JURAMENTO À VIDA:

Nunca te trairei de todo; embora tenha te traído e te trairei a cada passo;

Quando te odiei, não pude te esquecer;

Te amaldiçoei para suportar-te;

Te repudiei para que mudes;

Te chamei e não vieste; gritei e não me sorriste; fiquei triste e não me consolaste. Chorei e não aliviaste minhas lágrimas. Deserto foste para minhas súplicas, tumba para minha voz. Silêncio para meus tormentos e vazio para minhas solidões. Matei em pensamento o primeiro instante de vida e fulminei teus inícios. Quis veneno para tuas raízes e que morressem de sede teus frutos, murchassem tuas flores e secassem tuas fontes, isso é o que desejou minha alma.

Mas minha alma é reconhecida a ti pelo sorriso que viu só ela e ninguém mais; reconhecida por esse encontro, ignorado por todos; esse encontro não se esquece, mas com renovada confiança ressoa no silêncio de teu interior, faz reverdecer os desertos, alivia as lágrimas e acalma as solidões.

Juro-te que nunca conhecerás minha grande traição.

Juro por tudo o que mais sagrado possa haver: por teu sorriso, que não me separarei de ti.

CIORAN, Emil, O livro das ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.