Quanto mais e melhor se conhece uma pessoa, mais próximo se está de uma fatal separação dela. O conhecimento separa um ser do outro e anula os grãos de mistério que se encontram em toda existência, por mais medíocre que ela seja. Os homens resistem tão pouco ao conhecimento que, ao cabo de breve tempo, sua presença cansa e irrita. Todo conhecimento implica cansaço, repugnância de ser, distanciamento, porque todo conhecimento é uma perda, uma perda de ser, de existência. O ato de conhecimento só faz aumentar a distância que nos separa do mundo e tornar mais amarga nossa condição. Não conseguimos mais suportar os amigos, as mulheres mesmo nos irritam, e todos os seres nos dão nojo. Basta que uma sacudida orgânica e anímica nos tire do ritmo normal da vida, para que esta já não possa oferecer-nos nada mais, exceto a certeza de prolongadas dores, que nascem independentemente de nossa vontade, sem culpa e responsabilidade de nossa parte. E as dores são tanto mais fortes porque não temos culpa delas, não somos responsáveis, porque nos invadem irracionalmente, indiferentes a nosso valor e a nossos pensamentos.

Põe em tudo tanta paixão que o menor gesto seja uma revelação integral de ti mesmo. Fala como um condenado à morte; que cada palavra traga a marca do definitivo, de uma tensão última. Não se esqueças de multiplicar tuas vibrações interiores até o limite, até o absurdo. Como um condenado à morte, que tua alma se dissolva e se precipite em uma angústia extática, em um estremecimento de terror que chegue até o gozo. Esteja em todo momento no limite de teu ser; e, nos instantes em que não tenhas podido chegar a esse limite, pensa na compensação dos momentos que viveste além desse limite, além das barreiras da individuação; quando tomado por uma exaltada fúria interior chegaste a tais alturas e tais abismos que teu ser já não voltou a estar presente apenas como ser, mas também como tudo o que já não é ele. A vida só é vivida com intensidade quando sentes que teu ser individual não pode mais suportar uma riqueza tão grande de experiências. Viver no limite do ser significa deslocar teu centro para o arbitrário e para o infinito. Aí começa a existência a tornar-se uma aventura arriscada durante a qual podes morrer em qualquer momento, e aí começa a causar-te dor o salto para o infinito. Não há um salto para o infinito sem que se rompam as barreiras da individuação, quando sentes que és muito pouco em comparação com o que vives. Pois ao homem é dado viver às vezes mais do que pode suportar. E não há homens que vivem com o sentimento de que já não podem viver?

É extremamente penoso viver momentos musicais estando à distância da música, sentir que não podes tremer no momento em que seria preciso estar emocionado; é extremamente penoso ser objetivo quando se escuta música. Teu ser não se deixa levar pelo entusiasmo, não sente que teria que uivar, chorar ou dissolver-se, não participa de um ritmo de frenesi geral nem se delicia com o prazer das ondas sonoras. A distância com relação à música te impede de realizar-te internamente, de crescer, de dilatar-te e de explodir. Que sorte que esses momentos sejam tão raros. A música, ao tornar sutil a matéria, ao anular-nos como presença física, nos torna etéreos. Qualquer estado musical carece de valor se não anula a consciência de nossa limitação no espaço e não dissolve nosso sentimento da existência na sequência temporal. Os raros momentos em que lamentamos estar distantes da música só fazem despertar em nossa consciência a fatalidade de nossa limitação espacial e temporal, de nossa distância com relação ao mundo. Sofres durante esses instantes por não poder tornar-te imaterial e puro, porque as depressões te impedem de vibrar, te isolam como matéria no espaço. Todas as depressões te isolam no mundo, como isolariam uma pedra que tivesse consciência. Elas tendem a mostrar-nos que o homem, se não é mais objeto, um dia no entanto o foi; durante a depressão o sujeito percebe qual é seu substrato e a materialidade que o liga à terra. Existe aí uma autêntica dualidade, para não dizer um paradoxo. O espírito no homem, que o torna sujeito, tem consciência da matéria que o enquadra dentro da natureza. Assim, todas as depressões não são senão distâncias do mundo nas quais o espírito humano suporta a tristeza de sua própria matéria. O sujeito sente e pensa que é um objeto, que por essa dualidade já não pode integrar-se no mundo por causa da imensa distância que o separa dele, embora materialmente ele seja uma presença física semelhante aos outros. No entanto, se experimentamos estados musicais em momentos de depressão, significa que estes, pelas sonoridades, se desmaterializaram; é uma transfiguração completa que faz vibrar as tristezas íntimas e perder seu caráter de pesada materialidade. A tristeza, como origem do estado musical e como seu resultado, se assemelha só exteriormente à tristeza de todos os momentos não musicais; já que se purifica com as vibrações e cresce até um êxtase do infinito. A distância do mundo se converte então em um frenético entusiasmo em direção ao vazio que a tristeza abriu entre nós e o mundo. Na música o vazio se converte em plenitude, que pode não ser senão um vazio que vibra. Todos os estados anímicos se transformam em vivência musical e recebem novas características, porque esta aprofunda e torna sutis todos os estados até a vibração, fundindo-os em convergências e imaterialidades sonoras.

