Revista Trágica: edições temáticas Clément Rosset (in memoriam) [1]

Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência, Rio de Janeiro, v. 12, nº 1, 2019

Editorial

Clément Rosset, in memoriam: um testemunho

Nos idos de 1987, comecei a ler Clément Rosset, entre os 18 e 19 anos de idade, na graduação, no texto original francês, com o saudoso Fernando José Fagundes Ribeiro, que viria logo em seguida a traduzi-lo. L’Anti-nature, Le monde et ses remèdes, eram livros que mexiam muito comigo, tocavam na ferida da filosofia e do academicismo, revelando, com humor, as evidências de que a vida de que a filosofia a princípio tratava era, na verdade, dissecada como um cadáver, uma autópsia para fins de julgamento, absolvição ou condenação. Decerto, Nietzsche produz um efeito semelhante, e não à toa era um dos autores que mais inspiraram Rosset. Mas este mostrava que o rei estava nu optando não pelo combate, mas tornando toda desmobilização divertida e toda sisudez risível. Afinal, não há móvel que justifique o rancor, que não precisa de objeto, assim como a alegria. Sua filosofia opera uma reforma do intelecto pela via da desmobilização criativa – talvez seja esse o efeito que sua filosofia provoca: uma outra maneira de ver o mundo e de estar nele, como talvez aconteça com toda grande filosofia, mas em seu caso, uma maneira empoderadamente leve e tragicamente alegre. Um libertador olhar de fora da atualidade, e, graças a isso, sensória e plenamente inserido no real. Entre Nietzsche e Spinoza, Rosset nos traz uma abertura para uma experiência estética que não se leva tão a sério, porque afinal o que interessa é o viver.

Em 1989, Clément Rosset veio ao Brasil pela primeira vez (depois voltaria em 2001, quando o trouxe e ciceroneei), e fui procurá-lo na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Conversamos e eu lhe perguntei se ele me orientaria numa tese de Doutorado em Filosofia. Ele aceitou, eu obtive a bolsa integral da Capes, e em 1990, no dia seguinte da defesa de minha dissertação de Mestrado, fui morar em Nice, onde ele lecionava. Foram 4 anos e meio de aulas, orientações no Café Fleur e em alguns jantares na sua casa e na casa de orientandos, muitos risos (ele era espontaneamente muito divertido), muitas aulas (inclusive de teoria psicanalítica, aulas essas lotadas com mais de uma centena de alunos e ouvintes; tendo estas aulas despertado meu interesse pela psicanálise e pela crítica a algumas de suas teorias) e muitos ensinamentos, tanto diretamente como pelo exemplo. Mantivemos uma boa amizade que nunca se desfez. Ele se aposentou, voltou a morar em Paris, e nos encontrávamos sempre que eu ia para lá. Papeávamos em algum de seus bistrôs preferidos ou em sua casa parisiense, próxima ao Jardim de Luxemburgo; gravamos um programa de rádio, Les nouveaux chemins de la connaissance, sobre sua filosofia, junto com Santiago Espinosa e Nicolas Delon; ele compareceu em palestras minhas que dei na capital francesa. Do Brasil, ele teve três orientandos, por acaso os três do Rio de Janeiro, eu e José Thomaz Brum de Doutorado, e Sílvia Pimenta de DEA, realizado durante seu estágio doutoral.

Em março de 2018, Rosset veio a falecer, deixando saudades. Celebrado na França e no exterior, traduzido em diversas línguas, sendo por muitos considerado como “um dos maiores filósofos franceses” (Philosophie Margazine, 25/04/2018), Rosset foi um pensador estranho, outsider, instigante e intrigante, marcante, tal como permanece sendo sua filosofia. Como parte do luto que todos que o leram e o conheceram fazemos, a Revista Trágica decidiu organizar uma edição temática em sua homenagem póstuma. Recebemos, no entanto, para nossa satisfação, mais textos do que esperávamos, de modo que teremos mais de um número sobre sua filosofia neste volume de 2019.

Neste primeiro, Rogério de Almeida (USP), estudioso da filosofia de Clément Rosset, orientador de diversas teses de Doutorado e dissertações de Mestrado sobre sua filosofia, passa didática e precisamente por alguns de seus conceitos principais, como o real e o duplo, a ilusão e o imaginário, o trágico e o nada, o acaso e a convenção. Temos aqui um passeio pelas principais obras do filósofo, e o cotejamento com o pensamento de Machado de Assis, autor brasileiro predileto de Clément Rosset (a quem, aliás, tive o prazer de presentear com suas Obras Completas) e também objeto de estudos de Almeida. Por fim, o artigo contribui ainda com uma breve bibliografia de textos brasileiros e estrangeiros sobre a filosofia de Rosset.

O texto de André Martins (UFRJ), que vos escreve, parte da tautologia do real proposta por Clément Rosset, que consiste na afirmação trágica de que o que existe, existe, e o que não existe, não existe. Busca-se analisar algumas das implicações desta tautologia, tais como as questões da singularidade e da finitude, do mesmo e da diferença. Assim como as formas de esquiva possível a essa inelutabilidade tautológica pela via da imaginação e da alucinação quotidiana na percepção, segundo o mecanismo do duplo como adesão ao que não existe.

