“Cioran, a filosofia como desfascinação e a escrita como terapia”: entrevista com Vincenzo Fiore

“Numa época em que o fanatismo parece voltar à ribalta a nível mundial, o pensador romeno é um antídoto que imuniza.”

Vincenzo Fiore

Sobre o autor: Nascido em 1993 em Solofra, Italia, Vincenzo Fiore se formou em filosofia pela Università degli studi di Salerno, é membro do Projeto de Pesquisa Internacional dedicado a Emil Cioran. Ocupou-se das interpretações totalitárias de Platão no ensaio Platone totalitario (Historica, 2017). Escreve para as páginas culturais do The Post Internazionale e Il Quotidiano del Sud, além de colaborar com diversas revistas. Pela Nulla Die publicou, além do livro sobre Cioran, o romance Nessun titolo (2016). Está em processo de publicação pela mesma editora, o seu exórdio literário, Io non mi vendo. (da contracapa)

Sobre o livro: FIORE, Vincenzo. Emil Cioran. La filosofia come de-fascinazione e la scrittura come terapia. Piazza Armerina (En): Nulla Die, 2018, 187 pp.

Nascido em 1911 num vilarejo perdido em meio aos Cárpatos, Emil Cioran declarava, já na sua estreia literária com Nos cumes do desespero, ter acertado as contas com a “filosofia oficial”. O pensador romeno não elaborará uma nova doutrina ou uma visão de mundo, reivindicando por toda a vida a sua “inutilizabilidade”. Uma carnificina das ilusões e um desmascaramento sem igual na história das ideias, voltados à eliminação do profeta que se esconde em cada homem. Portanto, a filosofia de Cioran não será outra coisa que um exercício de desfascinação e a escritura se revelará uma terapia voltada a suportar a existência, na vã tentativa de resgatar a doçura anterior ao nascimento. O texto percorre e analisa a estreita relação entre biografia e pensamento em Cioran, detendo-se sobre temas como o me phynai, Deus e o suicídio. No apêndice: uma carta inédita do filósofo, um artigo da jornalista Carol Prunhuber, e alguns retratos fotográficos de Vasco Szinetar. (da contracapa)

Carta de Cioran a Vasco Szinetar

Vasco, obrigado pela foto.
O diabo e reconhece na loucura triunfante dos teus olhos, enquanto que nos meus, extintos e petrificados, encontra a cara de um assassino cansado de tudo, inclusive do mal.
Abaixo o espelho! Não possuindo fundo nem limite, ele revela o que é mais íntimo e mais distante em nós: os nossos temíveis segredos, as nossas demências escondidas.

Emil Cioran
Paris, 5 de outubro de 1983

Cioran e © Vasco Szinetar (1982)

P.E.M.C/Br: Caro Vincenzo, primeiramente quero agradecer a disposição e a gentileza de nos conceder esta entrevista. Devo dizer que graças a Cioran, me aventurei nos idiomas francês e espanhol (inicialmente, para ler sua obra completa, que não está integralmente disponível em português), e, agora, sempre graças a ele, me aventuro também no italiano (um desafio à limitação linguística e cultural). Por isso, peço desculpas por eventuais erros e inconsistências nessa língua tão bela que não quero maltratar. Para começar, gostaria de te perguntar como descobriu a obra de Cioran, e o que despertou em você o interesse por ela? Poderia contar-nos um pouco como foi a sua trajetória intelectual desde a primeira leitura até a publicação de Emil Cioran. La filosofia come de-fascinazione e la scrittura come terapia?

V.C.: Descobri Cioran quando ainda era um estudante liceal. Havia passado um ano inteiro lendo Nietzsche, que me ajudou a suportar uma grande dor. Um dia, me deparei casualmente com um aforismo do pensador romeno, e fiquei literalmente radiante. Em pouco tempo adquiri todos os seus livros. A leitura do cético dos Cárpatos foi a melhor terapia que pude descobrir. Inicialmente, não podia imaginar que me ocuparia de Cioran também a nível universitário. Tudo nasceu um pouco por acaso, um pouco por paixão.

