“Portrait du civilisé” é o segundo ensaio de La chute dans le temps (1964),o primeiro sendo “L’arbre de vie” [A árvore da vida], no qual Cioran apresenta a sua exegese pouco ortodoxa do mito do pecado original. O ensaio aqui traduzido dialoga tanto com o livro anterior, História e Utopia (1960), quanto com o seguinte (ainda inédito em português): Le mauvais démiurge (1969). Poder-se-ia lê-los como a trilogia gnóstica por excelência no conjunto da obra francesa de Cioran.
Trata-se de uma cosmogênese, uma antropogênese e uma filosofia da história de cunho gnóstico, em ordem retroativa e anti-cronológica: começando pela “criação fracassada” pelas mãos inábeis de um “mau demiurgo” (1969), passando por essa segunda (e secundária) queda que é a “queda no tempo” — no caso, do Homem, criado à imagem e semelhança de um demiurgo desastrado — até chegar, por fim, no terror da História (1960), movida por um impulso diabólico de destruição, por um “élan supremo em direção ao pior” que arrasta o curso dos tempos para longe (e o oposto) de toda “utopia”.
Como escreve o autor, nas linhas finais do livro que antecede La chute dans le temps: “A história, espaço onde realizamos o contrário de nossas aspirações, onde as desfiguramos sem cessar, não é, evidentemente, de essência angélica. Ao considerá-la, só concebemos um desejo: promover a agrura à dignidade de uma gnose.” (História e utopia)

Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

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O encarniçamento em banir da paisagem humana o irregular, o imprevisto e o disforme beira a indecência. Que em certas tribos ainda se comprazam em devorar os anciãos excedentários é sem dúvida deplorável; mas que tão pitorescos sibaritas devam ser exterminados, com isso não consentiremos jamais, sem contar que o canibalismo representa um modelo de economia fechado e, ao mesmo tempo, uma prática apta a seduzir, um dia, um planeta abarrotado. A minha intenção não é a de lamentar-me pela sorte dos antropófagos, ainda que os persigam impiedosamente, que vivam no terror e que sejam os grandes perdedores do mundo de hoje. Convenhamos: o seu caso não é necessariamente excelente. São, ademais, cada vez mais raros: uma minoria acuada, desprovida de autoconfiança e incapaz de advogar em causa própria. Muito diferente nos parece a situação dos analfabetos, massa considerável, apegada às suas tradições e aos seus privilégios, que se castiga com uma virulência que nada justifica. Pois, afinal, é um mal não saber ler nem escrever? Francamente, não posso pensar que seja. E digo mais, poderemos ficar de luto pelo homem quando houver desaparecido o último iletrado.

Nada mais suspeito que o interesse do homem civilizado pelos povos ditos atrasados. Incapaz de suportar-se mais, ele se ocupa em descarregar sobre eles o excedente de males que o afligem, constrange-os a experimentar suas misérias, desafia-os a confrontar um destino que não podem mais desbravar a sós. De tanto considerar a sorte que tiveram de não ter “evoluído”, experimenta ao seu respeito o ressentimento de um aventureiro desequilibrado e extravagante. Com que direito permanecem à parte, fora do processo de degradação que ele, por sua vez, sofre há tanto tempo e ao que não consegue subtrair-se? A civilização, sua obra, sua loucura, aparece-lhe como um castigo que ele se inflige a si mesmo, e que ele gostaria de impor aos que lhe escaparam até o momento. “Vinde compartilhar de minhas calamidades, sedes solidários com meu inferno!” – tal é o sentido da sua solicitude por eles, tal o fundo da sua indiscrição e do seu zelo. Esgotado por suas taras e, mais ainda, por suas “luzes”, não repousará enquanto não as impor aos que felizmente estão isentos delas. Já procedia assim inclusive na época em que, ainda não “esclarecido” nem cansado de si, ele se entregava à codícia, à sua sede de aventuras e de infâmias. Os Espanhóis, no ápice de sua carreira, deviam sem dúvida sentir-se oprimidos tanto pelas exigências da sua fé como pelos rigores da Igreja. Vingaram-se pela Conquista.

