EL PAÍS, 27/04/2019

As pesquisas revelam que a religião perde influência, mas isso não significa o fim do monoteísmo

A frase “Sou ateu, graças a Deus” é atribuída a Buñuel e tem as duas qualidades que Sócrates reivindicava para a filosofia: ironia e maiêutica. A primeira é evidente, faz rir; a segunda joga luz sobre uma ideia do pensamento védico e dos místicos cristãos (Böhme, Eckart): embora você se esforce em negá-lo, Ele mesmo (ou ela mesma, se falamos da consciência) torna possível a sua negação. Por Ele existe algo em vez de nada (Leibniz), por ela é possível o amor intelectual ao divino (Spinoza), único modo de tocar o eterno. Mas todas essas são visões do passado. Hoje, a forma mais genuína de ser religioso é ser ateu (Panikkar).

Um livro recente, Siete Tipos de Ateísmo (sete tipos de ateísmo), de John Gray, analisa o complexo legado das tradições ateias. Gray não deixa pedra sobre pedra. Dos fiéis da fé laica no progresso até as grandes teorias da evolução social, de Spencer a Marx. A morte de Deus deixa um lugar vazio para diversos ídolos: os delírios positivistas de Auguste Comte, o exagerado recato racionalista de Stuart Mill, o magnetismo animal de Mesmer e algumas opiniões de Kant e Voltaire: “O racismo e o antissemitismo emanam de crenças centrais do Iluminismo.” Exemplos mais próximos: o ultraindividualismo de Ayn Rand, os delirantes memes de Richard Dawkings e o trans-humanismo que almeja alçar a mente ao ciberespaço. Todos eles projetos de autodeificação, seja do indivíduo ou da sociedade. Gray considera que a crença na espécie humana como “agente coletivo”, que se propõe grandes projetos e os realiza na história, é um mito herdado do monoteísmo. Ou a humanidade (ou um setor dela) brinca de Deus, ou os humanos acabam se transformando em deuses.

É difícil definir o ateísmo e condensá-lo numa única fórmula. Compartilho a antipatia de Gray ante certo ateísmo opressivo e claustrofóbico que reproduz as manias do monoteísmo. Talvez isso se deva a que os valores tenham algo de genético, e não podemos abrir mão de tudo o que herdamos e respiramos na infância, seja a favor ou contra. Inimigo implacável do cristianismo, Nietzsche foi também um pensador cristão. Via no animal humano uma necessidade de redenção; o niilismo era evitável se fôssemos capazes de criar o sentido perdido após a morte de Deus. O Übermensch [Além-homem] devia desempenhar essa função, comparável à do redentor. Gray é um ateu encantado por viver num mundo sem deuses ou com um deus inominável. Mas se declara inimigo do ateu militante que, embora negue sê-lo, é o pior crente de todos, tedioso e pouco inspirador (o nada não precisa de propaganda), e resgata ateus como Santayana, que amava a religião, ou como Schopenhauer, cujo único deus era a música. Curiosamente, o livro perde um pouco de seu brilhantismo quando fala deles.

O último barômetro do Centro de Pesquisas Sociológicas (CIS) indica uma porcentagem histórica de não crentes na Espanha, até 27%, chegando a quase 50% no caso dos jovens. Podemos viver sem igrejas, é certo, mas podemos viver sem religião? As religiões não são teorias do universo, e sim tentativas de dar sentido à experiência. Se nos atemos à etimologia, podemos viver sem estar religados ao mundo e à paisagem? Em sua definição do religioso, os antropólogos recorreram ao conceito do sagrado. A religião não era uma questão de crenças (em um Criador, nos milagrosos ou nos benefícios da oração), mas de práticas sociais. O enfoque deixou claro que os sacerdotes não podiam definir a religião, passando a considerá-la um artefato cultural com pelo menos três elementos: literatura sagrada, comunidade sagrada e práticas rituais.

Durkheim adotou o funcionalismo, e o sagrado passou a ser um fator de coesão social. Mas, desde Newton, o estímulo da ciência vinha desalojando o sagrado da vida civil. Marx o transformou em um narcótico idiotizante, Freud em uma neurose, e o sagrado, tão arraigado na psique humana, sentiu-se encurralado. Então deixou de apontar para uma transcendência para se voltar sobre si mesmo, sobre o social. Essa é a tese de Roberto Calasso em La Actualidad Innombrable (a atualidade inominável). A era moderna vive ensimesmada com o social. Para Marcel Mauss, isso era claro: “Se os deuses, cada um em seu momento, saem do templo e se tornam profanos, vemos que o relativo à própria sociedade humana (a pátria, a propriedade, o trabalho, o indivíduo) entra no templo progressivamente.” As sociedades seculares modernas se rendem ao culto de si mesmas. São sociedades autocentradas, que não olham além de seu próprio ordenamento e não buscam modelos no cosmos ou na fisiologia, e sim na própria história e suas instituições, declarações e conquistas… [+]

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