P.E.M.C/Br: No Brasil, há um certo preconceito político-acadêmico que dificulta a inserção de Cioran no âmbito dos estudos universitários. Para muitos, o nosso autor não passa de um escritor, um literato, mas não filósofo, porque os filósofos não fazem o que faz Cioran (digamos, “filosofia lírica”, ou “filosofia como desfascinação”), e o que Cioran faz, os verdadeiros filósofos não fazem, isto não tem nada a ver com a Filosofia…[1] E, se chegam a reconhecer-lhe uma dimensão filosófica, a existência de um pensamento, é apenas para desqualificá-lo a priori como “niilista”, “reacionário”, pessimista demais, etc. Como é a relação entre Cioran e a universidade na Itália? Há projetos de pesquisa, teses e dissertações sendo desenvolvidas? Em quais departamentos? Quais são os temas mais abordados?

V.C.: As etiquetas nunca serviram para nada, imagine se podem ser úteis para entender a obra de um autor como Cioran. Existe verdadeiramente um limes preciso capaz de separar de maneira nítida a filosofia das outras ciências e das outras disciplinas? Creio que não. É óbvio que depois de Nietzsche, a filosofia não é mais a mesma. Cioran é filho desse filão assistemático que se impôs com o filósofo alemão. Para dizê-lo como Husserl, a filosofia é essa nebulosa que encera e expele lentamente os saberes humanos. É por isso que, sob o termo filósofo, que às vezes pode ser um termo cômodo, recaem autores totalmente diversos, como por exemplo: Tales, Agostinho, Galilei, Hegel, Sartre, Popper. Obviamente, Cioran não é artífice de um sistema, não é um epistemólogo, não é um acadêmico, nem muito menos um proclamador de doutrinas, mas um pensador que pode ser incluído na história das ideias na medida em que se interroga sobre a existência, sobre o nascimento e a morte, sobre o mundo (mas não só). Para evocar ainda Nietzsche: “O filósofo deve ser a má consciência da sua época”, e certamente Cioran o foi.
Na Itália, muito do trabalho sobre o pensador romeno se desenvolveu e está se desenvolvendo fora da universidade. Basta pensar na atividade de Antonio Di Gennaro, ponto de referência sobre o assunto na península. Sem dúvida, é a Università degli studi di Napoli “L’Orientale”, que todo ano se transforma no lugar de encontro de tantos estudiosos provenientes do mundo todo, a sede em que se realizam congressos internacionais e jornadas de estudos (tudo coordenado pelo prof. Rotiroti). Ainda na Campânia, a Università di Salerno e a Pontificia facoltà teologica dell’Italia meridionale também estão se abrindo, de maneira distinta, à obra do cético dos Cárpatos. Há também realidades interessantes como Trento, Milão e Padova, onde ensinam ou se formam estudiosos italianos de Cioran. De resto, há ainda tanta coisa a se fazer…

P.E.M.C/Br: O seu livro sintetiza, desde o título, o que me parece ser o essencial do pensamento de Cioran. Trata-se de um duplo recurso, procedimento, motivo ou princípio; dois registros, duas chaves hermenêuticas que se unem e se complementam no núcleo dessa filosofia auto-sperimentale que Cioran concebe para si, como você diz. Por um lado, o ceticismo, esse “exercício de desfascinação”, como dever da lucidez; por outro, a necessidade de escrever, essa exigência vital da escritura como uma espécie de (auto)terapia, um “santo remédio” para sublimar a dor de existir e transmutar a decomposição em princípio criativo, poético. Dito isso, como conceber que a escritura seja “uma confissão e uma máscara” (A tentação de existir), um princípio de desnudamento e de transparência interior (conhecimento de si, lucidez), e, ao mesmo tempo, um filtro, um artifício, um princípio de dissimulação e, em certo sentido, de engano?

