Schopenhauer, pessimismo filosófico e a recepção brasileira de Cioran: Ciprian Vălcan em diálogo com Flamarion Caldeira Ramos

Entrevista originalmente publicada em ARCA – Revistã lunarã de literaturã, eseu, arte vizuale, muzicã (fondatã în februarie 1990 la Arad), anul XXV, nr. 4-5-6, 2014, e incluída no volume Cioran, un aventurier nemişcat. 30 de interviuri [Cioran, um aventureiro imóvel. 30 entrevistas] (Bucureşti, Editura ALL, 2015), com 30 entrevistas feitas por Ciprian Vălcan com de exegetas de Cioran de todo o mundo, das mais diversas nacionalidades, formações e áreas de estudo: Patrice Bollon, Paulo Borges, Jose Thomaz Brum, Massimo Carloni, Nicolas Cavailles, Livius Ciocîrlie, Sylvian David, Aurelien Demars, Antonio di Gennaro, Joshua Foa Dienstag, Philip Dracodaidis, Farkas Jeno, Michael Finkenthal, Aleksandra Gruzinska, Aymen Hacen, Liliana Herrera, Roland Jaccard, Ireneusz Kania, Fernando Klabin, Jacques le Rider, Ger Leppers, Marco Lucchesi, Joan M. Marin, Dan C. Mihăilescu, Marta Petreu, Vincent Piednoir, Flamarion Caldeiera Ramos, Mario Andrea Rigoni, Giovanni Rotiroti, Constantin Zaharia.

CIPRIAN VĂLCAN: Como o senhor chegou a conhecer a obra de Cioran?

FLAMARION CALDEIRA RAMOS: Conheci Cioran após ler no Jornal “Folha de São Paulo” uma reprodução de uma matéria dedicada ao filósofo originalmente publicada no Magazine Littéraire na França em 1995, poucos meses antes de sua morte. Creio que a publicação desse dossiê foi muito importante para a divulgação da obra de Cioran em todo mundo. Só algum tempo depois consegui encontrar uma das traduções de sua obra. Tratava-se da segunda edição da tradução do Précis de Décomposition traduzido no Brasil como Breviário de Decomposição. A primeira edição, publicada pela editora Rocco em 1989 havia se esgotado. Só em 1997 consegui encontrar um exemplar da segunda edição de 1995. Entrementes Cioran havia falecido o que ocasionou uma série de artigos na impressa.  Desde então tento ler tudo o que sai a seu respeito, os textos originais em francês, as traduções para o português e o espanhol e pretendo um dia aprender o romeno para ter acesso direto às suas primeiras obras e aos estudos que são feitos na Romênia.

C.V.: Que aspectos da obra de Cioran lhe chamaram a atenção à primeira vista e quais deles lhe parecem ainda hoje importantes?

F.C.R.: Minha primeira impressão com a obra de Cioran, em particular com o Précis de Décomposition foi marcante. Eu estava muito deprimido na época, mas ao ler as primeiras páginas daquele livro dentro de um ônibus tive uma incontrolável crise de riso. Como qualquer leitor de Cioran, fiquei impressionado e sacudido com o estilo e a capacidade de ir direto ao ponto que caracterizam os aforismos de Cioran. Mas para além da sedução imediata causada por seu estilo marcante, vale destacar a lucidez de suas análises sobre a história e o rumo da civilização. A intransigência com que Cioran trata os ídolos permanece uma postura imprescindível e modelar. Na época eu já me interessava pelos autores da tradição do pessimismo filosófico, como Schopenhauer, Mainländer, Eduard von Hartmann e Spengler. Mas Cioran sempre me pareceu superior a todos eles, pois não se comprometeu com nenhuma duvidosa teoria científica ou metafísica, como é o caso de todos esses autores. Cioran não prometia nenhuma verdade metafísica e seu desinteresse em fundar uma teoria demonstrava uma superação inaudita da filosofia. Essa é uma das chaves para compreender porque Cioran é tão sedutor: ele expõe certa visão de mundo, que nada mais é do que um pessimismo cósmico e irredutível, mas um pessimismo baseado em intuições que todos temos e não em uma teoria metafísica qualquer. Mas esse pessimismo, que embora seja aparentemente banal está profundamente enraizado em certa tradição, é apresentado de uma forma única por meio de um discurso tão convincente que parece irrefutável e do qual dificilmente alguém que o lê consegue sair ileso. Para usar uma expressão do filósofo francês Clement Rosset, trata-se de certo “terrorismo filosófico” que curiosamente ocasiona certo efeito terapêutico: a leitura de Cioran causa certo consolo que nenhuma filosofia intencionalmente consoladora consegue proporcionar. Se aproxima, nesse sentido, de algumas filosofias antigas como o cinismo que ofereciam mais uma terapêutica que uma teoria.
Cabe explorar um pouco mais essa relação de Cioran com a filosofia. É um tópico recorrente em sua obra seu desencanto com a filosofia e sua predileção pela poesia e pela mística. Na verdade, são principalmente os personagens dessas atividades que mais cativam Cioran. Ele passou a se interessar pelos poetas e pelos santos à medida que se desinteressou pelos filósofos. Mas nem por isso ele se tornou santo ou poeta, ainda que sua obra esteja repleta de poesia e misticismo. Como autor, ele permaneceu como um “escritor filosófico” se se pode usar essa expressão. Não podemos deixar de nos lembrar aqui de uma célebre frase: “Os filósofos escrevem para os professores; os pensadores, para os escritores”. (Écartèlement) É nesse mesmo sentido que o autor lamenta (nos Cahiers) quando Schopenhauer deixa de falar como escritor e passa a se expressar como filósofo. Nesse momento o indivíduo deixa de ser interessante. Mas o filósofo, quando escreve e deixa de falar como filósofo volta a se tornar interessante.

