Quando Buda fala de renúncia, é como se nós falássemos do amor. Renunciar com a naturalidade de uma flor que se fecha ao entardecer: esse é o segredo de uma renúncia que não poderemos realizar nunca, porque colocamos demasiada paixão nas negações. Não se tornam positivas todas as negações durante nossos momentos de tensão? Ao destruir tudo é como se criássemos tudo. Como se estivéssemos em uma fogueira, estalamos de negações. E consumimos as negações não na dúvida, mas com a certeza de uma missão. Nós nos desfazemos de tudo para conquistar tudo; nos sacrificamos para transfigurar a vida; renunciamos para nos afirmar; no desprendimento último, nosso entusiasmo abraça o mundo. Daí que a liberação permaneça em nossa consciência como um simples problema. Porque a liberação só se torna realidade para aqueles que seguem uma única direção no absoluto.

Desprenda-te de tudo para tornar-te centro metafísico, teu único ganho, teu único destino. Que ao perder tudo, esse triunfo seja para ti motivo de regozijo e nos fracassos descubras raios de luz para tua auréola. Viva como um mito; esqueça a história; pensa que contigo não se tortura uma existência, mas a existência; que a matéria, o tempo e o destino se concentraram em uma única expressão; torna-te fonte de ser e de atualidade na existência. Ao viver como um mito, tudo o que é anônimo na natureza se torna em ti pessoal; e tudo o que é pessoal, anônimo. Viverás então tudo tão intensamente, que as coisas se tornarão essências e perderão seu nome. Então poderás renunciar à tentação do individual; poderás esquecer uma pessoa ou um objeto, então poderás dar tudo e poderás dar-te a ti por inteiro.

Pergunta moderna a um problema eterno: por acaso não nos atormentará o pesar de nossa renúncia?

Todo o problema da renúncia: como podemos fazer dela algo que não seja uma perda, como podemos fazer dela uma forma de amor. Queremos fazer da renúncia algo positivo. Covardia ou heroísmo moderno?

Quando a renúncia não se realiza no sacrifício, mas termina em desilusão e ceticismo, fracassou uma experiência capital. É como uma negação que não conduz ao êxtase. Só há uma forma pela qual a renúncia ainda pode chegar a ser fecunda: se está aberta para a vida. Uma vez rompidos os laços com o mundo, tenhamos bastante amor para poder, a partir de nosso distanciamento, abarcá-lo todo; situemo-nos infinitamente longe de tudo e infinitamente perto de tudo; englobemos tudo com uma visão de êxtase. Desta maneira a renúncia significará um ganho. Nela nossa alma se abrirá para tudo, porque perdeu tudo. Um amor total e infinito não é possível sem distanciamento. Só o amor que se realiza individualmente, o único amor imediato, prescinde desse distanciamento.

Só uma alma dilacerada de amor ainda pode reabilitar este mundo vulgar, mesquinho e repulsivo. Um grande amor não existe sem uma grande renúncia. Só podemos ter tudo quando não temos mais nada. As alegrias e as tristezas da renúncia! Nós nos realizaríamos de forma absoluta se a renúncia fosse apenas ocasião de alegria. Mas amamos demasiado nossa imperfeição e por isso nossos amores nos entristecem. Quando aprenderemos a ver no amor algo mais do que uma perda?

CIORAN, Emil, O Livro das ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

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