O GOSTO DAS ILUSÕES. As essências são uma superstição do espírito filosófico. Não podes privar-te delas sem comprometer-te, embora todos queiram escapar de sua tirania. Ninguém sabe o que é o essencial, mas isso não é obstáculo para que um pressentimento se transforme em tirania. Mas supondo que soubéssemos o que seja o essencial, não saberíamos, no entanto, o que é o mais essencial. Só por este último pode-se fazer um sacrifício, um gesto definitivo, absurdo. Como se pode ver, existe uma hierarquia também entre as essências; no domínio das ilusões ela é natural e apresenta a vantagem de ser ilusória.

O mundo das essências não me pareceria tão terrível se estas permanecessem no âmago da vida ou se, pelas essências, fosse eu quem nele permanecesse. O progresso no essencial implica um retrocesso na vida. Recuamos sem nos aprofundar nela e ao sair a abandonamos. Por mais que se diga, a plenitude da vida só existe nas ilusões porque, no fundo, tudo é ilusão. O homem ama as ilusões, ainda que, pelo pensamento, tenha feito um esforço vão para libertar-se delas. Ele sabe que, se um dia tivesse de escolher de uma vez por todas entre ilusões e essências, escolheria as primeiras por mais que lamentasse as segundas. O conteúdo fugaz das ilusões alimenta mais a vida do que a ilusão substancial das essências.

Faz muito tempo, muitíssimo, que se acredita que as ilusões são reflexos passageiros das essências. Este condicionamento é difícil de acreditar e impossível de saber. As essências não nos ajudaram a compreender mais nem a viver melhor (quero dizer, de forma mais essencial).

Entre a infinidade de ilusões, um certo número delas se cristalizou, emancipando-se das outras e determinando um centro substancial. Uma vez consolidada e purificada da palpitação inerente à ilusão individual, dá um salto substancial para fora do mundo das outras e se situa fora do nosso. O processo de formação quantitativa das essências é mais simples e mais banal: elas são o resultado de um agrupamento exterior de elementos; ao espírito só cabe a atividade de substancialização. Não é preciso ser filósofo para “realizar” tais essências e para ter acesso a elas.

Existe uma via pela qual nos aproximamos mais vivamente das essências, que é a religiosa e a das obsessões. Ver até o fundo das ilusões em uma profundidade qualitativa significa esgotar o conteúdo dado do mundo e suprimir nossa qualidade no mundo. Não há necessidade, pois, de totalizar as ilusões, de fazer comparações externas, de ordens quantitativas. Não se trata tampouco de consumir nada, porque o aprofundamento se realiza sobre uma só dimensão de uma única ilusão. Basta ter penetrado na profundidade de uma ilusão para que deixe de interessar e para que nenhuma outra profundidade acessível satisfaça. Basta ter esgotado o conteúdo de uma para que as outras sigam por si sós. E então, para não se vulgarizar repetindo o mesmo processo, o salto para a essência se torna inevitável. Depois de ter percorrido a via da ilusão, a hipostasiamos ou, de forma atenuada, a deslocamos. Aquele que viu até o fundo das ilusões chegará, fatalmente, às essências. Por mais precauções que se tomem, das essências não é possível escapar. Violar as ilusões significa condenar-se às essências.

As ilusões não são os reflexos das essências. Seríamos ingratos com as aparências que, com sua degradação, nos alimentam diariamente. Que as essências nos cavalguem, só podemos lamentá-lo; e teremos de protestar em nome de todas as ilusões, das que nos são caras, sem tornar odiosas as essências. A tentação do essencial deve ser utilizada apenas como uma válvula da aversão pelo mundo. Na aversão à vida, o mundo das essências pode nos consolar porque estas não só se retiram da vida, mas nos expulsam dela. Do ponto de vista das aparências, a objeção fundamental contra as essências é a seguinte: que elas não pertencem à vida. Entre essência e vida, a oposição durará enquanto existir o homem. Este cairá um dia sob a pressão das essências sobrepostas à vida. A aversão à vida nos dá o gosto pelas essências, e a aversão pelas essências, o gosto das ilusões.