Olivier Dubouclez (Université de Liège) – organizador do Colóquio “Ética e ontologia: em torno de Clément Rosset” na Université de Liège, Bélgica, que se realizou, em data prevista com antecedência, justo um mês após seu falecimento – analisa o conceito de anti-percepção na obra de Rosset, a partir de um deslocamento da teoria do duplo. Com este conceito, é pensada a “anti-percepção poética” de Raymond Roussel e seu “imaginário puro”, que configuraria um “realismo do nada”.

Amélie Mons (Manchester University) aprofunda a questão do trágico em Rosset, não somente em A filosofia trágica, mas em suas obras posteriores, buscando entender as razões que, face ao trágico, levam a mente a inventar subterfúgios, e em que condições isso se dá. A hipótese levantada é que as ilusões anti-perceptivas ocorrem como uma fuga do que é desconfortável na percepção, mas que da percepção do trágico pode advir uma alegria de viver.

Santiago Espinosa (IPC Paris), amigo pessoal de Clément Rosset, retoma as definições rossetianas de real, do duplo, do trágico, da existência e da alegria, de forma a esclarecê-las e a desfazer mal-entendidos a seu respeito, contrapondo a ontologia do real de Rosset a diversas ontologias metafísicas do ser. Pensar não é julgar, como o fazem as filosofias metafísicas, e todo julgamento já é uma ilusão de se pensar o que é, quando se está tomando um duplo que não existe – de modo que todo duplo é uma ausência de imaginação e de percepção do real. O duplo é a ilusão de se pensar um objeto, quando o objeto real está ausente – e, portanto, também está ausente o pensamento.

Marcos Beccari (UFPR) opõe-se à hermenêutica de Paul Ricoeur para, utilizando-a, a partir de Rosset, propor uma “hermenêutica trágica”, que permita “interpretar um mundo que prescinde de interpretação”; que desestabilize as pretensões de sentido de interpretações não-trágicas; e que intensifique o não-sentido do mundo, que não carece de sentido, na forma de uma aprovação incondicional da existência. Uma vez constatado o esforço humano de atribuir-lhe significado, criando duplos, “trata-se de tornar visível e enaltecer a abundância de nossas significações imaginárias”.

Luiz Antonio Callegari Coppi (USP), em um belo ensaio, mostra que Rosset toma a filosofia como uma criação, tal qual o é a criação artística, mas uma criação que tem como objeto a compreensão do real. Religa de modo pertinente três conceitos rossetianos: o princípio de realidade suficiente e o princípio de incerteza à desmobilização. A certeza, a Verdade e a crença desobrigam, pois há nelas uma adesão a um roteiro. Já a incerteza suscita a intolerância, pois afronta a segurança aparente proporcionada pelos roteiros das mobilizações, e demanda assim uma incômoda assunção de si por si mesmo e uma vivencia do real como experimentação.

Por fim, trazemos nesse número duas traduções. Eu traduzi o texto de Nicolas Delon (New College of Florida), fundador do site Atelier Clément Rosset e seu amigo pessoal, intitulado ‘Introdução a Clément Rosset’, que pode ser lido antes de qualquer outro artigo deste número dedicado a ele, sobretudo por aqueles que ainda não tiveram contato com sua filosofia. Trata-se de um texto em primeira pessoa, o que é frequente, e compreensível, uma vez que a força do pensamento rossetiano reside, sobretudo, em sua capacidade de fazer pensar e, por conseguinte, de provocar uma experiência de pensamento, proporcionando, assim, uma leitura de grande potencial transformador.

Do próprio Rosset, André Pereira de Almeida (UERJ) traduz o texto pouco conhecido – e como sempre ao mesmo tempo divertido e profundo – escrito em 1965 como prefácio ao ensaio de Luciano (125-192) intitulado “Filósofos à venda” e outros de seus Diálogos (traduzidos para o francês em 1866). Apresentar Luciano, pensador da era romana de Marco Aurélio, faz Rosset nos trazer, igualmente, alguns dos fundamentos de seu próprio pensamento, tais como o acaso, o risível da existência, a ausência de valores morais verdadeiros sob os quais, no entanto, os homens passam o tempo da vida “a se esconder e se mascarar”.

Com pesar e alegria, entregamos esse primeiro número de nossa homenagem, com os votos de que o leitor encontre aqui uma boa introdução ao pensamento de meu querido e saudoso orientador, professor e amigo Clément Rosset, e faça desta um convite para lê-lo diretamente e quem sabe se lhe desperte o desejo de levar adiante seu legado, não só na filosofia, como, sobretudo, em sua própria vida.

André Martins
Editor

Sumário

Artigos

Rogério de Almeida
André Martins
Olivier Dubouclez
Amélie Mons
Santiago Espinosa
Marcos Beccari
Luiz Antonio Callegari Coppi

Traduções

Nicola Delon
Clément Rosset

 

 

 

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