V.F.: Cioran exortava seus leitores a escrutar as cartas de um autor, para vê-los sem a máscara que poderia representar a obra. Os estudiosos de Cioran, por sua vez, acolheram esta sugestão para compreender melhor os seus escritos. O resultado é quase surpreendente: ler as cartas do pensador romeno é como ler passagens da sua obra, é a mesma sinceridade infernal. Que seja um aforismo destinado à publicação ou a passagem de uma carta destinada a um amigo, a escritura de Cioran não é nunca dissimulação, ocultação, artifício. A palavra é apresentada sempre nua e crua. Não por acaso ele amava dizer que tudo o que não é direto é nulo…

P.E.M.C/Br: Dado o concurso entre desfascinação e escritura terapêutica, como você vê a relação, em Cioran, entre ironia, logos fragmentário e afetos como a melancolia e o tédio? A razão da minha pergunta é que me parece existir, na obra de Cioran, uma tendência contraditória irredutível, sem nenhuma preocupação de unidade, por exemplo: ceticismo (dúvida cética, suspensão do juízo, indecidibilidade) e pessimismo ou ainda niilismo; ceticismo e pathos místico, “a paixão do absoluto numa alma cética”… O caso de Cioran não parece ser o de alguém que não adota nenhuma posição, nenhuma tese, nenhuma “verdade de temperamento” (Breviário), mas o de alguém que adota muitíssimas posições, o pró e o contra de tudo, “todas as posições de um homem sem posição”, segundo Peter Sloterdijk, ou, nas palavras do próprio Cioran, o “niilista que acredita em tudo” (Silogismos da amargura), que experimenta com as sensações e as ideias, levando-as ao limite da comunicabilidade. Na medida em que é fortemente influenciado (também) por Schopenhauer, Cioran não herdaria, a contragosto, certo idealismo filosófico que, não sendo kantiano, mas antes schopenhaueriano (pessimista, ateu), é – como idealismo – uma espécie de reação e mesmo de recusa do ceticismo como última palavra em matéria de conhecimento? Seria o pessimismo de Cioran apenas um efeito, um impressionismo, uma pose estética? É possível reduzi-lo, filosoficamente falando, a um simples e puro cético sem nenhuma aspiração metafísica, por assim dizer?

V.C.: Não há unidade, pois Cioran não fez da contradição um problema, pelo contrário. Ele explica que o seu aforismo não deve ser considerado um aforismo verdadeiro, propriamente dito, mas o resultado de um processo de pensamento do qual só se salva a conclusão, após ter cancelado a página inteira. O fragmento permite, à diferença da rigidez do sistema, uma certa liberdade e anula desde o nascimento a possível criação de uma doutrina ou de um sistema. A vantagem do aforismo é que ele não tem necessidade de fornecer provas e, sendo fruto de sensações temporâneas, justifica também eventuais contradições: “Lança-se um aforismo como se lança um tapa.”
Cumpre recordar que antes de ser um cético ou um negador, Cioran é acima de tudo um desenganado, um renegado. Ele atravessou de tudo antes de refutá-lo, de desvelá-lo. Mergulhou na história da metafísica, se enfatuou do nazismo na juventude, buscou o êxtase lendo Santa Teresa. O termo niilista é sempre demasiado redutivo, demasiado simplista, quando proposto para Cioran. Ele teve, sim, uma aspiração metafísica, uma aspiração de diálogo com Deus, sim, mas o resultado final sempre foi uma amarga desilusão. Uma de suas piadas dizia que tudo desilude neste mundo, inclusive a santidade.

