Sobre cinismos, niilismos e terrorismo de Estado (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Com o absurdo não se barganha, não se negocia. “Absurdo”, ou seja, esta palavrinha que nós, modernos, encontramos para maquiar o Mal. Como as explicações teológicas e metafísicas perderam sua razão de ser, não pegaria bem continuar usando tão atávica (e suja) expressão: “o Mal”. “O absurdo” soa melhor, mais moderno, mais filosófico, menos “cristão”…

A propósito do Mal: só em 2019 (estamos em setembro), durante a administração Witzel (aquele que comemorou o abatimento de um sequestrador como Pelé fazendo gol na Copa), cinco crianças foram vítimas de bala perdida no RJ.

Em pronunciamento ao lado do governador-goleador-fuzilador, o secretário da PM do RJ classificou a morte da menina Ágatha Vitória Sales Félix — atravessada pelas costas por uma bala de fuzil “perdida” — como um “caso isolado”.

Até este momento, foram, só no RJ, na administração Witzel, 5 “casos isolados” de 5 crianças pobres alvejadas e assassinadas gratuitamente pela guerra entre as forças de segurança pública e os traficantes contra os quais lança uma verdadeira, hipócrita, Cruzada religiosa. Que tal lançar uma Cruzada contra os traficantes dos traficantes, os criminosos de colarinho branco, os barões, os magnatas, os verdadeiros bandidos, que não moram nas favelas, que pertencem a outro tipo de “facção”: no caso, facção política, agremiação partidária? Que tal preparar o Apocalipse?

“Casualidades” de uma guerra normal, diriam. Vem ao caso aqui a distinção, feita por Peter Sloterdijk, entre cinismos e cinismos, ou melhor: entre o cinismo filosófico, ou seja, a filosofia de vida surgida na Grécia Antiga, que tem em Diógenes “do barril” a sua mais célebre figura, e o “cinismo” no sentido corrente, vulgar, “desnaturado”, todo o contrário da racionalidade, do espírito e da ética dos antigos Cínicos.

“A Antiguidade conhece o cínico (melhor: o kynikos) como um excêntrico aberrante e como um provocativo moralista turrão. Diógenes no barril é visto como um patriarca do tipo Desde então, ele figura no livro ilustrado dos tipos sociais como trocista desagregador, como individualista e ignóbil, que declara não precisar de ninguém e que não é amado por ninguém, porque não permite que se aproximem dele incólumes, sob seu crasso olhar desfaçado. De acordo com sua origem social, ele é uma figura urbana que mantém sua conduta na engrenagem da antiga metrópole. Seria possível referir-se a ele como a mais antiga manifestação de inteligência contra a arrogância e contra os segredos morais das instituições da alta civilização pressupõe a cidade, com seus sucessos e fracassos.” (SLOTERDIJK, Crítica da razão cínica, p. 31-32)

Este é o kynikos original, antigo, o kynismus (cinismo) filosófico de um Diógenes. Mas, historicamente, a partir dos tempos modernos, a natureza, fisionomia, o lugar social, do Cínico (indivíduo e discurso) começou a deslocar-se, de modo que Sloterdijk propõe, em alemão, para este novo “cinismo”, o nosso cinismo, que não tem nada a ver com o de Diógenes, outra palavra: zynismus. O cinismo deslocou-se do plebeu, do mendigo, de Diógenes em suma, para os palacianos, ou melhor, para adequar o discurso aos tempos atuais: aos poderosos, sejam eles políticos, industriais, barões da mídia, comerciantes, milicianos ou traficantes, ou tudo isso junto.

O governador do RJ é um cínico no sentido corrente, vulgar, imoral, enquanto que Diógenes, a quem a Antiguidade ergueria monumentos, em sinal de reconhecimento da sua santidade laica, natural (não cristã), da sua radical sabedoria e coerência nas coisas práticas, foi um sábio, um sophós (e um provocador sem igual). Diógenes defecava nos templos, masturbava-se em praça pública, desacatava as autoridades, molestava os cidadãos, mas nada disso se compara ao que é capaz de fazer — causar — o zynikos Witzel.

