A perda da consciência de ser criatura: odiamos tudo o que é ser; deixamos de ser solidários com todas as criaturas junto às quais uma vez ornamentamos o paraíso.

Quando odiamos os animais, odiamos a base de nossa vida. Queremos escapar totalmente da ordem das criaturas. Por que então, quando nos abandona a sensação de ser uma criatura, vemos todos os animais como se fossem répteis? Por que nos invade o nojo e o medo de algo frio, subterrâneo e rastejante? Por que, quando sentimos repugnância por uma criatura, uma serpente imensa se enrosca em nosso corpo inteiro, formando uma sinistra espiral? Por que, quando temos uma fria sensação de terror, percebemos nascer em nós um veneno amargo e destruidor?

A obsessão da serpente? O medo da queda próxima, de uma queda absoluta. A segunda tentação da serpente: perder a lembrança do paraíso. Perdemos o consolo de ter sido alguma vez, mais que um instante, felizes…

A grande tentação: não haveis visto nunca o mundo através dos olhos de uma serpente?

É a hora em que as lembranças me invadem como chamas, quando todo o passado me queima, tudo o que em mim foi sorriso, tristeza, pesar, quando tudo o que em mim não pode calar. O grito de minhas entranhas… A dor de ter um tempo, a tristeza da própria história… Um mundo sem lembranças nem esperanças… Viver absolutamente, sem paraíso. Uma consciência que não trace uma curva entre o princípio e o fim do mundo, um imenso e eterno arco-íris que se arqueie sobre todo o mundo, não se consolará nunca da perda do paraíso. Nascidos à sombra da divindade; fazer-lhe sombra, esse há de ser nosso ideal.

Muros negros em uma cidade no Norte, muros tisnados e altos. Névoa, chuva e tristeza. De um desafinado realejo brotam velhas melodias que evoluem de maneira sinistra e surpreendente. E esses sons dão a impressão de que se desprenderam dos muros tisnados e altos para encontrar-se, como se se tratasse de uma fogueira sonora, em tua própria alma. E capturado por essas notas desafinadas que saem do enferrujado realejo, entoas o hino fúnebre em teu próprio enterro.

Só o desespero muda o curso de uma vida, porque o desespero é a auréola da dor. A transfiguração é um salto a partir da dor, um salto a partir dos limites da dor, quer dizer, do desespero. O desespero é o sentimento mais fecundo; dele emana tudo. E o que é esse tudo? A paixão pela dor.

Não se pode saber se o homem ama sinceramente o sofrimento.

Não existe destino sem o oculto sentimento de uma condenação e de uma maldição.

O tempo como uma escala de dores…

Aquele que teria podido ser santo se tivesse querido…

Pensamento na noite: o homem tem de sofrer até que o próprio Deus lhe peça desculpas?

Na primeira vez, o conhecimento corrompeu o paraíso; na segunda, será a tristeza que o corromperá. Então renascerei em forma de serpente…

A diferença entre Deus e eu: ele pode o que eu sinto. O poder nos separa: uma diferença de matiz metafísico. Não viver na divindade, mas em nossa divindade.

A suspensão total do tempo: o mundo se cria em nós.

Êxtase divino: em nós começa o tempo. A sensação do primeiro instante… Logo, os instantes que caem no tempo como as lágrimas na alma.

Refletir-me em tua lágrima e tu na minha. Que cada um se reflita nas lágrimas do outro. Que todos se reflitam nas lágrimas de todos. Como diante de velhos ícones, prostremo-nos humildemente diante de nossas transparências, brilhantes mas não profundas. Que a lágrima seja nosso espelho, nosso autêntico espelho. Nela se juntarão nossas dores e êxtases. Que outra coisa senão a lágrima pode servir de espelho a quem perdeu o paraíso? Só nas lágrimas tornaremos a encontrar nosso semblante. E, como as lágrimas se desprendem das profundidades do homem, são como um apelo de outro paraíso, no qual entraríamos depois do último instante, depois da última lágrima.

Entre os que recusam a vida e não podem amá-la, não existe nenhum que não a tenha amado ou que não quisera amá-la.

CIORAN, Emil, O Livro das Ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.