P.E.M.C/Br:  Segundo Mario Andrea Rigoni (nota da página 62 do seu livro), Nos cumes do desespero pode ser concebido, na forma e no conteúdo, como uma antecipação do Breviário de decomposição. No capítulo sobre a “filosofia como exercício de desfascinação”, você afirma que, após o fim da guerra, Cioran “vira as costas às enfatuações do seu passado romeno para retornar – radicalizando-as – às posições teoréticas e existenciais da sua primeira obra”. (p. 61). Após um período de “fervor político”, como você diz, doravante exilado na pátria linguística francesa, Cioran “volta as costas ao tempo” (Breviário de decomposição), à História, confeccionando para si o estatuto de um “exílio metafísico” (Do inconveniente de ter nascido). O seu livro tem o mérito de iluminar a tensão e as contradições entre dois “projetos” de juventude, por assim dizer, um deles cancelado, o outro mantido e desenvolvido por toda a vida – em todo caso, duas tendências incompatíveis, inconciliáveis, representadas respectivamente por Nos cumes do desespero e Schimbarea la Faţă a României.
O seu livro também ilustra um detalhe que me parece muito importante no que concerne ao “passado infame”[2] de Cioran (e que, além do seu livro, até onde sei, apenas a biografia de Patrice Bollon o explicita). Refiro-me ao hibridismo da visão política do jovem Cioran, admirador de Hitler e de Lenin, entre nazismo e bolchevismo, ditadura e “coletivismo nacional” (o que não agradou nem um pouco ao fundador da Guarda de Ferro, Corneliu Codreanu), para não falar da autocrítica severa segundo a qual, se os judeus desaparecessem da Romênia, nem por isso os problemas dos romenos estariam resolvidos. A demagogia tem horror à franqueza, à parrhesía; a verdade não interessa na política.

À parte Schimbarea, Nos cumes do desespero é seguido pelo Livro das ilusões, Lágrimas e santos e O crepúsculo do pensamento: três livros que são, penso eu, bastante religiosos no conteúdo e na forma – e não unicamente o do meio, tão caro ao autor, que o considerava “o livro mais religioso já escrito nos Bálcãs”, e que muito lhe custou para ser publicado (numa espécie de self-publishing, como você explicita). A minha pergunta é: você vê algum paralelo, ainda que paradoxal ou negativo, entre Lacrimi şi sfinţi e Le mauvais démiurge? Seria este último também um livro religioso, ainda que índole diversa que aquele, além de escrito numa outa língua, em um contexto biográfico e histórico-cultural diverso? Por fim, considera a categoria hermenêutica do religioso – considerada antropológica e existencialmente, sem nenhuma conotação doutrinária e dogmática, mesmo na total incredulidade – importante para compreender o pensamento paradoxal de Cioran?

V.F.: A definição que se impõe no que concerne à relação de Cioran com a fé é a do “teólogo ateu”, ou seja, aquele que, sendo um dos principais inimigos da fé, se serve de conceitos religiosos para explicar o curso da história e a condição humana. Um exemplo, dentre tantos, é o mito da queda. Ademais, ele escreveu no Crepúsculo do pensamento que o verdadeiro religioso pode dispensar-se da fé, mas não de Deus.
O período no qual escreve Lágrimas e santos são anos de êxtase febril, Cioran faz a experiência de uma verdadeira “crise religiosa sem a fé” e transcorre mais de um ano inteiro escutando música e lendo quase exclusivamente hagiografias, obras dos santos e Shakespeare. O filósofo, em completa solidão, confesse ter chegado a um limite e não ter encontrado outro interlocutor que Deus. Avizinhando-se da mística, Cioran diz ter ultrapassado o limite de Deus, ou seja, de ter tido uma experiência de êxtase, que não é outra coisa que “o que Meister Eckhart chama a deidade [Gottheit].” Esta forte atração pela mística é um elemento que lentamente se arrefecerá, sobretudo após a passagem para a língua francesa, na qual Cioran apresentará uma versão não integral da obra. Em Le mauvais démiurge, em vez disso, ele redigirá uma crítica mais estruturada ao cristianismo, definido como religião totalitária, instrumento de controle, uma fábula que se nutre de crime.

