Surpreende-se in flagranti a insalubridade dos meios cristãos, quando se compara o fim cristão com o fim do Código de Manu – quando se foca com luz forte a ingente contradição destes fins. O crítico do Cristianismo não pode poupar-se a torná-lo desprezível. Um código como o de Manu surge como todos os bons códigos: resume a experiência, a sagacidade e a moral experimental de longos milénios, encerra e nada mais cria. O pressuposto para uma codificação da sua espécie é o discernimento de que os meios para conferir autoridade a uma verdade, lenta e custosamente adquirida, são fundamentalmente diferentes daqueles com que ela se demonstraria. Um código jamais refere a utilidade, as razões, a casuística na pré-história de uma lei: perderia assim justamente o tom imperativo, o «tu deves», o pressuposto para que se lhe preste obediência. O problema reside precisamente aqui. Em determinado ponto da evolução de um povo, a sua camada social mais circunspecta, isto é, a que melhor percepciona o passado e o futuro, declara como encerrada a experiência, segundo a qual se deve – isto é, se pode – viver. O seu objectivo é arrecadar do modo mais rico e completo que for possível a colheita das épocas de experimentação e da má experiência. Por conseguinte, o que acima de tudo importa agora evitar é a prossecução do experimentar, a permanência in infinitum do estado fluído dos valores, o exame, a escolha e a crítica dos valores. Opõe-se a tal um duplo muro: por um lado, a revelação, isto é, a afirmação de que a razão dessas leis não é de origem humana, de que não se buscou e encontrou lentamente e com erros, mas apenas foi comunicada como de origem divina, inteira, perfeita, sem história, como um presente, um milagre… Por outro lado, a tradição, isto é, a afirmação de que a lei já existia desde tempos imemoriais, de que pô-la em dúvida seria impiedade, um crime para com os antepassados. A autoridade da lei fundamenta-se com as teses: foi Deus que a deu, os antepassados viveram-na. A razão superior de semelhante procedimento reside na intenção de, passo a passo, afastar a consciência da vida enquanto correctamente reconhecida (isto é, demonstrada por uma ingente e cuidadosamente perscrutada experiência), de modo a obter-se assim o completo automatismo do instinto – pressuposto para toda a espécie de mestria, para todo o tipo de perfeição na arte da vida. Compilar um código à maneira de Manu é, além disso, facultar a um povo tornar-se mestre, tornar-se perfeito – ambicionar a suprema arte da vida. Para isso importa tornar-se inconsciente: eis o fim de todas as santas mentiras. A ordem das castas, a lei suprema e dominante, é unicamente a sanção de uma ordem natural, de uma legalidade natural de primeira categoria, sobre a qual não tem poder nenhum arbítrio, nenhuma «ideia moderna». Em toda a sociedade sã, distinguem-se três tipos fisiológicos que entre si se condicionam, mas são de diversa gravitação, dos quais cada um tem a sua própria higiene, o seu próprio domínio de trabalho e a sua própria espécie de sentimento de perfeição e mestria. A natureza, e não Manu, é que separa os predominantemente intelectuais, os de preponderância muscular e de temperamento forte, e os terceiros, os que não se distinguem nem numa nem noutra coisa, os medianos. Os últimos surgem como a maioria, e os primeiros como a elite. A casta superior – a quem chamo os poucos – como a mais perfeita, tem também os privilégios do menor número: cabe-lhe representar sobre a Terra a felicidade, a beleza e a bondade. Só os homens mais intelectuais têm o direito à beleza e ao belo: só neles é que a bondade não é fraqueza. Pulchrum est paucorum hominum: o bem é um privilégio. Em contrapartida, nada lhes é menos permitido do que os modos feios ou um olhar pessimista, uns olhos que desfiguram – ou uma indignação sobre o aspecto global das coisas. A indignação é a prerrogativa dos tchandala; igualmente o pessimismo. «O mundo é perfeito – assim fala o instinto dos mais espirituais, o