Trabalhais para converter outrem? Não será jamais para operar nele a salvação, mas para obrigá-lo a padecer como vós, para que se exponha às mesmas provações e as atravesse com a mesma impaciência. Velais, orais, atormentais-vos? Que o outro faça-o tanto quanto, que suspire, uive, debata-se em meio às mesmas torturas que vós. A intolerância é própria dos espíritos devastados cuja fé se reduz a um suplício mais ou menos desejado que eles gostariam de ver generalizado, instituído. Sendo que a felicidade alheia jamais foi um móvel nem um princípio de ação, só é invocada para proporcionar-se uma boa consciência ou para recobrir-se de nobres pretextos: o impulso de alguma ação à qual se determina, e cuja execução precipita, é quase sempre inconfessável. Ninguém salva ninguém; pois só se salva a si, o que se consegue tão mais bem quanto mais se disfarce de convicções a infelicidade que se deseja distribuir e prodigar. Por mais prestigiosas que sejam suas aparências, o proselitismo não deriva menos de uma generosidade duvidosa, em seus efeitos pior que uma agressividade patente. Ninguém está disposto a suportar sozinho a disciplina que malgrado tudo assumiu, nem o jugo ao qual consentiu. A vingança transparece sob a alegria do missionário e do apóstolo. Não é para libertar, é para sujeitar que se dedica a converter.

A partir do momento em que alguém deixar-se tomar por uma certeza, invejará vossas opiniões flutuantes, vossa resistência aos dogmas ou aos slogans, vossa bem-aventurada incapacidade de acorrentar-vos a eles. Ruborizando secretamente de pertencer a uma seita ou a um partido, envergonhado de possuir uma verdade e de estar a ela escravizado, não são seus inimigos declarados, os que detêm outra verdade, de quem se ressentirá, mas de vós, do Indiferente, culpável de não perseguir nenhuma. Para fugir da escravidão em que ele caiu, buscais refúgio no capricho ou na aproximação? Ele fará de tudo para impedir-vos, para constranger-vos a uma servidão análoga e, se possível, idêntica à sua. O fenômeno é de tal modo universal que ultrapassa o setor das certezas para englobar o do renome. As Letras, como é de se esperar, fornecerão disso a penosa ilustração. Qual escritor que desfrute de certa notoriedade não acabará por sofrer em razão dela, por experimentar o mal-estar de ser conhecido ou compreendido, por dispor de um público, por mais restrito que seja? Invejoso de seus amigos que se regozijam no conforto da obscuridade, esforçar-se-á por arrancá-los dela, por perturbar o seu orgulho tranquilo, para que também eles se submetam às mortificações e ansiedades do sucesso. Para consegui-lo, qualquer manobra lhe parecerá legítima. A vida deles tornar-se-á doravante um pesadelo. Ele os assedia, pressiona-os a produzir e a se exibir, contraria a sua aspiração a uma glória clandestina, sonho supremo dos delicados e dos abúlicos. Escrevei! Publicai! – repete-lhes com raiva e despudor. Os infelizes levam-no a cabo, sem suspeitar o que os espera. Só ele sabe. Espreita-os, exaltando as suas divagações tímidas com violência e desmesura, com um fervor de maníaco, e, para precipitá-los no abismo da atualidade, arranja-lhes ou inventa-lhes admiradores e discípulos, fazendo com que sejam seguidos por uma turba de leitores, de assassinos onipresentes e invisíveis. Cometida a feitoria, acalma-se e desaparece, saciado pelo espetáculo de seus protégés, cativos dos mesmos tormentos e das mesmas vergonhas que ele, vergonhas e tormentos que resume bem a fórmula de não sei que escritor russo: “Poder-se-ia perder a razão só de pensar em ser lido.”

Exatamente como o autor atingido e contaminado pela celebridade trabalha para estendê-la àqueles que dela ainda estão isentos, assim também o civilizado, vítima de uma consciência exacerbada, se esforça por comunicar os tormentos desta aos povos refratários a seus dilaceramentos. Essa divisão consigo mesmo, que o molesta, que o corrói, como aceitar que a recusem, que demonstrem em relação a ela uma total falta de curiosidade? Sem negligenciar nenhum artifício à sua disposição para forçá-los a se dobrar, para levá-los a se aparentar a ele e a percorrerem o mesmo calvário que o seu, iludi-los-á com sua civilização, cujos prestígios, terminando por deslumbrá-los, os impedirão de discernir o que ela poderia ter de bom e o que de fato tem de mau. E imitarão apenas os seus aspectos nocivos, tudo o que faz dela um flagelo orquestrado e metódico. Eram até então inofensivos e descontraídos? Desejarão doravante ser fortes e ameaçadores, para a satisfação maior do seu benfeitor, consciente de que serão, a seu exemplo, fortes e ameaçados. Interessar-se-á então por eles, dar-lhes-á “assistência”. Que alívio ao contemplá-los enquanto se enroscam nos mesmos problemas, se afundam na mesma fatalidade! Tudo o que ele queria era complicá-los, torná-los obsessos, alucinados. O seu jovem fervor pelo utensílio, pelo luxo, pelas mentiras da técnica, conforta-o e preenche-o de tranquilidade: alguns condenados a mais, companheiros inesperados de infortúnio, capazes por sua vez dar-lhe assistência, de tomar para si uma parte do fardo que o esmaga, ou, ao menos, de carregar um tão pesado quanto o seu. Eis o que ele denomina “promoção”, palavra bem escolhida para camuflar tanto a sua perfídia quanto as suas chagas.