Só amam a música aqueles que sofrem por causa da vida. A paixão musical substitui todas as formas de vida que não foram vividas e compensa no plano da experiência íntima as satisfações encerradas no círculo dos valores vitais. Quando se sofre vivendo, a necessidade de um mundo novo, distinto do que vivemos habitualmente, nasce de forma imperiosa para não diluir-nos em um vazio interior. E esse mundo só a música pode trazê-lo. Todas as outras artes descobrem novas visões, configurações ou formas novas; somente a música traz um novo mundo. As obras mais importantes da pintura, por maior que seja o enlevo que te produza sua contemplação, te obrigam a fazer comparações com o mundo de todos os dias e, por conseguinte, não te oferecem a possibilidade de entrar em um mundo absolutamente distinto. Em todas as outras artes, tudo está próximo, mas não tanto que se torne uma intimidade suprema; na música, todavia, tudo está tão longe e tão perto que a alternância entre o monumental e o íntimo, entre o inacessível e o lírico, cria uma inteira gama de êxtases interiores. Diante de nenhum quadro do mundo sentiste que o mundo poderia começar contigo; mas há finais de sinfonias que muitas vezes te levaram a perguntar-te se não serás tu o princípio e o fim. A loucura metafísica provocada pela experiência musical cresce conforme se perdeu mais e se sofreu mais na vida; pois através dela pudeste entrar de maneira mais completa em outro mundo. Quanto mais te aprofundas na vivência musical, mais aumentas a insatisfação inicial e agravas o drama originário que te fez amar a música. Se a música é o resultado de uma doença, não faz então senão ajudar o progresso dessa doença. Pois a música destrói o interesse pela ação, pelos dados imediatos da existência, pelo fato biológico como tal, e desabitua o indivíduo. O fato de que, depois das tensões íntimas às quais te levam os estados musicais, sintas a inutilidade de seguir vivendo não expressa senão esse fenômeno de desadaptação. Muito mais que a poesia, a música enfraquece a vontade de viver e as molas vitais. Renunciamos à música então? Todos nós que somos fortes quando escutamos música, porque somos fracos na vida, seremos tão ineptos a ponto de renunciar também à nossa última perda, a música?

CIORAN, Emil, O Livro das Ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

Deixe aqui suas impressões, comentários e/ou críticas. Deja aquí sus impresiones, comentarios y/o críticas. Leave your impressions, comments and/or critiques here. Laissez ici vos impressions, commentaires et/ou critiques. Lăsați-vă impresiile, comentariile și sau recenziile aici. Lascia qui le sue impressioni, commenti e/o recensioni.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s