instinto que diz sim: a imperfeição, o abaixo-de-nós de qualquer espécie, a distância, o pathos da distância, e o próprio tchandala pertence ainda a esta perfeição.» Os homens mais espirituais, por serem os mais fortes, encontram a sua felicidade onde os outros deparariam com a sua ruína: no labirinto, na dureza para consigo e para com os outros, na busca; o seu prazer é o autodomínio: o ascetismo torna-se neles natureza, necessidade, instinto. A tarefa difícil surge-lhes como privilégio; brincar com pesos que oprimem os outros é para eles recreação… O conhecimento – uma forma de ascetismo. Eles são a espécie mais honrosa de homens: mas tal não exclui que sejam também a mais cheia de humor, a mais amável. Dominam, não porque queiram dominar, mas porque são; não são livres de ser os segundos. Os segundos: estes são as sentinelas do direito, os guardiães da ordem e da segurança, os nobres guerreiros, sobretudo o rei enquanto forma suprema do guerreiro, do juiz e do sustentáculo da lei. Os segundos são os executivos dos espirituais, o que lhes está mais próximo, o que deles afasta tudo o que é grosseiro no trabalho da dominação, o seu séquito, a sua mão direita, os seus melhores discípulos. Em tudo isto, diga-se mais uma vez, nada há de arbitrário, nada de «factício»; o que é de outro modo é que é factício – a natureza tornou-se então ignomínia… A ordem das castas, a ordem de precedência, formula apenas a lei suprema da própria vida, a superação dos três tipos é necessária para a manutenção da sociedade, para a possibilitação de tipos superiores e supremos – a desigualdade dos direitos é a primeira condição para que em geral haja direitos. Um direito é um privilégio. Não subestimemos os privilégios dos medianos. A vida, ao elevar-se, torna-se sempre mais dura – o frio aumenta e a responsabilidade cresce. Uma civilização superior é uma pirâmide: pode assentar num solo amplo, tem acima de tudo por pressuposto uma mediania forte e sabiamente consolidada. O ofício, o comércio, a agricultura, a ciência, a maior parte da arte, numa palavra, todo o conjunto da actividade profissional, só são inteiramente compatíveis com uma medida média no poder e no desejar: tais coisas estariam deslocadas sob as excepções, o instinto a isso atinente estaria em contradição tanto com o aristocratismo como com o anarquismo. Para alguém vir a ser de utilidade pública, uma roda, uma função, há uma determinação natural: não é a sociedade, não é a espécie de felicidade, de que a maioria é simplesmente capaz, que faz dos elementos estas máquinas inteligentes. Para os medianos, a sua felicidade é ser mediano; a mestria numa só coisa, a especialidade, é um instinto natural. Seria inteira mente indigno de um espírito profundo ver já na mediania em si uma objecção. A própria mediania é a primeira necessidade para que possa haver excepções: uma civilização superior é por ela condicionada. Se o homem excepcional trata justamente os medianos com maior afabilidade do que a si mesmo e aos seus iguais, isso não é simplesmente cortesia do coração – é apenas o seu dever… A quem é que eu mais odeio na ralé de hoje? É à escumalha dos socialistas, aos apóstolos dos tchandala, que minam o instinto, o prazer, o sentimento de moderação do trabalhador com o seu pequeno ser – que o tornam invejoso, que lhe ensinam a vingança… A injustiça jamais reside em direitos desiguais, encontra-se na pretensão aos «direitos iguais»… O que é mau? Mas eu já o disse: tudo o que brota da fraqueza, da inveja, da vingança. O anarquista e o cristão têm uma origem idêntica…

NIETZSCHE, Friedrich, O Anticristo, § 57

Deixe aqui suas impressões, comentários e/ou críticas. Deja aquí sus impresiones, comentarios y/o críticas. Leave your impressions, comments and/or critiques here. Laissez ici vos impressions, commentaires et/ou critiques. Lăsați-vă impresiile, comentariile și sau recenziile aici. Lascia qui le sue impressioni, commenti e/o recensioni.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s