Encontramos ainda restos de humanidade tão-só entre os povos que, distanciados pela história, não têm nenhuma pressa em alcançá-la. Na retaguarda das nações, sequer roçados pela tentação do projeto, cultivam as suas virtudes fora de moda, impõem-se o dever de estarem datados. “Retrógrados”, eles seguramente são, e perseverariam de bom grado na sua estagnação se dispusessem dos meios para sustentar-se nela. Mas isso não lhes é permitido. O complô que os outros, os “avançados”, tramam contra eles é muito habilmente conduzido para que se possam safar. Uma vez desencadeado o processo de rebaixamento, e por raiva de não ter sabido oferecer-lhe resistência, empenhar-se-ão, com o despudor dos neófitos, a acelerar o seu curso, a esposar o seu horror e exagerá-lo, conforme à lei que faz prevalecer sempre um novo mal sobre um antigo bem. E vão querer atualizar-se, nem que seja apenas para mostrar aos outros que também eles sabem decair, que podem mesmo superá-los em matéria de decadência. Para que espantar-se ou lamentar-se a este respeito? Não vemos por toda parte os simulacros prevalecerem sobre a essência, a trepidação sobre o repouso? E não se diria que assistimos à agonia do indestrutível? Todo passo adiante, toda forma de dinamismo comporta algo de satânico: o “progresso” é o equivalente moderno da Queda, a versão profana da danação. E aqueles que creem nele e são seus promotores, todos nós definitivamente, que somos senão réprobos em marcha, predestinados à imundície, a essas máquinas, a essas cidades, de que apenas um desastre exaustivo poderia nos livrar. Eis a ocasião imperdível que se oferece às nossas invenções para provarem a sua utilidade e se reabilitarem aos nossos olhos.

Se o “progresso” é um mal tão grande, como é que não demos um jeito de livrar-nos logo dele? Será que desejamos isso mesmo? Não será a nossa fatalidade, antes, a de não querê-lo realmente? Em nossa perversidade, é o “melhor” que desejamos e perseguimos: busca nefasta, em tudo contrária à nossa felicidade. Não nos “aperfeiçoamos” nem avançamos impunemente. O movimento, sabemos, é uma heresia; e é precisamente por esta razão que ele nos tenta, que nós nos lançamos nele e que, irremediavelmente depravados, nós o preferimos à ortodoxia da quietude. Nós somos feitos para vegetar e para florescer na inércia, não para perder-nos pela rapidez e pela higiene, responsáveis pela profusão desses seres desencarnados e assépticos, desse formigueiro de fantasmas em que tudo fervilha e nada vive. Alguma dose de sujeira sendo indispensável ao organismo (fisiologia e imundície são termos intercambiáveis), a perspectiva de uma higiene em escala universal inspira uma legítima apreensão. Deveríamos ter-nos contentado, piolhentos e serenos, à companhia das bestas, definhar ao lado delas por milênios mais, respirar o odor dos estábulos e não o dos laboratórios, morrer das nossas doenças e não dos nossos remédios, rodopiar em torno do nosso vazio e afundar nele docemente. Nós substituímos a ausência, que deveria ter sido um dever e uma obsessão, pelo acontecimento; ora, todo acontecimento nos decepa e corrói, surgindo apenas à custa do nosso equilíbrio e da nossa duração. Quanto mais o nosso futuro se encurta, mais nos deixamos cair no que nos arruína. Estamos a tal ponto intoxicados da civilização, nossa droga, que o nosso apego por ela apresenta os caracteres de um fenômeno de adicção, mescla de êxtase e de execração. Tal como é, ela acabará conosco, nenhuma dúvida quanto a isso; quanto a desprender-nos e renunciar a ela, não o podemos, hoje menos do que nunca. Mas quem voaria em nosso socorro, para libertar-nos dela? Um Antístenes, um Epicuro, um Crisipo, que julgavam complicados demais os costumes antigos, o que pensariam dos nossos, e qual dentre eles, transplantado a nossas metrópoles, teria têmpera suficiente para conservar nelas a sua serenidade? Em tudo mais santos e mais equilibrados do que nós, os Antigos teriam podido passar sem uma sabedoria; e contudo, elaboraram uma; o que nos desqualifica para sempre é que não temos dela nem a preocupação nem a capacidade. Não é significativo que o primeiro dentre os modernos a ter, por idolatria da natureza, denunciado com vigor os males do civilizado, foi o contrário de um sábio? Nós devemos o diagnóstico do nosso mal a um insensato, mais marcado, mais atingido do que nós, a um maníaco confesso, precursor e modelo de nossos delírios. Não menos significativo parece-nos o acontecimento mais recente da psicanálise, terapêutica sádica, cismada em irritar os nossos males mais do que acalmá-los, e singularmente experta na arte de substituir os nossos mal-estares ingênuos por outros rebuscados.

