Ceticismo, fragmento e lucidez: “Emil Cioran. A Filosofia como Desfascinação e a Escritura como Terapia”, de Vincenzo Fiore [pt. 3] (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Na primeira parte do livro, “Uma juventude entre desespero e fervor político”, Fiore perfaz o itinerário de formação do jovem Cioran na Romênia da década de 30, explorando a dualidade de uma juventude dividida entre o desespero existencial e o fervor político. Não se faz política nos cumes do desesperoSchimbarea la faţă a României – libelo político que destoa no conjunto de uma obra sumamente existencial – seria uma espécie de “desvio programático”, um descaminho súbito, uma exceção à regra – no caso, de uma filosofia subjetiva e solitária, na contramão de todo engajamento e ativismo político.

A segunda parte, correspondendo à fase francesa de Cioran, tem como marco inicial o Breviário de decomposição (1949), e a reviravolta que ele representa no conjunto da obra. Ela se subdivide em três capítulos: “A filosofia como exercício de desfascinação”, “O teólogo ateu” e “As ideologias como doenças do século”.

A terceira e última parte, μή φϋναι. Meglio non esser nati, se divide em dois capítulos, La tragedia della nascita e L’idea del suicidio e la scrittura filosofica come auto-analisi. Aqui, me concentrarei apenas no primeiro capítulo da última parte: “Me phynai. Melhor não ter nascido”.

Me phynai. Meglio non esser nati

“Estamos todos no fundo de um inferno do qual cada instante é um milagre.”[1]

A epígrafe acima é o último aforismo de Le mauvais démiurge, que antecede Do inconveniente de ter nascido (1973): livro-chave para a última seção de La filosofia come de-fascinazione e la scrittura come terapia. Fiore destaca que o título, que faz ecoar uma sabedoria trágica milenar, já vem anunciado num dos aforismos finais do livro anterior: “Frívolo e descosido, amador em tudo, eu só terei conhecido a fundo o inconveniente de ter nascido.”[2]

A terceira e última parte do ensaio de Fiore – “Me phynai. Melhor não ter nascido” – é dedicada justamente a esse tema capital no conjunto do pensamento de Cioran: la tragedia della nascita, nas palavras do exegeta. Como ele bem observa, Cioran desloca e faz recuar “o problema principal da existência do fim para o princípio da mesma, ou seja, da morte para o nascimento”:[3] o grande mal, a verdadeira tragédia não é a necessidade da morte, não é ter de morrer, mas o nascimento, a fatalidade de nascer e vir-a-ser, entendido como a perda de uma “pura anterioridade”,[4] ou, nas palavras de Massimo Carloni, dessa identidade fundamental que seria como que o “rosto originário anterior ao nascimento”.[5] Eis, aliás, um ponto importante da exegese cioraniana do pecado original, em La chute dans le temps: trata-se da perda de um saber vital e pré-reflexivo, de uma “ciência inata da vida”,[6] mais do que o ganho de ciência, de um saber positivo e (inequivocamente) benéfico. O homem perde, não ganha, ao provar do fruto do conhecimento do bem e do mal (ponto de objeção ao suposto gnosticismo de Cioran).

Segundo Fiore, “embora Cioran seja o filósofo que mais aprofundou o tema da calamidade [sciagura] do nascimento, ele não foi o primeiro a interrogar-se sobre o problema. Por isso, antes de aprofundar a análise cioraniana, cumpre dar um passo atrás e escavar as suas fontes para compreender quanto ele foi influenciado por elas.”[7] Dito isso, ele passa em revista as principais tradições e correntes de pensamento que coincidem e concorrem, enquanto influências textuais, para a gênese do me phynai cioraniano. “Antes de tudo, vale indagar até que ponto as religiões orientais, o gnosticismo e os textos sagrados influenciaram a concepção do nascimento própria a Emil Cioran”,[8] afinal, o pensador romeno não dominava nenhuma língua antiga, dependendo portanto de traduções e literatura crítica (o que fica atestado pelos Cahiers, notadamente leituras de teóricos do budismo, do hinduísmo, etc.).