Não apenas cínico, como também niilista (assim como o seu colega, o governador do estado do RJ). Cínicos e niilistas, e o que é pior, de um niilismo e de um cinismo “positivo”, de bom-moço, herói e salvador, moralista, reformador! Não é outro o o niilismo de Estado de que fala Ernst Jünger, contrapartida totalitária e reativa do niilismo perfeito concebido (e reivindicado para si) por Nietzsche: não tardará em se transformar nas ditaduras e nas tiranias testemunhas no século 20 e no 21, no terrorismo (niilista) de Estado típico da administração Witzel, típico também das “administrações” do governador do RJ e do presidente do Brasil. Segundo Jünger, o terrorismo de Estado é praticado no âmbito interno e no externo. Quanto ao primeiro, o terrorismo de Estado interno,

“[…] é preciso sobretudo proclamar a supremacia da sociedade sobre o indivíduo singular. Deve ao menos apresentar-se à consciência sob um aspecto moral: “O povo é tudo; tu não és nada!” e, contemporaneamente, deve estar sempre presente ao espírito como uma incumbente ameaça física, espacial e temporal, de espoliação e aniquilação. Nesta situação, o medo é ainda mais eficaz do que a violência; vozes valem mais do que fatos. O indefinido é mais ameaçador. Por isso os instrumentos do terror vêm preferivelmente escondidos, e a sua morada transportada nos desertos.” (JÜNGER, Oltre la linea, p. 55)

É um preciosismo, quase uma brincadeira retórica, dizer que o medo é mais eficaz que a violência, que “vozes valem mais do que fatos”, sendo que não há medo sem a fundamentação (não digo legitimação) da violência, sendo que a a violência, a ameaça de espoliação e, no limite, de aniquilação, é o que engendra e sustenta o medo. A guerra gera medo. A violência urbana gera medo. A desigualdade e a miséria da qual resulta geram medo. Fardas, botas e armas geram medo. Desmando gera medo, tirania idem. Carrascos geram medo. Witzel e Bolsonaro também.

Voltando à realidade brasileira, quantos “casos isolados” serão necessários para dar o nome às coisas? 100.000? 1.000.000? A covardia, a falta de todo e de humanidade desse governadorzinho do RJ, e de sua equipe de segurança pública, é tamanha, tão escandalosa, que o governador safado, cínico, niilista, vem a público justificar-se, acusar a oposição de “fazer palanque” com a morte da menina Ágatha, enquanto o que ele mesmo faz, antes e depois (pois “a emenda só piora o soneto”) é tão grave, tão podre, sujo, hediondo, senão mais, quanto fazer palanque com uma barbaridade destas.

Não se trata de “palanque”, de ideologia, nem de “justicerismo” social; trata-se de humanidade, civilidade, bom senso, compaixão. Nem apenas estas 5 crianças assassinadas pela administração Witzel. Outro que nunca esqueço, o menino Eduardo de Jesus, assassinado em 2015 (durante a administração de Eduardo Paes), com apenas 10 anos de idade, por um tiro de fuzil da PM que o teria confundido com “vapor” do tráfico! Por mais que fosse…

Pois bem, com o absurdo, com o mal, não se negocia. O nome desta intransigência radical, em certo sentido inconsequente, nada razoável do ponto de vista prático/pragmático — bem, alguns são os nomes que se dá, ou que se pode dar, a esta intransigência: cinismo, niilismo, pessimismo, ceticismo, ou simplesmente lucidez.

Ocorre-me o diálogo de dois personagens de Dostoiévski, Aliócha e Ivan Karamázov, no romance Os irmãos Karamázov. Ivan, o ateu, niilista e revoltado metafísico da família, narra a seguinte estória ao seu irmão religioso:

Pois bem, vive o general em sua fazenda de duas mil almas (Assim eram chamados os servos camponeses. [N. do T.]), cheio de arrogância, tratando por cima dos ombros seus vizinhos, pequenos proprietários, como seus parasitas e palhaços. Tem um canil com centenas de cães e quase uma centena de seus cuidadores todos uniformizados, todos a cavalo. E eis que um menino servo, um garotinho de apenas oito anos, ao brincar, atira uma pedra e fere a pata do galgo predileto do general. “Por que meu cão predileto está mancando?” É informado de que esse menino teria jogado uma pedra no cão, ferindo-lhe a pata. “Ah, então foste tu – o general o mede com o olhar -, peguem-no!” Pegam o menino, tomam-no da mãe, ele passa a noite inteira num calabouço; de manhã, mal o dia amanhece, o general se paramenta todo para a caça, monta em seu cavalo, rodeado de parasitas, cães e seus guardadores, monteiros, todos a cavalo. Ao redor reúnem-se a criadagem para assistir à lição e, à frente de todos, a mãe do menino culpado. Retiram o menino do calabouço. É um nublado, frio e brumoso dia de outono, excelente para a caça. O general manda despir o menino, despem o menininho e o deixam em pelo, ele treme, está enlouquecido de pavor, não se atreve a dar um pio… “Botem-no para correr!” – comanda o general. “Corre, corre!” – gritam-lhe os cuidadores de cães, o menino corre… “Peguem-no!” – gane o general e lança contra ele toda a matilha de cães velozes. Ele açula os cães à vista da mãe, e os cães estraçalham a criança!… Parece que puseram o general sob tutela. Então… o que fazer com ele? Fuzilar? Fuzilar para a satisfação de um sentimento moral? Diz, Aliócha!