Toda necessidade,[1] dirigindo-nos à superfície da vida para roubar-nos em suas profundezas, confere um preço ao que não possui nenhum, ao que não saberia possui-lo. A civilização, com todo o seu aparato, se funda sobre a nossa propensão ao irreal e ao inútil. Se consentíssemos a reduzir nossas demandas, a satisfazer tão-somente as necessárias, ela desmoronaria no ato. Assim, para durar, ela trabalha para criar em nós outras sempre novas, a multiplicá-las sem trégua, pois a prática generalizada da ataraxia implicaria para ela consequências muito mais graves que uma guerra de destruição total. Acrescentando aos inconvenientes fatais da natureza outros inconvenientes gratuitos, ela nos constrange a sofrer duplamente, diversifica os nossos tormentos e reforça as nossas enfermidades. E que não venham nos dizer que ela nos curou do medo. É evidente a correlação entre a multiplicação das nossas necessidades e o crescimento dos nossos terrores. Os nossos desejos, fontes de nossas necessidades, suscitam em nós uma inquietude constante, que experimentamos como intolerável de modo outro que o frenesi, no estado de natureza, diante de um perigo passageiro. Nós só trememos por sobressaltos, é verdade, mas trememos sem descanso. O que é que ganhamos com a troca do medo pela ansiedade? E quem hesitaria entre um pânico instantâneo, e um outro, difuso e permanente? A segurança de que nos gabamos dissimula uma agitação ininterrupta que envenena todos os nossos instantes, tanto os do presente quanto os do futuro, tornando uns interditados e os outros inconcebíveis. Se nossos desejos se confundem com nossos terrores, feliz daquele que não guarda nenhum! Pois mal experimentamos um e imediatamente surge outro, numa sequência tão lamentável quanto malsã. Dediquemo-nos antes a suportar o mundo e a considerar cada impressão que dele recebemos como uma impressão imposta, que não nos diz respeito e que suportamos como se não fosse nossa. “Nada do que me sucede me pertence, nada é meu”, diz o Eu ao persuadir-se de que não é daqui, que se enganou de universo, e que tão-só pode escolher entre a impassibilidade e a impostura.

Predisposto às aparências, cada desejo, fazendo-nos dar um passo fora da nossa essência, nos prega a um novo objeto e limita o nosso horizonte. Entretanto, à medida que se exaspera, permite-nos discernir essa sede mórbida de que ele é a emanação. Cessa de ser natural, submete-se à nossa condição de civilizados? Fundamentalmente impuro, perturba e macula inclusive a nossa substância. É vício tudo o que se acrescente a nossos imperativos profundos, tudo que nos deforma e perturba sem necessidade. O riso e o sorriso mesmo são vícios. Em contrapartida, é virtude tudo o que nos induz a viver na contracorrente da nossa civilização, tudo que nos convida a saborear comprometê-la e sabotar a sua marcha. No que concerne à felicidade, se esta palavra tem um sentido, ele consiste na aspiração ao mínimo e à ineficácia, no aquém erigido em hipóstase. O nosso único recurso: renunciar não apenas ao fruto dos atos, mas aos atos mesmos, exercitar-se no não-rendimento, deixar inexploradas uma boa parte das nossas energias e das nossas chances. Culpáveis de querermos realizar-nos para além das nossas capacidades ou dos nossos méritos, fracassados por excesso, inaptos à verdadeira realização, nulos de tanta tensão, grandes por esgotamento, pela dilapidação dos nossos recursos, nós nos consumimos sem levar em conta as nossas virtualidades nem os nossos limites. De onde a nossa lassidão, agravada pelos esforços que fizemos para nos acostumar à civilização, a tudo que ela implica de corrupção tardia. Que a natureza seja, ela também, corrompida, não se poderia negar; essa corrupção sem data é um mal imemorial e inevitável, a que nos acomodamos por obrigação, enquanto que o da civilização, resultado das nossas obras ou dos nossos caprichos, tão mais opressivo quanto nos parece fortuito, leva a marca de uma opção ou de uma fantasia, de uma fatalidade premeditada ou arbitrária; acreditamos, com razão ou sem nenhuma, que ela podido não ter surgido, que cabia a nós decidir se surgiria ou não. O que só a torna ainda mais odiosa para nós do que é. Somos inconsoláveis por ter de suportá-la e fazer face às misérias sutis que dela derivam, quando podíamos mesmo nos contentar com as grosseiras e, considerando bem, suportáveis, com as quais a natureza nos proveu tão generosamente.

