REVISTA BRASILEIRA, fase VIII, outubro/novembro 2014, ano III, no. 81, p. 91-104.

Aqueles que procuram, nos dias de hoje, defender a importância da Filosofia parecem, já de início, destinados à derrota. Nenhuma das antigas virtudes que animavam os amantes da sabedoria parece servir de referência para apoiar tais excêntricas preocupações. A morte dos ideais foi anunciada há muito tempo, as utopias viraram coisa de mau gosto, convenceu-se a Metafísica de que era absolutamente vetusta e de que tinha de ter a decência de morrer. Apesar de viver na época dos gigantismos, época em que o nosso catecismo está contido no Guinness Book, época orgulhosa de proclamar, desafiante, que all that is big is beautiful; o pensamento segue um rumo totalmente outro, assumindo o desmedramento, a fragilidade, o fracasso. Convertemo-nos, pouco a pouco, numa linhagem de colossos cujos corpos se encontram cada vez mais afastados do peso da Terra, aprendemos a adquirir costumes de estirpe matusalênica, projetando para nós, com voluptuosidade, um futuro de aposentados do Universo, de latas cuidadosamente conservadas para a digestão tardia de um monstro desconhecido, um monstro, aliás, perfeitamente integrável nos limites da matéria. Contudo, nossa aparente marcha triunfal parece um tanto descerebrada, e os recordes superados nada mais são do que uns pálidos esforços para a colonização do nada. A expansão continua, apesar de termos esquecido a sua destinação. Sorrimos vitoriosos, ainda quando teríamos preferido, provavelmente, que nos deixassem planger. Proclamamos a liberdade, sentindo-nos uns deploráveis títeres, uns fantoches, cujo titeriteiro desapareceu de trás. Em semelhante contexto, talvez Peter Sloterdijk não esteja tão enganado quando busca nos convencer de que a Filosofia hoje equivale a um grande esforço por não escrever sátira.

O fundo hedonista da nossa civilização impõe uma obrigatória e frenética busca por prazer, um treinamento rigoroso para a perfeita ascensão de uma nova ideologia. Desambientados, os que se deixaram tocar pela acedia misantrópica, os solitários ou os pessimistas incuráveis ficam fora da progressista e gloriosa paisagem. O sofrimento faz-se irremediavelmente obsceno, os seus sinais parecem provas certas de desumanidade ou, no mínimo, de falta de modos. A nova definição de homem, muito mais complexa e extremamente barroca, raiando simplesmente na obesidade, impõe a introdução de um importante parágrafo suplementar. De agora em diante, o homem é um ser condenado à felicidade, o homem é um mamífero eminentemente extático. Se os corpos precisam ser amestrados para chegar ao êxtase, para sentir todos os matizes da voluptuosidade prescritos pelos novos docteurs ès vie, o espírito não recebe quase nenhuma menção, provavelmente por considerar-se que não precisamos mais de semelhante hipótese. Os poucos hereges que continuam insistindo em que se fale de outra coisa além do perfeito funcionamento do corpo estão nas mãos de uns gurus orientais de terceira classe, eles mesmos completamente desiludidos, que se propõem acalmar os seus temores e anestesiar o seu pensamento, destilando encantamentos sutis. Mantra, yantra, tantra, ou antes, dodes kaden.

O lugar da Filosofia transformou-se, inevitavelmente, num espaço marginal, refletindo o refluxo geral do pensamento. O procedimento mediante o qual ele foi assimilado totalmente à razão parece ter sido fatal para ela pois, sendo identificada com um guarda mundial, ou melhor, com um distribuidor universal de créditos, a razão converteu-se, pouco a pouco, numa faculdade eminentemente conservadora: preocupada pela boa gestão dos problemas correntes, não pode mais levar a sério os grandes temas da Filosofia. Tudo se converte num jogo atentamente vigiado, numa deliciosa partida de xadrez onde, apesar da formidável capacidade de cálculo dos seus protagonistas, apesar das brilhantes inovações teóricas, apesar da satisfação que experimentam os especialistas, fazendo-se de bisbilhoteiros do partido, o sentido global não é jamais posto em discussão. Os “bispos”, célebres símbolos da transgressão, ou as “rainhas”, minúsculos compêndios da frivolidade, incapazes de exercer a sua função de analisar as regras que regem o movimento, fazem-se, neste caso, humildes instrumentos em mãos dos que dirigem o jogo. Estando o seu papel de antemão perfeitamente estabelecido, não sobra lugar para o desdobramento, para a admissão da cisão. As figuras do jogo de xadrez não conhecem a esquizofrenia, as angústias não as perturbam, a geometria caótica dos instintos não lhes parte a alma. Sua religião é estritamente racional, e o culto do deus Cálculo é, aparentemente, republicano, e o inventou, quiçá, Saint-Just… [PDF]

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