As ilusões são originárias; as essências, derivadas. O mundo, ao apresentar um processo contínuo, prescinde das essências porque elas nunca podem participar do próprio processo nem podem ser registradas no universo. É o homem quem as registra por sua conta e risco…

Como seria bom se as ilusões se insinuassem nas essências, e as essências, nas ilusões se elas se prolongassem umas nas outras e, em uma transição insensível, unissem mundos pelos quais nos é tão difícil optar! Mas o essencial não pertence ao nosso mundo. Pelo que temos de essencial em nós, também não pertencemos a ele.

Qualquer acontecimento da vida, pensado até sua essência, nos retira da vida. Um amor, um sofrimento e mesmo um triunfo, vividos e pensados até seus limites, vencem a resistência individual das ilusões. Quando, em vez de um amor, se consegue ver o amor; em vez de um sofrimento, o sofrimento; em vez de um triunfo, o triunfo, a substancialização das experiências individuais tira da vida seu eventual encanto direto. A desgraça da essência é roubar-nos o único, arrebatar-nos o imediato.

Depois da oposição entre consciência e vida, essência-ilusão é o segundo capítulo trágico da antropologia. (O que significa que só existe uma antropologia trágica.) Desde que o mundo existe, as essências são só potenciais; o homem despertou as ilusões de seu sonho irresponsável pela indesejável luz das essências.

O conflito entre ilusão e essência perde seu caráter trágico na santidade. Como tudo está santificado, não existe interior nem exterior. Uma transparência geral do espírito que não é incompatível com um mistério difuso se combina com uma comunhão da alma aberta a tudo. Um santo vê sempre até o fundo das ilusões sem por isso declará-las enganosas. As essências não prolongam as ilusões, mas em cada essência há tanta ilusão quanto tanta essência cada ilusão de sua parte contém. O dualismo se torna tão lábil e tão fluido que toda transição é inapreensível. Os santos ocupam o ponto em que se encontram os mundos, e todos nós, o ponto onde se separam. Os santos não têm nenhuma compreensão da tragédia, pois estão infinitamente longe dela, embora seu coração seja maior que o mundo.

O santo não é indiferente às ilusões e às essências porque para ele tudo é atual. A substância é tão ativa nas aparências quanto em si mesma. Por isso a santidade elimina a priori qualquer conflito. E por isso ninguém quer ser santo.

O homem ama a desordem de sua existência. E, se ela deu origem ao catastrófico conflito entre essências e ilusões, não suportará sem um certo gozo seu desenlace. Se o homem amasse a calma, o equilíbrio e a segurança, teria encontrado uma solução para desembaraçar-se de uma das duas. Certamente teria preferido as ilusões porque são mais embriagantes e mais passageiras. A eternização do conflito faz parte da natureza do homem e de seu amor secreto pela fatalidade.

A humanidade recusa a santidade. E como não vai fazê-lo se esta sai vitoriosa de todos os conflitos que nós nos empenhamos em gerar e propagar? A História, da qual tanto nos vangloriamos, não teria conteúdo algum nem, talvez, sentido se não tivéssemos tentado com todas as nossas forças exasperar os conflitos, prolongar os dramas, evitar as soluções. É verdade que há poucas soluções no universo; mas é verdade também que rechaçamos as que temos. A História não quer que se solucione nem resolva nenhuma de suas anomalias. Essa maneira que tem o homem de andar tateando me agrada e me impressiona mais do que a santidade.

Se as essências que os homens tanto estimam, sem amá-las, não puderam salvar nada, só nos resta então a coragem das ilusões. Fiquemos aqui, na terra; comprometamo-nos e desapareçamos como uma ilusão entre outras. As essências nos destroem para além do mundo: é uma destruição mais interessante, mas não mais dolorosa. Destruir-se com todos os infelizes deste mundo exige uma renúncia maior, mas triste e mais implacável. Saber que se está lutando apenas por ilusões, e que pelas essências não tem sentido sacrificar-se, pressupõe tanta lucidez, tantas quedas e tantas vitórias que nem o supremo orgulho nem a suprema humilhação podem mais nos deter. Nunca pude amar Buda. Eu o odiei sempre que lhe dei razão.

CIORAN, Emil, O Livro das Ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

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