Se estivéssemos à altura de nos arrancar aos desejos, nós nos livraríamos também do destino: superiores aos seres e às coisas, e a nós mesmos, contrários a amalgamar-nos mais ao mundo, nós acederíamos à nossa liberdade pelo sacrifício da nossa identidade, inseparável de um treinamento no anonimato e na abdicação.  “Não sou ninguém, eu venci o meu nome!, exclama para si aquele que, não querendo mais rebaixar-se a deixar rastros, tenta conformar-se à injunção de Epicuro: “Esconde a tua vida.” Esses antigos, a eles sempre retornamos quando se trata da arte de viver da qual dois mil anos de sobre-natureza e de caridade convulsiva nos fizeram perder o segredo. E nós nos voltamos a eles, à sua ponderação e à sua amenidade, sempre que diminui, por pouco que seja, esse frenesi que nos inculcou o cristianismo; a curiosidade que despertam em nós corresponde a uma diminuição de nossa febre, a um recuo em direção à saúde. E a eles retornamos uma vez mais porque, o intervalo que os separa do universo sendo mais vasto que o universo mesmo, eles nos propõem uma forma de desapego que em vão nós buscaríamos junto aos santos.

Tornando-nos frenéticos, o cristianismo nos prepararia, para o seu azar, a cultivar uma civilização da qual é ele mesmo agora a vítima: não criou em nós demasiadas necessidades, demasiadas exigências? Estas exigências, estas necessidades, interiores de início, degradar-se-iam e voltar-se-iam para fora, e o fervor de onde emanavam tantas orações suspendidas bruscamente, não podendo suprimir-se nem ficar desempregado, teve de ser colocado a serviço de deuses de estoque e forjar símbolos à medida de sua nulidade. Eis-nos entregues a contrafações do infinito, a um absoluto sem dimensão metafísica, mergulhados na rapidez, por falta de está-lo no êxtase. Essa sucata apressada, réplica de nossa inquietação, e esses espectros que a dirigem, esse desfile de autômatos, essa procissão de alucinados! Aonde vão, o que buscam? Que sopro de demência os move? Cada vez que me inclino a absolve-los, que tenho dúvidas sobre a legitimidade da aversão ou do terror que me inspiram, basta-me pensar nas estradas do campo, ao domingo, para que a imagem dessa vermineira motorizada me confirme em meus desgostos ou meus pavores. Abolido o uso das pernas, o pedestre, em meio a esses paralíticos ao volante, tem ares de excêntrico ou de proscrito; logo será visto como um monstro. Nenhum contato mais com o solo: tudo o que afunda nele tornou-se para nós estranho e incompreensível. Arrancados de toda raiz, inaptos ademais a viver junto ao pó ou à lama, nós realizamos a proeza de romper não apenas coma intimidade das coisas, mas inclusive com a sua superfície. Neste estado, a civilização pareceria um pacto com o diabo, se o homem ainda tivesse alguma alma a vender.

É realmente para “ganhar tempo” que foram inventadas essas engenhocas? Mais desprovido, mais deserdado que o troglodita, o civilizado não tem um instante para si; mesmo os seus lazeres são febris e pressionadores: um forçado de licença, sucumbindo à tristeza do far-niente e ao pesadelo das praias. Quando se praticou certos ambientes em que a ociosidade era de rigor, onde todos se excediam nela, mal se pode adaptar a um mundo em que ninguém a conhece nem sabe dela desfrutar, onde nada respira. O ser acorrentado às horas é ainda um ser humano? E tem ele direito a declarar-se livre, quando sabemos que chacoalhou todas as servidões, salvo a essencial? À mercê do tempo que ele nutre, que faz engordar com a sua substância, ele se extenua e se anemiza para garantir a prosperidade de um parasita ou de um tirano. Meticuloso, apesar da loucura, ele imagina que as suas preocupações e tribulações seriam menores se pudesse presenteá-las, em forma de “programa”, aos povos “subdesenvolvidos”, que ele repreende por não estarem “por dentro”, no caso, da vertigem. Para melhor precipitá-los nela, ele os inoculará com o veneno da ansiedade, e não os dará descanso até que tenha verificado neles os mesmos sintomas de atarefamento. Para realizar o seu sonho de uma humanidade sem alento, embasbacada e presa ao relógio, percorrerá os continentes, sempre em busca de novas vítimas sobre as quais versar o seu excesso de febres e de trevas. Contemplando-o, entrevemos a verdadeira natureza do inferno: não é aí que se está condenado ao tempo por toda a eternidade?

