Deus (dirigindo-se a J贸): Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam?

J贸: (sil锚ncio)

Deus (dirigindo-se a Cioran): E tu, onde estavas?

Cioran: Primeiramente, fa莽o quest茫o de responder, muito embora n茫o acredite em Ti e n茫o reconhe莽a a Tua exist锚ncia (pelo menos, n茫o da maneira como se costuma acreditar). Em segundo lugar, as estrelas n茫o “cantavam”; n茫o era canto, era choro (e, se canto era, devia ser o equivalente celeste do canto dos cisnes); e que hist贸ria 茅 essa de que “todos os filhos de Deus jubilavam”? N茫o reconhe莽o nenhuma excel锚ncia neste mundo, e, se 茅 verdade que foste Tu quem o criou, ent茫o… ah, n茫o quero divagar! S贸 vou dizer uma coisa: “O Hosana n茫o entra em nossos h谩bitos“. Por fim, para responder 脿 tua pergunta: Onde estava eu quando Tu fundaste a terra? Vou Te contar de uma experi锚ncia que tive, uma experi锚ncia excepcional, t茫o extraordin谩ria, t茫o ins贸lita, que desde ent茫o nunca me abandonou a certeza de n茫o ser nada e, ao mesmo tempo, a certeza de ser superior aos deuses gra莽as 脿s minhas imperfei莽玫es! Na falta de outro voc谩bulo, chamarei essa experi锚ncia de “锚xtase”:

Nesse momento de 锚xtase c贸smico, de revela莽茫o metaf铆sica, senti como os efl煤vios que eu emanava eram efl煤vios deste mundo, como o meu tremor era o tremor do ser e como a minha alucina莽茫o era a alucina莽茫o da exist锚ncia. Ent茫o eu me senti, naquele arrepio inesquec铆vel, irrespons谩vel pela exist锚ncia do mundo. (Nos cumes do desespero)

E foi gra莽as a esses instantes supremos — de uma como莽茫o estranha e dificilmente suport谩vel, como se fosse uma alegria聽exterior ao universo —聽que eu jamais pude me habituar 脿 exist锚ncia, 脿 dura莽茫o, ao tempo enquanto tal. Afinal de contas, Tu bem sabes, “n茫o se volta o mesmo do para铆so ou o inferno”. Se tenho um fraco pela nega莽茫o, 茅 por n茫o encontrar satisfa莽茫o nem na exist锚ncia, nem no Absoluto! O Infinito mesmo 茅 pouco, uma ninharia… e, no entanto, como tudo 茅 demasiado! Enfim, eu falava do meu fraco pela nega莽茫o… como n茫o ceder ao seu charme, 脿s suas sedu莽玫es?

O que sempre me seduziu na nega莽茫o 茅 o dom de tomar o lugar de tudo e de todos, de ser uma esp茅cie de demiurgo, de dispor do mundo como se tivesse colaborado na sua apari莽茫o e depois tivesse o direito, e mesmo o dever, de precipitar a sua queda. A destrui莽茫o, consequ锚ncia imediata do esp铆rito de nega莽茫o, corresponde a um instinto profundo, a um tipo de inveja que cada um certamente sente no fundo de si mesmo com rela莽茫o ao primeiro dos seres, 脿 sua posi莽茫o e 脿 ideia que representa e simboliza. Embora frequentasse os m铆sticos, no meu foro 铆ntimo estive sempre do lado do Dem么nio: n茫o podendo me igualar a ele pela for莽a, tentei ser equivalente ao menos pela insol锚ncia, pela aspereza, pelo arb铆trio e pelo capricho. (Exerc铆cios de admira莽茫o)