pequeníssimo número de homens, filósofos, cientistas, teólogos, cuja cegueira não é a de se crerem autorizados em afirmar uma ordem, mas antes de pensar que esta afirmação tem uma influência profunda sobre os pontos-de-vista do “popular”.

Trata-se de uma disputa em torno da “essência” da sabedoria popular: trágica e acessível a todos, ou trágica, porém, oculta, velada, dissimulada? Sabedoria — e “verdade” — trágica, em todo caso. Será mesmo? Em que medida, até que ponto trágica? Ora, Rosset incorre tanto quanto Bataille na impertinência de apresentar-se como especialista, porque filósofo, disso que sabe e que deixa de saber o povo, o populacho. Que o pensamento de Bataille seja superficial (se é que é), isto é uma coisa; agora, que a sua visão da “sabedoria popular” seja popular, eis algo que não posso ver como negativo, impróprio, incoerente, muito pelo contrário. Incoerente e impertinente seria uma visão intelectualista, de erudito — trágico ou não-trágico, em todo caso de fora (“outsider”), e do alto — da “sabedoria popular”.

Digamos logo: a tese de Rosset (acessibilidade universal e imediata do trágico na consciência dos indivíduos) soa tão metafísica, tão universal, tão improvável e inverificável, quanto a do seu interlocutor, Bataille. Talvez nem um nem o outro esteja absolutamente certo, ao menos nos termos apresentados. Por quê? Ora, precisamente tudo isto:

Sobre esse ponto, a situação é bem precisamente o contrário: o saber trágico é o apanágio da humanidade inteira, com a única exceção de alguns intelectuais particularmente brilhantes, como Bataille. Os pontos-de-vista populares sobre o mundo são de maneira geral centrados sobre idéias de desordem, de acaso, de uma absurdidade, inerente à toda existência, que a expressão “é a vida” resume em todas as línguas e em todas as épocas.

Tudo isto não é senão uma meia verdade, quando muito. Não me parece que o autor da Lógica do Pior, autoproclamado filósofo trágico e “terrorista da alegria”, tenha feito uma pesquisa exaustiva, qualitativa e quantitativa (estatística), que tenha se dedicado a conversar com o máximo número de representantes do populacho, para saber o que pensam eles e elas acerca da vida e da morte, do “destino”, etc.

Rosset escreveu o seu (excelente) livro no conforto da sua habitação, diante da sua escrivaninha, tendo lido muitos livros e, é claro, tendo também conversado com seus amigos, muitos dos quais intelectuais brilhantes como Rosset e Bataille, sobre tais assuntos.

Noutras palavras, o que Rosset faz é “plantar”, muito retoricamente, uma tragicidade normal nos (na maioria dos) indivíduos que eu questiono profundamente que seja o caso. Neste sentido, a depender de como se enxerga a questão e os distintos pontos de vista colocados, talvez Bataille tenha mais razão que Rosset.

O populacho de Rosset é demasiado rossetiano, demasiado trágico. Se questionadas a fundo, a maioria das pessoas jamais se reconheceria trágica, conforme à definição do trágico (espírito, filosofia, ética) fornecida por Rosset, e à qual eu mesmo me entregaria de muito bom grado. Que digo? Ao dizê-lo, implicitamente, querendo ou não, me dissocio do populacho, do hoi polloi, distancio-me dele; banco o intelectual e o filósofo.

E, mesmo se fosse um intelectual brilhante como Rosset e Bataille, eu poderia recorrer, como eles também poderiam, ao argumento de que o fato de ser intelectual e filósofo não me priva da condição comum de pertencer ao dito populacho. Faz sentido. Porém, não sejamos ingênuos. Nem hipócritas. Ninguém se colocaria a discutir o que pensa ou deixa de pensar o populacho, em oposição ou em conformidade com os brilhantes intelectuais, sem necessariamente, ao fazê-lo, pensar-se separado, distinto, do populacho.

Releiamos, uma vez mais, Clément Rosset: “O saber trágico é o apanágio da humanidade inteira, com a única exceção de alguns intelectuais particularmente brilhantes, como Bataille. Os pontos-de-vista populares sobre o mundo são de maneira geral centrados sobre idéias de desordem, de acaso, de uma absurdidade, inerente à toda existência, que a expressão ‘é a vida’ resume em todas as línguas e em todas as épocas.”