Não importa se sobrepujamos o universo e nos apropriamos dele, permaneceremos hilotas enquanto não triunfamos do tempo.[2] Ora, essa vitória se conquista pela renúncia, virtude à qual as nossas conquistas nos tornaram impróprios, de sorte que conforme o seu número aumenta, mais se deslinda a nossa sujeição. A civilização nos ensina a tomarmos posse das coisas, quando é na arte de nos desapoderar delas que ela deveria nos iniciar, pois não há liberdade nem “verdadeira vida” sem o aprendizado da despossesão. Quando me apodero de um objeto, considero-me o seu mestre; na verdade, sou o escravo, escravo também do instrumento que fabrico e manuseio. Não há nova aquisição que não signifique uma cadeia a mais, nem fator de potência que não seja causa de debilidade. Até os nossos dons contribuem para a nossa sujeição; o espírito que se eleva sobre os outros é menos livre que eles: apegado a suas faculdades e ambições, prisioneiro de seus talentos, ele os cultiva à própria custa, fá-los valer o preço da sua salvação. Não há libertação possível enquanto se obstina em tornar-se alguém ou alguma coisa. Tudo o que nós possuímos ou produzimos, tudo o que se superpõe ao nosso ser, ou dele procede, nos desnatura e nos sufoca. E o nosso próprio ser, que erro, que injúria tê-lo adjunto à existência, quando podíamos, intactos, perseverar no virtual e no invulnerável! Ninguém se recupera do mal de nascer, chaga[3] capital entre todas. É, no entanto, com a esperança de nos curar dele um dia que aceitamos a vida e nos submetemos às suas provações. Os anos passam, a chaga permanece.

Quanto mais a civilização se diferencia e se complica, mais amaldiçoamos os laços que nos unem a ela. No dizer de Soloviev, ela se aproximará do seu fim (que será, segundo o filósofo russo, o fim de todas as coisas) bem no meio do “século mais refinado”. O que é certo é que ela nunca foi tão ameaçada nem detestada senão nos momentos em que parecia mais estável, como testemunham os ataques realizados, no apogeu das Luzes, contra seus costumes e prestígios, contra todas as conquistas de que ela tinha orgulho. “Nos séculos educados, faz-se uma religião de admirar o que era admirado nos séculos grosseiros”, nota Voltaire, pouco inclinado, reconheçamos-lhe, a compreender as razões de uma tão justa empolgação. É, em todo caso, na época dos salões que o “retorno à natureza” se impunha, assim como a ataraxia só podia ser concebida num tempo em que, cansados de divagações e de sistemas, os espíritos preferiam as delícias de um jardim às controvérsias da ágora. O apelo à sabedoria provém sempre de uma civilização cheia de si mesma. Curiosamente, nos é difícil imaginar o processo que levará à saciedade esse mundo antigo que, ao lado do nosso, nos parece, em todos os seus momentos, como o objeto ideal de nossos lamentos. De resto, comparada ao inominável de hoje, qualquer outra época nos parece boa. Apartando-nos de nossa verdadeira destinação, nós entraremos, se aí já não estamos, no siècle de la fin, neste século refinado por excelência (complicado é o adjetivo exato), necessariamente aquele em que nos encontraremos, em todos os planos, na antípoda do que deveríamos ter sido.