C.V.: Acha correta a opinião dos exegetas que consideram Cioran o principal continuador de Nietzsche no século XX?

F.C.R.: Em parte. Vejo Nietzsche como uma referência fundamental para a compreensão da obra filosófica de Cioran. A crítica ao cristianismo, à moral tradicional, a superação da seriedade filosófica, a nova compreensão da verdade – mais como “interpretação” e menos como “correspondência”, a concepção da decadência do ocidente, a ruptura em relação ao estilo tradicional de argumentar, a riqueza de estilos, a independência, enfim, são muitos os temas que aproximam os dois autores. Mas em geral as teses filosóficas de Cioran se distanciam do projeto filosófico de Nietzsche. Conceitos como „vontade de poder”, „além-do-homem” e „eterno retorno” são completa e deliberadamente ignorados por Cioran, muito mais interessado na experiência vivida pelo indivíduo Friedrich Nietzsche do que no seu projeto filosófico de „transvaloração dos valores”, que soa para Cioran tão risível como qualquer outro. Além disso, Cioran se descola da filosofia de uma maneira mais decidida que Nietzsche, que apesar de ser visto como um escritor brilhante, não pode ser lido sem referência à história da filosofia com a qual ele constantemente dialoga. Já Cioran prescinde de fato da filosofia e consegue falar do mundo de modo mais imediato. Exatamente por isso ele é lido muitas vezes mais como um escritor do que como um filósofo. Justamente por se inserir na tradição filosófica, Nietzsche permanece e permanecerá sendo lido pelos filósofos profissionais. Nesse sentido vale lembrar da interpretação de Heidegger que colocou Nietzsche dentro da tradição da metafísica ocidental. Cioran permanece ignorado pela filosofia universitária, sua forma de pensamento se coloca à margem da tradição. Ouso dizer que enquanto a obra de Cioran permanecer viva, ela permanecerá ignorada pela filosofia profissional. Graças ao desgaste que hoje padece a obra filosófica de Nietzsche, não sei se poderemos falar o mesmo em relação ao futuro de sua recepção. Nietzsche foi colocado – e com razão – na tradição de Platão, Aristóteles, Leibniz, Descartes e Kant. Já Cioran permanece ligado a autores como Pascal, La Rochefoucauld, Baudelaire e Rimbaud. Se fizermos uma comparação com a filosofia antiga, Nietzsche estaria mais para um pré-socrático (como Heráclito que ele constantemente evoca) enquanto Cioran se remete mais aos cínicos e céticos pós-socráticos. Enfim, apesar de algumas semelhanças e paralelismos, são duas obras muito diferentes e que não permite que se fale da continuação de uma na outra.

C.V.: Que escritor do século XX poderia ser comparado a Cioran no que toca aos temas de reflexão e ao estilo?