– Fuzilar! – proferiu Aliócha baixinho, levantando os olhos para o irmão com um sorriso contraído.

– Bravo! – ganiu Ivan tomado de certo êxtase. – Já que tu o disseste, então… Ai, seu monge asceta! Vê só que demoniozinho tu tens no coração, Aliócha Karamázov.

– Eu disse um absurdo, porém…

– O problema é que existe esse porém… – bradou Ivan. – Saibas tu, noviço, que os absurdos são necessários demais na Terra. É sobre os absurdos que se funda o mundo, e neste talvez não acontecesse absolutamente nada sem eles. Nós sabemos o que sabemos!

Ivan calou por cerca de um minuto, seu rosto ganhou uma expressão subitamente triste.

– Ouve-me: peguei só as criancinhas como tema para dar mais evidência ao assunto. Sobre as outras lágrimas humanas, de que toda a terra está embebida da crosta ao centro, não vou dizer uma palavra, restringi de propósito o meu tema. Sou um percevejo e confesso com toda a humildade que não consigo entender absolutamente para que tudo foi organizado dessa maneira. Quer dizer que a culpa é dos próprios homens: eles ganharam o paraíso, quiseram a liberdade e raptaram o fogo dos céus, sabendo eles mesmos que se tornariam infelizes, logo, nada de compaixão por eles. Oh, por minha mísera inteligência terrestre e euclidiana, sei apenas que o sofrimento existe, que não há culpados, que todas as coisas decorrem umas das outras de forma direta e simples, que tudo transcorre e se nivela – ora, isso é apenas uma asneira euclidiana, e eu mesmo sei disso, e não posso concordar com viver segundo essa asneira! Pouco se me dá se não há culpados e eu sei disso; preciso do castigo, senão vou acabar me destruindo. E não do castigo num ponto qualquer e num dia qualquer da eternidade, mas aqui e agora, na Terra, e que eu mesmo possa presenciá-lo. Eu acreditava nisso, eu mesmo quero presenciar, e se na hora em que acontecer eu já estiver morto, então que me ressuscitem, porque se tudo acontecer sem mim será por demais lamentável. Eu não sofri para estrumar com meu ser, meus crimes e minhas lágrimas a futura harmonia de não sei quem. Quero ver com meus próprios (Veja-se Isaías, 11, 6. [N. da E.]) olhos o gamo deitar-se ao lado do leão e o degolado levantar-se e abraçar seu assassino. Quero estar presente quando todos subitamente souberem para que tudo isso aconteceu. Sobre essa vontade fundam-se todas as religiões na Terra, e eu creio. Mas vê, entretanto, as criancinhas, o que farei então com elas? Essa é a questão que eu não posso resolver. Repito pela centésima vez – as questões são inúmeras, mas peguei apenas as criancinhas, porque assim fica irrefutavelmente claro o que preciso dizer. Ouve: se todos devem sofrer para com seu sofrimento comprar a harmonia eterna, o que as crianças têm a ver com isso (Ver Pascal, Pensamentos, sobretudo a parte referente à religião cristã. [N. da E.]), podes fazer o favor de me dizer? É absolutamente incompreensível por que elas também teriam de sofrer e por que comprar essa harmonia com seus sofrimentos? Por que também serviram de material e estrumaram com sua própria vida a futura harmonia para não sei quem? A solidariedade entre os homens no pecado eu compreendo, compreendo a solidariedade também no castigo, mas não essa solidariedade com as criancinhas no pecado, e se a verdade está realmente em que elas são solidárias com os pais em todos os crimes dos pais, então, é claro, essa verdade não é deste mundo e eu não a compreendo. Algum brincalhão dirá, talvez, que, seja como for, a criança há de crescer e ter tempo de pecar, mas acontece que não cresceu e foi estraçalhada por cães aos oito anos de idade. Oh, Aliócha, não estou blasfemando! Compreendo, porém, qual deverá ser o abalo do universo quando tudo sob os céus e sobre a Terra desaguar numa só voz de encômio e tudo o que vive e já viveu exclamar: “Tens razão, Senhor, pois teus caminhos se revelaram!” (Livre combinação de diversos versículos do Apocalipse. [N. da E.]). Quando a mãe se abraçar ao carrasco que estraçalhou seu filho com os cães e todos os três anunciarem entre lágrimas: “Tens razão, Senhor”, então aí, é claro, será o coroamento