Os males inscritos em nossa condição prevalecem sobre os bens; mesmo se se equilibrassem, os nossos problemas não estariam resolvidos. Nós existimos para nos debater com a vida e com a morte, e não para nos esquivar-nos delas, como nos convida a fazê-lo a civilização, empresa de dissimulação, de maquiagem do insolúvel. Não contendo nela mesma nenhum princípio de duração, as suas vantagens, impasses, não nos ajudam nem a viver nem a morrer melhor. Se chegasse, apoiada pela inútil ciência, a varrer todos os flagelos ou, para nos aliciar, a nos discernir dos planetas à guisa de recompensa, só conseguiria aumentar nossa desconfiança e nossa exasperação. Quanto mais ela se obstina e se compraz, mais nós invejamos as eras que tiveram o privilégio de ignorar as facilidades e as maravilhas com que ela não cessa de nos gratificar. “Com um pouco de pão e água, pode-se rivalizar com Júpiter em felicidade”, gostava de repetir o sábio que nos aconselhava a esconder nossa vida. Pega mal citá-lo sempre? Mas a quem encaminhar-se, a quem pedir conselho? Aos nossos contemporâneos? A esses indiscretos e inquietos, culpáveis, deificando o desejo, o apetite e o esforço, de ter feito de nós fantoches líricos, insaciáveis e exauridos? A única desculpa da sua fúria é que não deriva de um instinto fresco nem de uma expansão sincera, mas de um pânico diante um horizonte entupido. Tantos de nossos filósofos debruçando-se, aterrados, sobre o futuro, todos, no fundo, intérpretes de uma humanidade que, sentindo os instantes escaparem, se esforça por não pensar nisso – e o pensa sempre. Os seus sistemas oferecem, em suma, a imagem e como que o desdobramento discursivo desta obsessão. Analogamente, a História não podia atrair o seu interesse senão num momento em que o homem tem todas as razoes de duvidar que ela ainda lhe pertence, que ele continua sendo o seu agente. De fato, tudo se passa como se, ela também escapando-lhe, ele começasse uma carreira não histórica, breve e convulsiva, que relegasse ao nível de insipidez as calamidades com as quais estava até aqui tão entretido. O seu grau de ser diminui a cada passo que dá adiante.  Nós só existimos pelo recuo, pela distância que tomamos em relação às coisas e a nós mesmos. Remoer-se é entregar-se ao falso e ao fictício, é praticar uma discriminação abusiva entre o possível e o fúnebre. No grau de mobilidade a que chegamos, não somos mais os mestres nem dos nossos gestos e nem da nossa sorte. Reside aí muito certamente uma providência negativa, cujos desígnios, à medida que nos aproximamos do nosso termo, se fazem cada vez menos impenetráveis, a tal ponto que se desvelariam por completo ao primeiro que chegasse, se apenas se dignasse a deter-se e a sair do seu papel, para contemplar, por um instante sequer, o espetáculo dessa horda esbaforida e trágica da qual é parte.

Considerando tudo, o século do fim não será o século mais refinado, nem o mais complicado, senão o mais apressado, aquele em que, dissolvido o ser no movimento, a civilização, num élan supremo em direção ao pior,[4] se pulverizará no turbilhão que terá suscitado. Se nada pode impedi-la de abismar-se nele, renunciemos a exercitar contra ela nossas virtudes, saibamos discernir no excesso em que ela se compraz algo de exaltante, que nos convida a moderar nossas indignações e a rever nossos desprezos. É assim que esses espectros, esses autômatos, esses alucinados são menos odiáveis se refletirmos sobre os móveis inconscientes, sobre as razoes profundas do seu frenesi: não sentem eles que o tempo de que dispunham diminui a cada dia e que o desenlace ganha forma? E não é para afastar a sua ideia que se aglutinam na rapidez? Se estivessem certos de um outro futuro, não teriam nenhum motivo para fugir nem fugir de si, abrandariam a sua cadência e se instalariam sem temor numa expectativa indefinida. Mas não se trata para eles de tal ou tal futuro, pois é de futuro justamente que carecem; eis aí, surgida de um pânico do sangue, uma certeza obscura, não formulada, que eles temem enxergar e querem esquecer despachando-se, indo cada vez mais rápido, recusando-se o menor instante para si. Apesar do Inelutável que ela encerra, eles a reintegram pela velocidade mesma que, no seu espírito, deveria afastá-los dela. De tanta pressa, de tanta impaciência, as máquinas são a consequência e não a causa. Não são elas que arrastam o civilizado a sua perda; ele antes as inventou porque já estava a caminho dela; meios, auxiliares para chegar lá mais rápida e eficientemente. Não satisfeito de correr, queria ainda rolar até ela. Neste sentido, e nele apenas, pode-se dizer que elas lhe permitem efetivamente “ganhar tempo”. Ele as distribui, as impõe aos atrasados, aos retardatários, para que possam segui-lo, ultrapassá-lo mesmo na corrida ao desastre, na instauração de um amok universal e mecânico. E é no intuito de assegurar o seu advento que ele insiste em nivelar, em uniformizar a paisagem humana, a apagar as irregularidades e a banir dela as surpresas; não são as anomalias, mas a anomalia que ele gostaria de fazer reinar aí, a anomalia monótona e rotineira, convertida em regra de conduta, em imperativo. Os que se recusam são tachados de obscurantismo ou de extravagância, e ele não deporá as armas enquanto não conduzi-los ao caminho reto, ao mesmos erros que ele. Aos iletrados, em primeiro lugar, repugna-lhes cair neles; ele os forçará, então, obrigando-os a aprender a ler e escrever, de modo que, pegos na armadilha do saber, nenhum deles escape à infelicidade comum. A sua obnubilação é tão grande que ele nem mesmo concebe que se possa optar por outro gênero de extravio que o seu. Carente do descanso necessário ao exercício da autoironia, ao que deveria incitá-lo um simples apanhado geral sobre o seu destino, ele se priva assim de todo recurso contra si mesmo. Torna-se por isso apenas mais funesto aos outros. Agressivo e lamentável, não carece de certo patetismo: compreende-se porque, diante do inextricável em que ele se meteu, experimenta-se um desconforto em denunciá-lo e ataca-lo, sem contar que é sempre de mau gosto maldizer um incurável, por mais odioso que seja. Mas se nos recusássemos ao mau gosto, poderíamos sustentar ainda o menor julgamento sobre o que quer que seja?