F.C.R.: Não poderia escapar do lugar comum e dizer que a obra de Cioran é incomparável. De fato, nenhum autor desenvolveu uma obra de reflexão que fosse tão implacavelmente cética e ainda assim mantivesse, paradoxalmente, uma nostalgia religiosa. Além disso, Cioran destoa de autores que defenderam alguma forma de humanismo, como Camus ou Saramago. Mas um escritor que talvez tenha desenvolvido de forma dramática a experiência de mundo de Cioran foi seu amigo Beckett. O anti-humanismo desses autores é ainda algo a ser decifrado pela crítica. Mas é possível traçar alguns paralelos. Em Beckett estamos num mundo corroído, pós-decadente, em que restam apenas alguns ruídos e ruínas. O corpo definhou e a espera perdeu todo sentido. No entanto, tudo isso é expresso com certo lirismo que consegue escapar ao tragicismo óbvio e ao romantismo decadente. É essa também a façanha de Cioran: conseguir dar forma reflexiva e estética a esse estado de ruína a que se reduziu o mundo e todas as suas esperanças depois da segunda guerra. O texto “Rostos da decadência” (do Précis de Décomposition) tenta dar conta dessa experiência histórica do fim do jogo: “Somos os últimos: cansados do futuro, e ainda mais de nós mesmos, extraímos o sumo da terra e despojamos os céus. Nem a matéria nem o espírito podem continuar alimentando nossos sonhos: este universo está tão seco como nossos corações. Já não há substância em parte alguma: nossos ancestrais nos legaram sua alma em farrapos e sua medula carcomida. A aventura chega ao seu fim; a consciência expira; nossos cantos se desvaneceram; eis que brilha o sol dos moribundos!”. Sem esquecer que o humor e o ridículo estão presentes nas duas obras. Uma frase como esta do Précis poderia estar na boca de qualquer clown becketiano: “A árvore da vida não conhecerá mais primaveras: é madeira seca; com ela se farão ataúdes para nossos ossos, nossos sonhos e nossas dores”. Da mesma forma, Cioran poderia dizer como Malone (em Malone morre): “Não há nada mais a dizer, embora nada tenha sido dito”.

C.V.: Que interpretação o senhor dá à obra de Cioran?

F.C.R.: Vejo Cioran como um autor de obra muito rica e consequentemente de difícil interpretação. Chamá-lo de cético, moralista, niilista ou místico ou mesmo tudo isso ao mesmo tempo seriam todas formas simplistas de etiquetar seu pensamento. A tarefa do intérprete seria demonstrar porque Cioran consegue ao mesmo tempo ser cada um desses personagens e ao mesmo tempo seu contrário. Enfim, ele mina qualquer tentativa de circunscrevê-lo. Faz isso de forma sistemática. Segue rigorosamente o lema de pensar contra si mesmo e faz sua a divisa aquela sobre livros e o ato de escrever expressa nos Silogismos da amargura: “Um livro que, após haver demolido tudo, não se destrói a si mesmo, exasperou-nos em vão”.
Uma outra dificuldade de interpretação reside na maldição a que Cioran condenou todos os seus intérpretes quando disse nos Silogismos da Amargura: “Todo comentário de uma obra é mal ou inútil, pois tudo o que não é direto é nulo”. Alcançar essa imediatez é uma tarefa não apenas do intérprete, mas do pensador que reflete sobre a experiência de Cioran, experiência que ele confessa estar presente em seus livros: “Tudo o que abordei, tudo aquilo sobre o que escrevi ao longo de minha existência, é inseparável do que eu vivi. Não inventei nada, fui apenas o secretário das minhas sensações”. (Écartèlement)

C.V.: Como tem sido recepcionada, hoje, a obra de Cioran no Brasil?

F.C.R.: Há muitos leitores de Cioran no Brasil e pelo menos dois livros a seu respeito já foram publicados. O primeiro deles, uma tese acadêmica chamada Cioran: a filosofia em chamas publicada por um italiano radicado no Brasil, Rossano Pecoraro, faz uma apresentação geral da obra de Cioran, mas não oferece uma interpretação muito original do seu pensamento. O outro livro (Emil Cioran e a Filosofia Negativa, Porto Alegre: Editora Sulina, 2011) é uma coletânea de artigos de vários autores e abordagens variadas. Não há portanto ainda nenhuma interpretação mais profunda de sua obra. Mas há muitos estudiosos que conheço preparando teses, artigos e livros. Eu mesmo estou escrevendo um livro sobre Cioran em que pretendo desenvolver uma interpretação de sua filosofia da história. Em geral Cioran é mais lido pelos escritores e artistas, aliás, comme il faut. Seu texto serviu de base para um monólogo dramático encenado e dirigido por Euler Santi com o título Palestra sobre Nada. Vale destacar a importância que José Thomaz Brum teve para a divulgação da obra de Cioran no Brasil. Além de traduzir algumas de suas mais importantes obras francesas – contando aliás com o apoio do próprio Cioran que o conheceu – Thomaz Brum tem publicado importantes artigos e ministrado conferências sobre seu pensamento. Graças a Fernando Klabin, tivemos uma primorosa tradução da versão original de Nos cumes do desespero. Esperamos que as editoras no Brasil se animem a publicar a obra romena de Cioran o que ajudaria a dar um enorme salto para a compreensão de sua obra como um todo.

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