Sabemos do interesse de Cioran pelas religiões, inclusive orientais (superado apenas, talvez, pelo de Eliade, historiador das religiões e profundo conhecedor das religiões orientais). “É certo que Cioran conhecia a filosofia hindu, considerada por ele ‘o que o homem já criou de mais profundo e audaz’, e que leu o Bhagavadgita, citado no próprio Inconveniente.”[9] Um importante texto oriental (hindu) que Cioran leu, cita, e que é relevante a propósito do me phynai, são os Upanixades, que conteriam uma doutrina soteriológica a opor o conhecimento (salvífico) à ignorância (āvidya) na qual os seres humanos são aprisionados ao nascerem.[10] A propósito das filosofias e religiões orientais, Fiore garimpou a seguinte anotação nos Cahiers: “De tempos em tempos eu retorno aos Vedas e aos Upanixades. Todo ano tenho acessos de indianidade.”[11]

Outra referência oriental significativa é o budismo: “Seguramente, muito mais incisiva é a influência do budismo sobre Cioran, que para o filósofo tem o mérito de captar o ‘abismo do nascimento’ (abîme de la naissance), um abismo no qual não se cai, mas do qual se emerge.”[12] Quanto ao gnosticismo, Cioran escreve a respeito com conhecimento de causa, não apenas em virtude da afiliação reivindicada com os bogomilos, mas também da avidez por um tema (um universo de pensamento) que conseguiu fazê-lo frequentar a universidade regularmente, ao final da década de 1950, não para almoçar de graça, mas para assistir às aulas de Henri-Charles Puech sobre o Evangelho de Tomé. É um tema que ele conhecia muito bem, em meio ao qual sabia filtrar e selecionar o que lhe interessava mais, e ao qual dedicou, ademais, inúmeros aforismos e páginas inteiras (não apenas em Le mauvais démiurge). E um tema especialmente relevante em se tratando do me phynai:

No concílio de 1211 contra os Bogomilos, foram anatematizados aqueles dentre eles que sustentavam que “a mulher concebe no seu ventre com a cooperação de Satã, que Satã aí permanece desde então, sem se retirar, até o nascimento da criança”.
Não ouso supor que o Demônio possa se interessar em nós a ponto de nos fazer companhia por meses; mas não poderia duvidar de que fomos concebidos sob o seu olhar, e que ele efetivamente assistiu os nossos queridos genitores.[13]

Muitas outras são as referências textuais catalogadas por Fiore no sentido de apontar as matrizes culturais, filosóficas e religiosas, do me phynai cioraniano. Uma delas é o Antigo Testamento, particularmente o livro de Jó e o Eclesiastes, mas também o livro de Jeremias, do qual, segundo o exegeta, Cioran certamente conhecia a passagem na qual o autor maldiz o dia do seu nascimento.[14] A conclusão da hermenêutica cioraniana do Antigo Testamento, a partir do Gênese (Bereshit em hebraico), é que a exortação “Crescei e multiplicai-vos” é “uma criminosa injunção sugerida por um Deus sádico”.[15] Saindo do universo semítico, em direção à tragédia grega, somos informados que Cioran adquire a lição de Sófocles do ‘me phynai, tòn hàpanta nikà logon’ diretamente de Nietzsche.”[16] Com efeito, a obra do pensador romeno parece ecoar a lenda do sábio Sileno, tematizada no Nascimento da tragédia (1872):

Reza a antiga lenda que o rei Midas perseguiu na floresta, durante longo tempo, sem conseguir capturá-lo, o sábio SILENO, o companheiro de Dionísio. Quando, por fim, ele veio a cair em suas mãos, perguntou-lhe o rei qual dentre as coisas era a melhor e a mais preferível para o homem. Obstinado e imóvel, o demônio calava-se; até que, forçado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras: – Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer”.[17]