Convenhamos que há, aí, muito de uma retórica antilogística e polemista. Caso contrário, seria de se esperar que o filósofo trágico francês não fosse tão exagerado, tão dogmático, ao ponto de afirmar categoricamente em que consiste ou deixa de consistir, em termos de saber, o apanágio da humanidade inteira (à exceção, é claro, de Bataille). Que os pontos de vista populares sobre o mundo são de maneira geral centrados sobre ideias de desordem, de acaso, de uma absurdidade, etc., que “é a vida” (c’est la vie), etc. É mesmo?

Não sei que pessoas são estas, não conheço esse planeta, que poderia se chamar Tragiconius Alegra, no qual Rosset parece habitar, em que todas as pessoas são, no fundo, e por natureza, indivíduos dotados de uma dolorosa consciência trágica, como se nada fosse. Em todo caso, é preciso reconhecer, a favor de Rosset, que o problema (na sua interpretação) não é a ausência da consciência trágica, mas a ausência do recurso (terapêutico, psicanalítico) à fala trágica, ou seja, à Lógica do Pior.

Não se pode dizer que seja uma mentira; é uma meia verdade. A maioria das pessoas não é trágica, jamais se definiria e se reconheceria assim, e, na verdade, estão mais propensas a concordar com Platão ou a tornar-se religiosas, acreditando, por exemplo, nas verdades reveladas do Cristianismo. As pessoas, no fundo, têm muito medo (do desconhecido, da morte, do imprevisível, do imponderável), e anseiam por algum tipo de salvação, de garantia contra todas estas ameaças que se apresentam à sua amedrontada consciência.

Sigamos o caminho inverso do de Bataille e Rosset, juntos: não partir do que pensa o intelectual para abordar o que pensa o populacho, mas tomar o populacho como referência e ponto de partida, para mostrar que os eruditos muitas vezes carregam as mesmas crendices, as mesmas superstições que o povo. A bem da verdade, não é que as pessoas comuns também sejam, ou que consigam ser trágicas, caso se esforcem, caso sejam honestas, bem como o são, por erudição e cultivo intelectual, os filósofos trágicos. A verdade é o oposto, e não é trágica: assim como o populacho, no final do dia, descarta o trágico como quem troca a roupa suja, deitando-se na cama confortável da crença numa providência divina — inclusive os brilhantes intelectuais, os filósofos, muitos deles ao menos, muitos mesmos, ontem e hoje, sempre, também acreditam na mesma coisa! A mesma crendice! A mesma superstição popular, ela também pertence de direito aos espíritos esclarecidos.

Obviamente, excluo Bataille e Rosset desse grupo tão vasto de cabeças pensantes que, de Platão a Kant, e deste aos hegelianos de hoje, marxistas ou liberais, acreditam numa “providência divina” ou num “fio condutor” da História, o que dá no mesmo. A maioria das pessoas, sim, acredita — precisa acreditar — em ideias do tipo!

Façamos a distinção entre “crenças do dia”, ou provisórias (superficiais, facilmente cambiáveis), e “crenças para a vida”, ou definitivas (profundas, arraigadas, dificilmente modificáveis). A sabedoria trágica do povo, de que fala Rosset com tanta convicção, não passa de uma “crença do dia”, de uma “sabedoria ébria de boteco”, ou de banca de jornal (“Notícias Populares”). No final do dia, o “trágico” popular volta para casa, se tranca no banheiro, e senta na privada chorando. Quando não vai além, pondo-se de joelhos, juntando as mãos e levando-as em direção ao céu.

A “crença para a vida” é que apesar de toda a tragicidade, a absurdidade, a crueldade que a existência é capaz de demonstrar, no final das contas, tudo isso não é definitivo, não fica por isso mesmo, não pode ficar, não pode ser definitivo; no final das contas, muito embora reconheça os infortúnios da vida, creio — quero crer, preciso crer — que há um propósito, um sentido, uma providência, divina ou natural, a justificar e compensar os dissabores da vida — a começar pelo fato da morte, e pela consciência reflexiva que a antecipa sem cessar, tornando-a virtualmente presente.

A improbabilidade dessa sabedoria trágica que Rosset supõe ser o “apanágio da humanidade inteira” é análoga à improbabilidade de que a maioria dos indivíduos, na visão de Kant, venha a se emancipar de suas tutelas diversas, buscando por si próprio o esclarecimento e a autonomia. A maioria da humanidade sempre vai acreditar em alguma coisa, não importa o quê; a pletora de ficções e ídolos é infinita — assim como a sede humana de absoluto, de sentido e de porquês, a “necessidade metafísica” da Humanidade, para falar como Schopenhauer.