P.E.M.C/Br:  Na terceira e última parte do seu libro, μή φϋναι. Meglio non esser nati [me phynai. Melhor não ter nascido], você afronta a visão cioraniana do nascimento como uma tragédia, um mal irremediável: seja a saída do não-ser ao ser, ou do ser ao não-ser, a depender da perspectiva, em todo caso, trata-se de uma “perda” (da unidade, da identidade, da plenitude originária…), uma “queda” (no tempo, na consciência, na matéria, no reino da decomposição), um rebaixamento, um devir que não deveria vir a ser… O maior problema, o verdadeiro mal não é a morte – o fato que sejamos necessariamente mortais, que devamos morrer – mas antes o nascimento, o inconveniente de ter nascido. Dois aforismos que exprimem o fatalismo cioraniano (um aspecto tipicamente balcânico do seu pensamento que o distancia dos seus contemporâneos franceses): “Não nascer é sem dúvida a melhor fórmula que existe. Infelizmente, não está ao alcance de ninguém.” A morte é um estado de perfeição, o único ao alcance de um mortal.”
Retornando ao seu livro, na última parte você escreve que “por mais que Cioran seja o filósofo que mais aprofundou o tema da calamidade do nascimento, não foi o primeiro a interrogar-se sobre o problema.” (p. 120) Podemos fazer remontar essa visão, como você faz, a diversas origens históricas e matrizes culturais: a tragédia antiga, o gnosticismo, a filosofia hindu e o budismo, ou ainda, mais proximamente, um certo Nietzsche (notadamente o da “sabedoria do Sileno”, no Nascimento da tragédia) e Schopenhauer. Agora há um neologismo, um certo conceito, amiúde obscurecido e atacado pelos seus detratores moralistas,[3] e associado por alguns de seus proponentes àquelas tradições de pensamento: o antinatalismo. Você cita o movimento internacional Voluntary Human Extinction Movement (VHEM) e diz que ele têm como referência a obra de Cioran, “ainda que amiúde usurpada para fins políticos, acrescenta logo em seguida.
Você deve conhecer o livro de Théophile de Giraud, L’art de guillotiner les procréateurs (Éditions La-Mort-qui-Trompe, 2006), um manifesto antinatalista que inicia com uma antologia de citações de filósofos, escritores e sábios, do Ocidente e do Oriente, de todas as épocas (Homero, Sófocles, Chuang-Tzu, Petrarca, Shakespeare, Francisco de Quevedo, Montesquieu, Goethe, Strindberg, Breton, entre outros), sobre o tema do “inconveniente de ter nascido”. Uma das epígrafes é do Mauvais démiurge. O autor, belga, é um ativista antinatalista e ecologista, e criador do Non-parent’s Day [Dia dos não-progenitores], a ser celebrado por aqueles que se recusam a procriar. Essa militância não faz o tipo de Cioran, ainda que as consequências sejam as mesmas: a negativa de procriar. Que o pensador romeno não tenha deixado filhos não é uma casualidade, uma contingência, mas uma questão de destino, de necessidade metafísica, como que um “imperativo categórico”. Não ter deixado filhos é a maior coerência entre a vida e a obra de Cioran; não se pode imaginá-lo pai de família: “Fundar uma família? Creio que me seria mais fácil fundar um império.” O antinatalismo não seria um dado irredutível da filosofia cioraniana da desfascinação? A lucidez cioraniana não seria incompatível com a progenitura? A de Camus não foi… Não há um antinatalismo natural (e pré-natal!) em Cioran – não uma posição política de intelectual público, mas existencial e metafísica, privada, ousaria dizer mesmo religiosa?

V.F.: Concordo. À diferença do antinatalismo contemporâneo, em Cioran é completamente ausente o elemento político-ambientalista. Há um abismo entre o seu pensamento e o de David Benatar, ainda que o resultado seja o mesmo. Nas páginas cioranianas ressoa puramente o eco da antiga sentença silênica[4] do me phynai, ou seja, o uivo do sofrimento universal que parece arrastar todo ser criado, tudo o que tem forma, inclusive o granito. “A matéria está só”.
Cioran é consciente de ter cometido todos os crimes, exceto o de ser pai. A sua extrema lucidez era incompatível com a procriação. Si, talvez inclusive isto é um elemento da desfascinação. Uma vez revelada a existência na sua brutalidade, uma vez compreendido o non-sense deste teatrinho chamado vida, para que trazer filhos ao mundo?