CIORAN, E.M., “Portrait du civilisé”, La chute dans le temps (1964), in: Œuvres. Paris, Gallimard, 1995, p. 1084-1095.

Tradução do francês: Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

NOTAS:

[1] Besoin no original francês, conforme distinto de nécessité, “necessidade” no sentido estrito, essencial, vital, enquanto que besoin (também “necessidade”) denota a ideia de algo (necessidade, exigência, demanda) supérfluo, acessório e inessencial.

[2] Ilotes (pl.), no original francês: do grego Εἱλῶται (Heílotai, pl.), os hilotes eram servos dos espartanos. Diferentemente dos escravos, os hilotas eram propriedade do Estado, e encarregados dos trabalhos mais penosos, como a atividade rural. A julgar por historiadores como Antíoco de Siracusa e Heródoto, a sua condição era degradante. Por analogia: pessoa em estado de dependência vis-à-vis de outrem; pessoa reduzida à miséria, à degradação física e moral. Em francês existe o verbo transitivo ilotiser, designando o ato de reduzir (alguém) ao estado de hilote: “Nós, cristãos, seremos muito em breve domesticados, hilotizados (ilotisés), reduzidos à servidão” (Delacroix, Journal, 1886, p. 562). Fonte: Centre National de Ressources Textuelles et Lexicales (CNRTL):  http://www.cnrtl.fr/definition/ilote [acesso: 30/12/2018]

[3] Plaie (fem.), no original francês: “ferida” (cicatrizada ou em carne viva, aberta), “laceração”, “corte”, “talho” em alguma parte de um corpo, normalmente com sangramento. Como no verso do poema L’Heautontimoroumenos, de Baudelaire, em tradução livre: Je suis la plaie et le couteau [Eu sou a ferida e a faca]. Também traduzível por “chaga”, “praga”, no sentido de mazela provocada por fatores naturais (erva-daninhas, vaca louca) ou sociais, culturais, econômicos e políticos (violência, criminalidade, epidemias urbanas). Plaie também pode significar um defeito personalidade (vaidade, avareza); sofrimento moral mais ou menos permanente; problema grave (no casamento, na família, na sociedade), situação ou pessoa que é causa de desentendimento e aborrecimentos. Como “ferida” também pode ser blessure (aliás, utilizado por Cioran um pouco acima), optamos por traduzir o substantivo feminino francês plaie por “chaga”, condensando o cruor da ferida, o talho da carne aberta, e o caráter mais sublime (invisível) da angústia, do pesar, da dor, moral ou espiritual.

[4] Élan vers le pire, no original francês: “elã/impulso em direção ao pior”, operador conceitual-chave (muito embora usado com parcimônia) do pensamento histórico-antropológico de Cioran: sua dupla reflexão sobre o processo histórico e a existência humana individual como diferentes instâncias de uma mesma “Queda no tempo” (Chute dans le temps), de um mesmo “desastre”, de onde o fenômeno da décadence seja no âmbito das civilizações, seja no âmbito do espírito. A expressão – l’élan vers le pire – é uma chave de acesso ao núcleo metafísico de tons fortemente pessimistas do autor, em franco contraste com um ceticismo que seria a afirmação não de uma necessidade e de uma suposta fatalidade universais, mas tão-somente o reconhecimento do acaso, sem nenhuma causa ou finalidade. A expressão reaparecerá no breve aforismo de um livro posterior: “O verdadeiro, o único azar, é o de ver o dia. Ele remonta à agressividade, ao princípio de expansão e de raiva alojado nas origens, ao impulso para o pior [élan vers le pire] que as abalou.” (Do inconveniente de ter nascido, trad. de Manuel de Freitas. Lisboa: Letra Livre, 2010, p. 12)

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