Não haveis surpreendido uma imagem de pureza no olhar sem percepção, no olhar que reflete e refracta, uma imagem purificada de objetos? Não vos haveis fixado nunca no olhar dos patinhos e haveis visto uns olhos onde o céu é céu, a água, água e a folha, folha? E não haveis amado esses olhos que não furtaram os objetos, que não roubaram o mundo para fundi-lo neles? O céu desceu até os olhos de um patinho; porque os olhos do homem são demasiado obscuros para aceder à serenidade e à elevação. Imagem de pureza: um olhar antes da percepção; um olhar no mundo e de antes do mundo. Um olhar que não vê, mas no qual se vê.

Um dia de primavera, com uma interminável calma e com um intenso verdor sobre uma água tranquila, um patinho de olhos graciosos e inocentes, nos quais o mundo busca seu paraíso perdido, e o homem triunfa sobre seus pesares e sua inveja…

*

Olhos celestiais: diante deles nos perguntamos se alguma vez foram profanados pela visão de um objeto.

Sensações celestiais: como se os instantes tivessem se desgarrado do curso do tempo para trazer-me um beijo.

*

Não haveis praticado esses longos retiros e ficado esqueléticos de tanto meditar, entregues ao ascetismo que exige a elevação e onde os sentidos se esquecem até de si mesmos durante o êxtase? Não haveis velado nas solidões de uma montanha e, sentindo-vos tão abaixo, haveis desejado saltar para a luz, deslizar por seus raios até acima e seguir a trajetória imaterial em direção ao absoluto? E não vos haveis prolongado em vosso estremecimento até o limite extremo da elevação? E não haveis esquecido então a vida em vosso excesso de plenitude? Não haveis esquecido a vida de tanta vida?

Se não haveis estado doentes de vosso excesso de plenitude, nunca haveis alcançado os limites; se não haveis estado doentes de vosso absoluto e do absoluto do mundo, estais perdido para vós e para este mundo. Se não viveis vossa divindade, quem se deterá junto a vossa sombra passageira? E sombras são todos os que não querem ser deuses.

Para um mundo de sombras se dirige a voz de minha solidão, rouca de tanto gritar em vão e dos tristes ecos que ressoam no vazio. Durante as horas de vigília completa uma luz trêmula nasce na noite, saída de minha noite para a noite do mundo, e uma procissão de sombras se introduz sub-repticiamente até sabe-se qual longínqua obscuridade.

… E dessa obscuridade, perdidos em uma luz absoluta, escaparemos no momento intenso e infinito em que tudo se cria e se destrói em nós… Esse momento de felicidade divina depois do qual todas as dores podem ser suportadas; depois do qual a existência futura do mundo se torna supérflua…

CIORAN, Emil, O livro das ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

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