Este é ainda um Nietzsche em grande medida schopenhaueriano e pessimista (ele mesmo emprega o termo diversas vezes neste livro seminal). Escrevendo após Kant (e após Schopenhauer), em sua “tentativa de autocrítica”, sobre o nascimento da tragédia entre os Gregos, Nietzsche põe em questão o valor da existência, numa demonstração de pessimismo que não é signo de declínio, ruína, fracasso, instintos cansados e debilitados, como entre os europeus modernos (argumenta o filósofo de Röcken), mas um pessimismo trágico, da fortitude, ao modo dos Antigos: “uma propensão intelectual para o duro, o horrendo, o mal, o problemático da existência, devido ao bem-estar, a uma transbordante saúde, a uma plenitude da existência”, enfim, “uma tentadora intrepidez do olhar mais agudo, que exige o terrível como inimigo, o digno inimigo em que pode pôr à prova a sua força.”[18] Mais do que isso, a partir da oposição complementar entre dionisíaco e apolíneo, ele assevera que devemos considerar “o estado da individuação, como enquanto fonte e causa primordial de todo sofrer, como algo em si rejeitável”, e conclui:

Nos pontos de vista aduzidos temos já todas as partes componentes de uma profunda e pessimista consideração do mundo e ao mesmo tempo a doutrina misteriosófica da tragédia: o conhecimento básico da unidade de tudo o que existe, a consideração da individuação como causa primeira do mal, a arte como a esperança jubilosa de que possa ser rompido o feitiço da individuação, como pressentimento de uma unidade restabelecida.[19]

Essa visão trágica – e ao mesmo tempo tão metafísica, tão “misteriosófica” – que identifica no principium individuationis um delito, uma transgressão, um desvio, um pecado contra a “unidade de tudo o que existe”, se podemos remontá-la a algum dos filósofos pré-socráticos, não é a Heráclito de Éfeso, mas a Anaximandro de Mileto, o filósofo do ápeiron.[20] Segundo Fiore, Cioran conhecia o fragmento de Anaximandro através da interpretação que Nietzsche faz dele em A filosofia na época trágica dos gregos.[21] Podemos considerá-lo o precursor remoto do moderno pessimismo filosófico (Schopenhauer), e uma das principais matrizes filosóficas do me phynai, a ideia do nascimento como uma irremediável tragédia. Escreve Nietzsche:

Pode não ser lógico, mas, em todo caso, é bem humano e, além disso, está no estilo do salto filosófico descrito antes, considerar agora, com Anaximandro, todo vir-a-ser como uma emancipação do ser eterno, digna de castigo, como uma injustiça que deve ser expiada pelo sucumbir. […] Se ele preferiu ver, na pluralidade das coisas nascidas, uma soma de injustiças a serem expiadas, foi o primeiro grego que ousou tomar nas mãos o novelo dos mais profundos dos problemas éticos. Como pode perecer algo que tem o direito de ser![22]

Segundo Fiore, há outra versão da lenda citada por Nietzsche, na qual Sileno não é forçado a falar, mas entretém o rei Midas com “estórias excepcionais sobre uma terra misteriosa”.[23] A terra em questão seria a Trácia, de onde se supõe que Dionísio tenha sido culturalmente importado.[24] Os Trácios (e os Dácios) são os ancestrais remotos dos romenos, anteriores à romanização daquela região. Cioran escreveu um aforismo sugestivo sobre eles (mencionando também os Bogomilos): “Trácios e Bogomilos – não me posso esquecer de que frequentei os mesmos lugares que eles, nem de que uns choravam os recém-nascidos e os outros, para declararem inocente Deus, consideravam Satanás responsável pela infâmia da Criação.”[25]

