Revista Terceira Margem – Programa de Pós-graduação em Ciência da Literatura da UFRJ, vol. 19, no. 31, 2015

Resumo: O presente ensaio retoma o que já escrevi sobre gnosticismo e poesia, e sobre poetas gnósticos. Examina o trânsito entre doutrinas aparentemente opostas, a gnose pessimista e aquela otimista do Corpus Hermeticum. Reconhece que há mais poetas gnósticos; que deveria ter sido dada mais atenção a Walt Whitman, entre outros. Apresenta a hipótese de que decadentistas, como Swinburne, são intrinsecamente gnósticos.
Palavras-chave: gnosticismo; poesia moderna; anarquismo místico; rebelião; pensamento arcaico

Abstract: This paper resumes what I have written about Gnosticism and poetry, and about gnostic poets. Examines the communication between seemingly opposing doctrines, the pessimist gnosis and that optimistic from Corpus Hermeticum. It recognizes that there are more gnostic poets; that I should have given more attention to Walt Whitman, among others. Presents the hypothesis that decadents, like Swinburne, are inherently Gnostics.
Keywords: Gnosticism; modern poetry; mystical anarchism; rebellion; archaic thought

No final de 2007, terminei minha tese de doutorado sobre gnosticismo e poesia no Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas do curso de Letras da USP: Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia moderna. Foi examinada e aprovada em março de 2008. Deu origem a um livro homônimo1. Meu propósito inicial, tratar de poesia e ocultismo. Contudo, resultaria em uma tese de mil páginas, ou mais. Circunscrevi ao gnosticismo, marco inicial de uma tradição esotérica e mística ocidental, reconhecido como tal por estudiosos. Por isso, capítulo primeiro de obras como as de Sarane Alexandrian2 e Kurt Seligmann3. Não obstante, cheguei a apresentar e publicar algo sobre o tema originário4; e pretendo retomá-lo.

Já havia comentado gnosticismo, ao tratar de Antonin Artaud e Hilda Hilst: essa religião estranha, tão plural, contraditória, parecendo, em relatos e outros documentos, um monoteísmo às avessas. Tive motivos adicionais, fortes, em favor da escolha. Um deles, meu gosto pela polêmica, por temas controversos. Gnosticismo é um deles, pelo modo como é reconhecido por autores, inclusive alguns com os quais me identifico de modo especial — André Breton, Allen Ginsberg, entre outros — e execrado por outros.

Interessou-me a divergência relativa à ligação com o cristianismo. Diversos estudiosos entendem gnosticismo como dissidência e, consequentemente, heresia da doutrina cristã. Ou, até mesmo, como expressão de um cristianismo primitivo, originário; como tal, mais fiel ao ensinamento de Jesus Cristo. Entre os mais qualificados que sustentam essa hipótese está Elaine Pagels5. Outros discutem a relação entre as duas doutrinas, como Henri-Charles Puech6. O pesquisador e organizador da publicação dos escritos encontrados em Nag Hammadi7 em 1945, James M. Robinson, sustenta que uma doutrina gnóstica, “setiana” (cujo avatar é Set e não Jesus Cristo) precedeu a versão cristã.

Pode haver uma dupla instrumentalização dessa associação do gnosticismo a um cristianismo primitivo. De um lado, por católicos progressistas, para fundamentar, justificando-a historicamente, a ideia de uma religião mais aberta, comunitária, dando maior valor à participação da mulher; de outro lado, por católicos tradicionalistas, os integristas, para fulminar como heresia gnóstica tal progressismo.

Em acréscimo, naquele início de milênio — quem sabe, como componente de um milenarismo, da inquietação que acompanha mudanças dos grandes marcos cronológicos — observei não apenas difusão do gnosticismo através de literatura qualificada, porém vulgarização e sensacionalismo. Referências à doutrina em obras de ficção cavaram um abismo com relação a um Herman Hesse ou Jorge Luis Borges. Exemplifiquei sensacionalismo através da edição brasileira de O Evangelho de Judas8, cuja chamada de capa anunciava “O texto perdido que revolucionou a história do cristianismo.” Mas O Evangelho de Judas havia sido comentado por heresiólogos desde o século II d.C., e sua descoberta e publicação apenas corrobora fontes indiretas. A doutrina coincide, em linhas gerais, com aquela exposta em maior detalhe na Pistis Sophia e outros textos conhecidos há séculos: e, como é exposto nos ensaios que acompanham O Evangelho de Judas, não revoluciona o cristianismo por não ser cristã, porém gnóstica. Boa parte do texto é a exposição, por Jesus, da cosmogonia e do mito de origem, ou de uma das cosmogonias e mitos de origem do gnosticismo,9 através de um procedimento típico daqueles tempos, atribuição do relato a uma fonte especialmente autorizada: Jesus Cristo, assim como poderia ter sido Zoroastro, Hermes Trismegisto, Enoch, Set, Esculápio, um dos apóstolos, Maria Madalena etc.

