Quando esgotamos os pretextos que incitam à alegria ou à tristeza, conseguimos vivê-las, ambas, em estado puro: nos igualamos assim aos loucos… (Silogismos da amargura)

Uma discussão interessante, mas não fecunda, senão ociosa, é entabulada por Clément Rosset em seu livro sobre o tema da beatitude em Nietzsche: Alegria — A Força Maior (1983) — discussão na qual ele faz questão de incluir, como voz antagônica, o seu amigo Cioran.

As divergências filosóficas irredutíveis (pessimismo e anti-pessimismo, negação e afirmação) entre os dois filósofos pode ser bem ilustrada pelas suas respectivas filosofias da música e também por suas predileções musicais.

Cioran e a tristeza musical

No Livro das ilusões (1936) encontramos uma importante consideração do jovem Cioran sobre a música, e que é representativa do seu pensamento em geral, conforme se desenvolve ao longo do tempo, a respeito deste tema: “No fundo só existe música religiosa. Em seu sentido último, a música não pode ser um órgão de expressão deste mundo. E igualmente: no fundo só existe música triste. As alegrias jamais dizem sua última palavra. O que teriam então a dizer com a voz e as notas?”

Para Cioran, é da essência da grande Música ser religiosamente triste, elegíaca, como um hino, ou canto, dilacerado e lamentoso, que remontaria às origens obscura da Vida, à Queda original, a esses primeiros princípios que, coincidindo com os fins últimos, fazem-coincidir Vida e Morte, Ser e Nada.

Cl. Rosset e a alegria musical

Ainda que reconheça a ampla aceitação de (e a dificuldade de reverter) um juízo ancestral e perene, profundamente enraizado na psique ocidental, e exemplificado pela afirmação de Rachmaninov de que “a música é filha do pesar”, Rosset está convencido de que “é da essência da música ser alegre.” (p. 53). Uma importante (e seríssima) consideração feita por ele a propósito da essência da música, que é alegria:

É bastante singular que a alegria, seja ela de ordem musical ou não, deva ser incessantemente defendida contra uma tendência insistente do espírito humano em não ver nela senão um sentimento agradável, mas, no final das contas, de importância desprezível, algo que não se poderia realmente levar a sério, quando ela é, talvez, a única coisa do mundo que pode, racionalmente, pretender tal honra. A alegria pura, aquela que nenhuma sombra de reserva encobre, é, facilmente, suspeita de frivolidade, ainda que seja o sentimento mais profundo, ou também de vulgaridade, ainda que seja o sentimento mais nobre. Cioran resume muito bem a reticência geral em relação à alegria quando escreve: “É necessariamente vulgar tudo o que está isento de algo minimamente fúnebre.” A esta fórmula, oporei, por minha parte, outra exatamente inversa: é eminentemente nobre o que não se mistura com nada fúnebre, sequer minimamente. (p. 55-56)

Por mais que se compreenda Cioran e que se possa experimentar a Música como ele, como, por outro lado, não dizer Amém a Rosset, a esta sensível e severa exaltação da Alegria, ao reconhecimento da sua nobreza e da sua excelência sobre todo outro sentimento, todo outro estado de espírito? É uma tolice, talvez a maior de todas, e uma grande loucura, desprezar a Alegria, negá-la, privar-se de desfrutá-la, sempre que for o caso. Ninguém ama a Tristeza porque escolheu, porque deliberou que ela é mais digna de ser amada que a Alegria; a consciência da infelicidade, de onde a lucidité conforme a concebe e experimenta Cioran, é fruto de uma desordem interna, de um desequilíbrio, de um padecimento, de alguma doença, da enfermidade enquanto tal.