Não é difícil ver como a questão do me phynai, do nascimento como tragédia, está intimamente relacionada ao problema da existência (incompreensível) do mal. O jovem Nietzsche, influenciado por Schopenhauer, identifica a causa de todo mal no indivíduo, na individualidade, no principium individuationis, que delimita e determina tudo o que nasce, tudo o que vem a ser (nada geral existe efetivamente, apenas seres particulares e plurais). É uma visão que se pode remontar a Anaximandro de Mileto, para o qual todo vir-a-ser é um delito contra a unidade do que é, e que é puramente indeterminado, ilimitado e infinito, merecendo portanto expiar sua culpa mediante o aniquilamento, isto é, a corrupção e a morte. O me phynai cioraniano não corresponde propriamente ao componente cético do seu pensamento, mas antes ao pessimismo (que é metafísico, mais do que existencial, como sustenta Joshua Dienstag), se é que não podemos vinculá-lo ao conceito do niilismo, conforme manuseado por Cioran. O ceticismo não conduz à “negativa de procriar”,[26] ao menos não necessariamente, não vendo razões para fazer disso um imperativo categórico. Essa negativa, manifesta no Breviário de decomposição, é a consequência lógica, e biológica, da visão do nascimento como uma tragédia. A propósito, Fiore há de concordar comigo que a maior coerência entre a vida e a obra de Cioran reside justamente nessa recusa de procriar, no fato de não ter deixado progenitura: “Ter cometido todos os crimes, excepto o de ser pai.”[27]

NOTAS:

[1] IDEM, Le mauvais démiurge, in: Œuvres, p. 1259.

[2] Ibid., p. 1258.

[3] FIORE, Vincenzo, Op. cit., p. 119.

[4] CIORAN, E.M., Le mauvais démiurge, in : Œuvres, p. 1229.

[5] CARLONI, Massimo, “Cioran, o nascimento e o Zen”, in: Alkemie, no 9 (« L’être »), junho 2012. Disponível em: <https://emcioranbr.org/2015/06/20/nascimento-zen/>. Acesso em: 22 ago. 2019.

[6] CIORAN, E.M., La chute dans le temps, in : Œuvres, p. 1075.

[7] FIORE, Vincenzo, Op. cit., p. 120.

[8] Ibid., p. 120.

[9] Ibid., p. 120-121.

[10] Ibid., p. 122.

[11] CIORAN, E.M., Cahiers : 1957-1972, p. 32.

[12] FIORE, Vincenzo, Op. cit., p. 122.

[13] CIORAN, E.M., Le mauvais démiurge, in : Œuvres, p. 1213.

[14] FIORE, Vincenzo, Op. cit., p. 125.

[15] Ibid., p. 125.

[16] Ibid., p. 125.

[17] NIETZSCHE, Friedrich, O nascimento da tragédia. Trad. de J. Guinsburg. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p. 33.

[18] NIETZSCHE, Friedrich, O nascimento da tragédia, p. 12.

[19] Ibid., p. 67.

[20] Eis o fragmento de Anaximandro: “Princípio [arkhé] dos seres… ele disse (que era) o ilimitado [ápeiron]… Pois donde a geração é para os seres, é para onde também a corrupção [phtorá] se gera segundo o necessário; pois concedem eles mesmos justiça [dike] e deferência [tisis] uns aos outros pela injustiça [adikia], segundo a ordenação do tempo.” ANAXIMANDRO DE MILETO, Fragmentos, in: Col. “Os Pensadores”. Trad. de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 22.

[21] FIORE, Vincenzo, Op. cit., p. 129.

[22] NIETZSCHE, Friedrich, A filosofia na época trágica dos gregos, § 4, in: ANAXIMANDRO DE MILETO, Crítica Moderna, Col. “Os Pensadores”, p. 23-4.

[23] FIORE, Vincenzo, Op. cit., p. 128.

[24] Cioran fala disso numa entrevista, ao ser perguntado se o seu penchant au mysticisme (a sua propensão à mística) vem da tradição ortodoxa, ele responde que não: “Aparenta-se mais à seita gnóstica dos bogomilos, os ancestrais dos cátaros, cuja influência foi grande sobretudo na Bulgária. […] Eu me reconheço bastante próximo da crença profunda do povo romeno, segundo a qual a criação e o pecado são uma e a mesma coisa. Em grande parte da cultura balcânica, a criação não cessa de ser colocada em acusação. O que é a tragédia grega senão a queixa constante do coro, ou seja, do povo, em relação ao destino? De resto, Dionísio veio da Trácia.” CIORAN, E.M., Entretiens, p. 9-10.

[25] IDEM, Do inconveniente de ter nascido, p. 23.

[26] IDEM, “A negativa de procriar”, Breviário de decomposição, p. 127.

[27] IDEM, Do inconveniente de ter nascido, p. 8.

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