P.E.M.C/Br: Você prefaciou a edição italiana da biografia de Bernd Mattheus, Portrait eines radikalen Skeptikers (2007). Existem outras biografias, por exemplo a de Patrice Bollon, já mencionada, a de Gabriel Liiceanu e também a de Ilinca Zarifopol-Johnston. Quais aspectos você poderia evidenciar da biografia crítica de Mattheus? Quais são os seus méritos e pontos positivos?

V.F.: A de Mattheus tem o mérito de ser uma biografia completa e rigorosa sobre o pensador romeno. Provavelmente não teve até o momento, a atenção que merece. Mattheus concebeu e redigiu o texto estando em contato com Cioran, observando-o de perto. De fato, é um livro rico em anedotas. De resto, ele cita tanto material ainda inédito na Itália e em muitos outros países. Nicola Baudo, responsável pela editora Lemma Press, foi corajoso ao investir nessa pérola editorial, Sem falar, é claro, na excelente tradução italiana de Claudia Tatasciore…

P.E.M.C/Br: Há um livro de Cioran, ou mais de um, que seja(m) o(s) seu(s) favorito(s)? Gostaria citar algum(ns) aforismo(s) memorável(is) gostaria de citar? Antes de terminarmos a entrevista, fique à vontade para deixar suas palavras finais – sobre Cioran, o seu livro, a Itália, o que quiser…

V.F.: Não acrescento nenhum. Posso apenas aconselhar a leitura de Cioran a quem ainda não o descobriu. Numa época em que o fanatismo parece voltar à ribalta a nível mundial, o pensador romeno é um antídoto que imuniza. Quero te agradecer por esta aprofundada entrevista, te deixo com um aforismo de Aveux et anathèmes que me é caro: “Num planeta gangrenado, deveríamos nos abster de fazer projetos, mas os fazemos sempre, porque o otimismo, como se tem notado, é uma mania dos agonizantes.”

P.E.M.C/Br: Caro Vincenzo, em nome dos leitores e leitoras do Portal E.M.Cioran, te agradeço mais uma vez pela gentileza de conceder-nos esta entrevista.

São Paulo (Brasil) – Avellino (Itália), agosto de 2019

NOTAS:

[1] Mais ou menos analogamente ao que diz Clément Rosset a propósito da possibilidade de uma filosofia trágica: “É com efeito a noção de ‘filosofia trágica’ que se encontra no centro do debate. Noção contestada por uma recíproca exclusiva: o trágico não sendo admitido senão a título de não filosófico, e o filosófico a título de não trágico. […] Enfim, ora filósofos, ora trágicos: nunca filósofos trágicos.” ROSSET, Clément, Lógica do pior. Trad. de Fernando J. F. Ribeiro e Ivana Bentes. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 18.

[2] Referência ao livro de Marta Petreu, An infamous past: Cioran and the rise of fascism in Romania.

[3] Por exemplo, Luiz Felipe Pondé, no texto “Arrancar o útero fora” (Folha de S. Paulo, 21 de maio de 2018), no qual o filósofo destila o seu moralismo (no sentido corrente, não dos moralistes) tomando um caso hipotético absurdo como exemplo geral do que seria o antinatalismo: uma moda de “jovens europeias entediadas (como quase todo europeu)” que defendem “arrancar o útero como ética”. Como se arrancar o útero não fosse uma patologia e uma aberração tão escandalosa quanto o que praticam certas seitas cristãs, por exemplo, os skoptsi. Uma vez mais, os pressupostos podem ser os mais díspares possíveis (teológicos, políticos), mas o resultado é o mesmo. (texto disponível em: http://zelmar.blogspot.com/2018/05/arrancar-o-utero-fora.html)

[4] Cf. a “sabedoria do Sileno”, in O Nascimento da tragédia, de Friedrich Nietzsche.

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