Assim, uma vez mais: “Os pontos-de-vista populares sobre o mundo são de maneira geral centrados sobre idéias de desordem, de acaso, de uma absurdidade, inerente à toda existência, que a expressão ‘é a vida’ resume em todas as línguas e em todas as épocas.” Não é verdade, ou é apenas uma meia-verdade. Esse ponto de vista da desordem, do acaso e da absurdidade (c’est la vie), é só durante o horário de expediente (“crença do dia”); no seu recolhimento em si, ao final do dia, engolimos e tratamos de esquecer, por cálculo de interesse, tudo o que pensamos e tudo o que dissemos durante o dia: “é tudo absurdo”, “só vai piorar”, “não tem solução”, “é a vida”… Queremos, precisamos ir dormir pensando — e não apenas pensando, acreditando fervorosamente nisto: No final, vai dar tudo certo; se ainda não deu tudo certo, é porque ainda não é o final…

Eu disse queremos (pensar, acreditar), não disse que esta sabedoria popular seja mais verdadeira do que aquela, trágica, que Rosset projeta no populacho injustificadamente.

Na maioria esmagadora dos casos, as pessoas tendem a ser nem trágicas, nem pessimistas, mas incurável  e injustificadamente otimistas. A existência é um enigma que exige não tanto entendimento quanto alento — redenção, salvação. Cioran, que tende a concordar com Bataille (o problema principal não é o silêncio, a não-fala trágica, mas a inconsciência, o não-saber), tem razão: “As soluções que nos propõe nossa covardia ancestral são as piores deserções ao nosso dever de decência intelectual. Equivocar-se, viver e morrer enganados, isto é o que fazem os homens.” (Breviário de decomposição)

E Bataille poderia estar com a razão se, em vez de interpretar o que ele pensa, pelo filtro (parcial) de Rosset, como uma espécie de “elitismo” trágico-intelectual, interpretássemos a sua perspectiva de maneira inversa no plano afetivo: não é que seja um privilégio intelectual de poucos, difícil de buscar e encontrar, mas que, justamente por ser um saber trágico (e por isso mesmo doloroso, amargo, penoso, etc.), nem todo mundo está disposto, como Bataille e Rosset, a “procurar sarna para se coçar”, como se diz na minha terra.

Por fim, a afirmação de que “a sabedoria trágica é o apanágio da humanidade” parece em franca contradição com outra afirmação de Rosset, esta por sua vez em O Real e seu Duplo: Ensaio sobre a Ilusão, de que a necessidade de ilusões e de inventar-se duplos que compensem simbolicamente a dureza da realidade, sempre cruel, isto sim seria o “apanágio da humanidade inteira” — a não ser que, uma vez mais, e este seria provavelmente o argumento de Rosset, o problema verdadeiro não seja a inconsciência, a ausência de consciência e saber trágicos, mas a ausência da fala exteriorizada, do discurso, da expressão trágica, de onde a lógica do pior. Assim, o argumento de Rosset é que, muito embora saibamos o pior, preferimos não falar sobre ele, sequer enunciá-lo.

Post-scriptum

Paradoxo: a mesma Razão, a mesma faculdade ou potência racional presente em todo ser humano, pode levar à construção de requintados sistemas metafísicos ou a uma “lógica do pior”: filosofia trágica do acaso e da alegria como força maior da existência (não a melancolia, não o tédio, não a tristeza). O ideal kantiano de emancipação ou “maioridade” é idealista e, no fundo, metafísico; o de Rosset é trágico, cético e antimetafísico (materialista, na linha de Demócrito e Lucrécio).

Assim também, na Humanidade em geral encontram-se igualmente presentes, em proporções variadas, ambas estas tendências do espírito representadas por Kant, por um lado, e pelo filósofo trágico que é Rosset, por outro. Por um lado, somos intimados por nós mesmos, por nossa consciência, a admitir certas coisas; por outro lado, a mesma consciência que exige saber, exige também, logo em seguida, esquecer, e não apenas esquecer como, se possível, preencher o lugar do esquecido com uma nova e confortável crença.

Deixe aqui suas impressões, comentários e/ou críticas. Deja aquí sus impresiones, comentarios y/o críticas. Leave your impressions, comments and/or critiques here. Laissez ici vos impressions, commentaires et/ou critiques. Lăsați-vă impresiile, comentariile și sau recenziile aici. Lascia qui le sue impressioni, commenti e/o recensioni.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s