No tocante a essa discussão, devo, inicialmente, reconhecer minhas limitações como historiador das religiões. Concordo com o que afirmou Oswald Spengler em A decadência do Ocidente, em seu típico tom categórico: quem quiser estudar uma religião, deve primeiro conhecer a língua dessa religião. Portanto, para atribuir-me autoridade, teria que saber o dialeto siríaco do copta, além do grego. Escritos (ou “escrituras”10) do gnosticismo foram examinados em boas traduções para o português, inglês e francês. Apoiei-me em uma bibliografia qualificada. Encabeçada — conforme minha preferência — por Hans Jonas11 e Puech, além de Robinson, Bentley Layton12 e outros. Como bibliografia de apoio, histórias de doutrinas religiosas, principalmente de Mircea Eliade e Gershom Scholem, de quem adotei a ideia de misticismo como uma espécie de ligação direta com a esfera transcendental, um “salto sobre o abismo” criado por religiões institucionais. E de quem mais tarde, em outro ensaio13, incorporaria a ideia de um trânsito do misticismo ao antinomismo, aos cultos mais transgressivos: em Scholem, a ousada relação entre a cabala luriânica do século XVI — a meu ver, um gnosticismo judaico — e a rebelião religiosa encabeçada por Sabatai Zvi no século seguinte14.Contribuiu para minha interpretação da religiosidade e desregramento simultâneos em autores beat; especialmente, em Allen Ginsberg.

Reconheci a importância desse crítico literário, estudioso das religiões e em primeira instância polemista que é Harold Bloom, mas com os devidos cuidados (tenho-o por idiossincrático). Transcrevi sua sugestão, ou provocação, de que o estudo de correntes do misticismo como a cabala luriânica e a gnose valentiniana deveriam ter precedência, como paradigma, com relação às teorias propriamente literárias15.

Levei em conta autores de outros campos que trouxeram contribuições ao tema. Susan Sontag, ao falar em “atitude gnóstica” em seu ensaio sobre Antonin Artaud16. E observações de Ginsberg e André Breton sobre gnosticismo. Adicionei uma defesa da diversidade de paradigmas. Recorri bastante ao pensamento e citações de Octavio Paz. Citei narrativas e artigos de Jorge Luis Borges como se fossem um quadro de referência para ilustrar temas gnósticos.

Não obstante o diletantismo como historiador de religiões, tomei posição na discussão das relações entre cristianismo e gnosticismo; Inclusive, através de uma análise formal, um “close reading” de escritos gnósticos mais afins ao cristianismo: trechos de O evangelho segundo Tomé, que Layton relaciona ao texto “Q”, a Quelle, fonte da qual derivariam os evangelhos sinóticos17, e de O evangelho da verdade de Valentino. Confrontei-os com Mateus 18:1 (a parábola das crianças) e Mateus 18:12 (a parábola das ovelhas). Argumentei ser impossível os trechos atribuídos a Tomé e Valentino terem precedência com relação às escrituras cristãs. São reinterpretações por esoteristas, com acréscimos. Não apenas revisões, observei, porém reversões da doutrina cristã, alterando o sentido original.18 Na parábola da ovelha desgarrada, há uma numerologia estranha ao ensinamento evangélico. Afirmar isso equivale a confrontar Bloom, para quem aqueles escritos são uma expressão “mais autêntica” da doutrina cristã19; e Eliade, para quem o esoterismo, a doutrina iniciática e secreta, sempre estaria na origem das religiões.20 O historiador das religiões ainda sustenta a hipótese, a meu ver questionável, de uma formação de Jesus Cristo pelos essênios. Pelo que se sabe daqueles devotos quietistas, adotavam uma postura de isolamento do mundo; já o iniciador do cristianismo me parece, em contraste com outros profetas, canônicos ou não, um narrador realista, tratando do aqui e agora, do que observava a seu redor. Conforme observa David Flusser, a contextualização das narrativas evangélicas, o modo como os acontecimentos são situados em seu tempo e circunstância, são precisos21. Ademais, o uso da parábola leva-me a associá-lo a um incipiente talmudismo; e ao treino da argumentação no âmbito dessa corrente… [+]

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