Para Clément Rosset, portanto, toda verdadeira Música é de natureza alegre, afirmadora e jubilatória; todo o contrário da Música (predileta de Cioran) de tendências e tonalidades afetivas melancólicas, tristes em suma. Roland Jaccard, amigo em comum de Cioran e de Rosset, tem uma anedota interessantíssima sobre a relação, e as divergências, entre os dois:

Nós falamos de Cioran, que ele me disse, com sua insolência habitual, que achava agradável, mas seus livros um pouco scrogneugneu (“rabugento”). “Eu não consigo entender”, acrescentou, “que Cioran possa se comprazer com uma música tão caótica quanto a de Brahms. Seu lado ‘música cigana’  me irrita.” Evocou também o livro que corria para publicar: Alegria – a força maior. Ele pretendia abordar aí, num post-scriptum intitulado “O descontentamento de Cioran”, a questão mais grave colocada, segundo ele, pelo autor dos Silogismos da amargura: há aliança possível entre a alegria e a lucidez? (Clément Rosset, un drôle de pistolet, in: JACCARD, Roland, Cioran et compagnie)

À cafonice melancólica do lado tzigane de Cioran, Rosset opõe e propõe a alegria de boa consciência, sem prurido de “moralina romântica”, de Jacques Offenbach, compositor judeu francês bastante apreciado por Nietzsche: “Os judeus foram geniais na esfera da arte, com Heine e Offenbach.”

É realmente uma música extremamente agradável, e inspiradora, para quem esteja disposto a colocar-se no seu estado de espírito. Como ter algo contra Offenbach, contra a Música Alegre? Como não simpatizar com este que disse: “Mas o que será que fiz a Deus para ter tanta alegria?” E como não sentir uma “invejinha branca” dessa existência abençoada, nas antípodas de Jó? Enfim, não seria esta uma discussão absolutamente ociosa, aporética, patética? Eu diria que Cioran e Rosset (entre os quais vivo gostosamente dividido, indeciso entre objetos de paixões que no limite se excluem) estão, cada qual, com a razão, e nenhum deles está: a Música, em si, não é nem alegre, nem triste; ora alegre, ora triste, a depender do estado de espírito, do temperamento do criador (e do degustador), em todo caso, ela É.

Eis um postulado de alcance metafísico (universal, atemporal, absoluto) que podemos enunciar sem nenhum embaraço, sem nenhuma preocupação de dogmatismo. No aforismo intitulado “Música e ceticismo”, no Breviário de decomposição, Cioran mesmo escreve:

Busquei a Dúvida em todas as artes e só a encontrei camuflada, furtiva, dissipada nos entreatos da inspiração, surgida do relaxamento do impulso; mas renunciei a buscá-la – mesmo sob essa forma – em música; aí não poderia florescer: ignorando a ironia, a música procede não das malícias do intelecto, mas dos matizes ternos ou veementes da Ingenuidade – tolice do sublime, irreflexão do infinito…”

A Música é indestrutível, imune tanto às insinuações da Dúvida quanto às da Ironia.  É para desconfiar sempre que alguém, não importa quem, introduzir nela discriminações, hierarquizações, tão arbitrárias quanto injustificadas, tão artificiais e abstratas quanto inúteis. À Música, pois! Sorvamo-la, desfrutemo-la, gozemo-la, celebremo-la, dancemo-la! Escutamos certas músicas porque estamos tristes, e queremos ficá-lo ainda mais, assim como escutamos certas outras músicas porque estamos alegres e queremos maximizar a alegria da vez. Por outro lado, recorremos à Música como um remédio para a tristeza, assim como também podemos recorrer à Música como um remédio para a alegria.

Como ser alheio e indiferente à mais profunda e beatífica Alegria Musical? Como não conhecer as virtudes graciosas e angelicais da Arte por excelência? Como, também, não conhecer esse bonheur d’être triste [felicidade de estar triste], para empregar uma fórmula de Flaubert, com a qual nos agraciam certas músicas? É uma grande tolice rejeitar certa música porque é alegre, assim como o é rejeitá-la porque é triste. Existir é condescender com a ambivalência

Minha síntese entre Cioran e Rosset: toda música, triste ou alegre, é de essência religiosa, ao menos a minha relação com a Música é uma relação religiosa, de devoção, veneração, entrega, comunhão… Tristeza religiosa, alegria idem!

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

Deixe aqui suas impressões, comentários e/ou críticas. Deja aquí sus impresiones, comentarios y/o críticas. Leave your impressions, comments and/or critiques here. Laissez ici vos impressions, commentaires et/ou critiques. Lăsați-vă impresiile, comentariile și sau recenziile aici. Lascia qui le sue impressioni, commenti e/o recensioni.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s