do saber e tudo se esclarecerá. Mas é aí que entra a vírgula, é isso que não posso mesmo aceitar. E enquanto eu estiver aqui pela Terra me apressarei a tomar minhas medidas. Vê, pois, Aliócha, é possível, e realmente vai acontecer que, quando eu mesmo chegar a esse momento ou ressuscitar para vê-lo, talvez até exclame com todos, olhando para a mãe abraçada ao carrasco de seu filhinho: “Tens razão, Senhor!”, só que nesse momento não vou querer exclamar isso. Enquanto houver tempo eu me apressarei a me proteger, porque recuso a harmonia eterna. Ela não vale uma lágrima minúscula nem mesmo daquela criança supliciada, que batia com seus punhozinhos no peito e rezava ao seu “Deusinho” naquela casinha fétida e banhada em suas minúsculas lágrimas não redimidas! Não vale porque suas lagrimazinhas não foram redimidas. Elas devem ser redimidas, senão a harmonia também será impossível. Mas com que, com que irás redimi-las? Por acaso isso é possível? Será que serão vingadas? Mas para que preciso vingá-las, para que preciso de inferno para os carrascos, o que o inferno pode corrigir quando aquelas crianças já foram supliciadas? E de que harmonia se pode falar se existe o inferno: quero perdoar e quero abraçar, não quero que sofram mais. E se os sofrimentos das crianças vierem a completar aquela soma de sofrimentos que é necessária para comprar a verdade, afirmo de antemão que toda a verdade não vale esse preço. Por fim, não quero que a mãe abrace o carrasco de seu filho estraçalhado pelos cães! Ela não se atreverá a perdoá-lo! Se quiser, que perdoe por si, que seu desmedido sofrimento materno perdoe o carrasco; mas ela não tem o direito de perdoar o sofrimento de seu filho estraçalhado, não se atreverá a perdoar o carrasco ainda que a própria criança o tenha perdoado por isso! E se é assim, se eles não se atrevem a perdoar, então onde está a harmonia? Existirá em todo o mundo um ser que possa ou tenha o direito de perdoar? Não quero a harmonia, por amor à humanidade não a quero. Quero antes ficar com os sofrimentos não vingados. O melhor mesmo é que eu fique com meu sofrimento não vingado e minha indignação não saciada, ainda que eu não esteja com a razão. Ademais, estabeleceram um preço muito alto para a harmonia, não estamos absolutamente em condições de pagar tanto para entrar nela. É por isso que me apresso a devolver meu bilhete de entrada. E se sou um homem honrado, sou obrigado a devolvê-lo o quanto antes. E é o que estou fazendo. Não é Deus que não aceito, Aliócha, estou apenas lhe devolvendo o bilhete da forma mais respeitosa (Alusão ao poema “Resignation”, de Schiller. [N. da E.]).

Nada tenho a acrescentar. Eis todo o “niilismo”. Este diálogo dramático e comovente precede uma das passagens mais famosas, e mais importantes, de toda a literatura dostoievskiana: “A Lenda do Grande Inquisidor”. Mas, em vez de Dostoiévski, passarei a Chestov, considerado por Cioran o “Dostoiévski filósofo”.

Citei apenas 6 crianças (brasileiras) que foram brutalmente assassinadas, não importa por quem (não importa, essencialmente, num primeiro momento), não importa em que circunstâncias os assassinatos aconteceram. A julgar pela exigência radicalmente escrupulosa de Ivan K., tão escrupulosa que chega a ser “niilista”, bastariam 6, bastaria mesmo 1! — para derrubar por terra toda pretensão ou suposição de uma “ordem moral” vigente na “estrutura do mundo”, da “natureza”, enfim. O que dirá, então, da pretensão e da suposição de uma inteligência superior, sábia, justa e amorosa, onipotente, onisciente, etc., que seria a causa eficiente do mundo! Uma criança que se faz sofrer, que se mata, nunca será vingada suficientemente. O que é mais terrível, pela perspectiva dos seus pais, dos entes familiares que a perdem, ficando em vida, sem razão para viver, sem chão, é que nem possível é qualquer vingança. Vingar-se do assassino? Seria imperioso: “FUZILAR!”, como brada Ivan, e concorda Aliócha… Mas, ainda assim, colocando-me no lugar (no caso, de um pai, de um irmão, de um amigo) parece que nenhuma vingança seria suficiente, que nem o Infinito seria suficiente…

