NÃO DRAMATIZEMOS. A humanidade conheceu angústias incrivelmente mais intensas do que as que nós sentimos hoje — pensemos nas pestes, na espera do fim do mundo, nas  invasões bárbaras. Sim, sem dúvida. Mas ela não tinha os meios de, ela mesma, precipitar “fim do mundo”. Os deuses podiam sempre intervir, e, de resto, era deles que devia sobrevir o fim. Agora se sabe que ele é preparado nos laboratórios e que pode surgir a qualquer momento, seja por cálculo, seja por inadvertência. É o que torna a aventura humana tão interessante. Pois se trata, antes de tudo, de uma aventura.

CIORAN, E.M., Cahiers : 1957-1972. Paris : Gallimard, 1997, p. 858.