Mede-se a carência de sentido místico de um indivíduo pela necessidade que tem de argumentos para convencer a si mesmo e os demais da existência de Deus. Não apenas essa carência como também o grau de racionalismo.

Não apenas os filósofos sofrem desse mal; inclusive os indivíduos religiosos, qualquer que seja a sua crença, o seu mito, em grande medida sentem a necessidade de provar Deus: o seu Deus. A teologia cristã em bloco é (salvo alguns casos aberrantes e marginais, algumas raras exceções), toda ela, demasiado racional, demasiado argumentativa — ergo, ingênua, impertinente, deicida. A necessidade de apresentar provas para a existência de Deus (tão jurídica, legalista, tão “juspositivista”) trai um ateísmo inconfesso, inclusive inconsciente, o ateísmo de quem se acredita crente sem sê-lo (uma vez que no fundo está carcomido de dúvidas e incertezas, das quais derivam sua necessidade probatória):

A necessidade de provar uma afirmação, de caçar argumentos a torto e a direito, pressupõe uma anemia do espírito, uma insegurança da inteligência, mas também da pessoa em geral. Quando um pensamento nos invade poderosa e violentamente, ele surge da substância de nossa existência; prová-lo, cercá-lo de argumentos, significa debilitá-lo e duvidar de nós mesmos. Um poeta ou um profeta não demonstra nada, porque o seu pensamento é o seu ser; a ideia não difere de sua existência. O método e o sistema são a morte da razão. Inclusive Deus pensa de maneira fragmentária; em fragmentos absolutos. (Amurgul gândurilor)

Sabemos que “a teologia é a negação de Deus”:

Que ideia descabida pôr-se a buscar argumentos para provar sua existência! Todos seus tratados valem menos que uma exclamação de Santa Teresa. Desde que a teologia existe, nenhuma consciência ganhou com ela sequer uma certeza a mais, pois a teologia é a versão ateia da fé. O menor balbucio místico está mais próximo de Deus que a Summa Theologica. Tudo o que é instituição e teoria deixa de estar vivo. A Igreja e a teologia asseguraram a Deus uma agonia duradoura. Só a mística o reanima de vez em quando. (Lágrimas e Santos)

Para o místico, “ateísmo” não é um problema à parte; talvez seja, pelo contrário, o único problema, e quem sabe se ele não faz, no fundo, nenhuma distinção entre “ateísmo” e “teísmo” (como, no seu foro íntimo, o personagem da novela de Miguel de Unamuno, São Manuel Bueno, o Mártir). Só o místico pode declarar apaixonadamente: “Sou ateu, graças a Deus!” Nada mais enfadonho do que o Deus da teologia e os deuses das religiões em geral: demasiado oficiais e pouco espontâneos, muito pouco prováveis. Se for para provar e ter certeza, é preferível entregar-se aos desconsolos e às amarguras do ateísmo.

Todo racionalismo é totalitário e opressivo, pois tem a pretensão de instaurar a Luz absoluta, porque aspira a estabelecer uma Claridade universal, uma Transparência total, uma Inteligibilidade integral e infalível, em todas as esferas da existência e do ser. O racionalismo, como a utopia, nega por princípio essa dualidade tão natural, tão humana, entre luz e sombra, razão e desrazão, etc.: “Aí, as trevas estão proibidas, só a luz é admitida. Nenhum vestígio de dualismo: a utopia é, por essência, antimaniqueísta.” (História e Utopia) O racionalismo idem.

Antes conversar com um fideísta cético, do que com um deísta racionalista, ou, pior ainda, com um teísta reacionário e fanático (como Joseph de Maistre ou Friedrich Jacobi). Na dúvida, Deus não existe, é “melhor” que não exista. No ensaio inicial da Tentação de Existir, no contexto de uma crítica à teosofia e aos orientalismos espirituais diversos, Cioran diz que “muitos têm a Índia fácil”. Ora, não é preciso ir tão longe, fiquemos nos limites do Ocidente cristão: muitos (a maioria esmagadora) têm Deus fácil

Um ser impermeável à mística (como impermeável à Música), seja ele crente ou ateu, é apenas interessante, pois desinteressante: nada, aí, com que estabelecer um vínculo tão mais profundo quanto silencioso, uma espécie de afinidade eletiva sem sujeito nem objeto. Como bem observou Nietzsche, esse grande Psicólogo, aquele que observa a dança de fora não escuta a música que anima os dançarinos, julgando-os loucos. E por acaso os dançarinos vão parar de dançar para argumentar a favor do caráter benéfico da Dança, e para provar a existência da Música?

A insensibilidade à mística é equivalente à insensibilidade às trevas, e inversamente proporcional à necessidade (em certo sentido mórbida) de oficializar, institucionalizar, formalizar, de argumentar e provar. Insensibilidade, portanto, a si mesmo, à condição humana, à alma, às profundezas do ser (humano). Ter aversão a isso, e negá-lo a priori, é recusar-se todo autoconhecimento. Kierkegaard bem o intuiu: o racionalismo é a pior forma de desespero, a mais dissimulada, e a mais cínica. Não se trata de ter fé, de ser “crente” ou “ateu”, mas de ter paixão e viver com paixão, tanta que se torne uma chaga aberta a confundir-se com a vida mesma.

O religioso não é uma questão de conteúdo, mas de intensidade. Todo paroxismo nos transporta para fora de nós mesmos e, às vezes, do universo. Nestes instantes, os olhos deixam de ver, de enxergar e discernir os objetos, deixam portanto de exercer a sua função natural; que digo? é justo nesses momentos fugazes que os olhos passam a exercer a sua função essencial, que não é ver, mas chorar; “e para ver realmente é preciso fechá-los: é a condição do êxtase, da única visão reveladora, enquanto que a percepção esgota-se no horror do já visto, do irreparavelmente sabido desde sempre.” (Breviário de decomposição)

A “visão” mística é infra-vermelha, capaz de enxergar na mais completa escuridão (da alma). É, aliás, o que distingue, segundo Cioran, Pascal dos moralistes como La Rochefoucauld ou Chamfort, e o que faz dele (Pascal) muito mais do que (apenas) um philosophe moraliste (assim como Nietzsche também é muito mais que um filósofo) — ou seja, muito mais do que um “maniqueísta de salão”, seduzido por um dualismo anedótico”, “hostil ou inapto a essa solidão em que se debate o homem interior, frente a frente consigo ou com Deus”.

Não será significativo que quando por acaso se voltam para Pascal é para secularizar sua visão da concupiscência adaptando-a aos estudos dos costumes e rebaixando-a ao nível de uma “psicologia” sem trevas?
Concebidos nas noites de vigília, sem nada de incomodamente luminoso, os Pensamentos, ruminações de um insone contumaz, de um espírito que se revolve e se crispa no obscuro, não serão nunca, não digo compreendidos, mas sentidos, por aqueles que não vêem claro senão em pleno dia.

Sejamos ateus, bastante ateus, sejamos niilistas… mas não do tipo que não crê em nada, senão do que crê em tudo.

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