Por mim, nada vale nada, après moi le déluge! Também devolvo o meu bilhete, mil vezes se for necessário. Devolvo-o em nome do sofrimento e da dor universais, sofrimento e dor que são meus, muito meus, que são de todos, e muito mais dos outros do que meus, numa luta perdida de antemão, por amor desesperado e raivoso aos homens e às mulheres, e sobretudo às pobres crianças, que não pediram para nascer, menos ainda para morrer! Por uma revolta infinita, orgulhosa e triste, que faria empalidecer o Diabo, devolvo o meu bilhete.

Agora, Chestov. Em seu Kierkegaard et la philosophie existentielle, no contexto de um debate com Hegel e o Idealismo alemão, visto com ojeriza pelo filósofo existencialista russo como uma anomalia da Razão hipertrofiada, totalizante e totalitária, em detrimento de tudo o que há de realexistencialimediatoconcretoverdadeiro enfim… Chestov toma partido de Kierkegaard (partido que todos tomamos) contra Hegel. Na introdução, ele cita as seguintes palavras de uma carta do crítico literário russo Belinsky:

“Ainda que alcançássemos o mais alto grau na escala do desenvolvimento, eu lhes pediria que me prestassem conta de todas as vítimas das condições da existência e da história, de todas as vítimas do azar, das superstições, da inquisição, de Felipe II, etc. Caso contrário, me lançarei de cabeça do alto da escada. Não quero nenhuma felicidade, nem mesmo gratuita, se não puder estar tranquilo com respeito à sorte de cada um dos meus irmãos de sangue…” (CHESTOV, Kierkegaard y la filosofía existencial, p. 13)

Chestov observa que, se Hegel lesse estas linhas de Belinsky, daria de ombros ou cairia em gargalhadas, julgando que o crítico literário em questão seria na verdade um bárbaro, ignorante e selvagem. Hegel é aquele filósofo para o qual a Razão é capaz de conhecer, compreender, explicar e justificar absolutamente tudo, e não apenas isto: o universo, o mundo, o devir, a história, o real mesmo é racional. Não é difícil intuir porque o hegelianismo encontra-se na raiz (filosófica, histórico-dialética) da mentalidade revolucionária, e que ela, a mentalidade revolucionária, tende a esvaziar todo o realconcretohumanopresenteefetivo, em nome do ideal, da abstração, da causa, da revolução, da utopia, da sociedade e do homem futuros. É inútil, prossegue Chestov,

“[…] exigir prestação de contas (e não há, ademais, ninguém a prestá-las) em relação a seres que, enquanto finitos, não podem exigir nenhuma proteção. Não apenas qualquer um , as vítimas do acaso, mas também homens como Sócrates, Giordano Bruno e outros, os maiores, mais sábios, mais justos, não têm direito a proteção alguma… A roda do processo histórico os esmaga sem piedade, com tanta indiferença quanto se fossem objetos inanimados. A filosofia do espírito é a filosofia do espírito justamente porque consegue elevar-se por cima de tudo o que é finito e passageiro.” (CHESTOV, Kierkegaard y la filosofía existencial, p. 13-14)

E como tudo — eu e você, a menina Ágatha e o menino Eduardo de Jesus, o próprio Jesus, o Cristo, Sócrates e Giordano Bruno, o mais nobre dos seres e o mais abjeto deles — é finito e passageiro, está portanto desguarnecido, fundamentalmente desprotegido, em relação a si e aos outros, ao destino ou ao acaso, à natureza ou à sociedade, à polícia e ao bandido, à polícia-bandido ou ao bandido-polícia, às tropas ou às turbas, aos farsantes políticos ou religiosos, ou políticos-religiosos. Infelizmente, neste mundo terrível, ninguém pode exigir nenhuma proteção (Chestov), simplesmente porque nasceu, porque vive, e aqueles que deveriam proteger são os primeiros, ou então os segundos, a oprimir, explorar, espoliar e matar. Derelictio

Para não terminar em desespero, um pouco de poesia, um pouco de alento, “Desespero da piedade”, do grande Poetinha: “Tende piedade, Senhor, dos homens públicos e em particular dos políticos / Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão / Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes / Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.” Amém.

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