“Defesa da corrupção” como resposta ao purismo do Livro das Ilusões (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Não apenas o Breviário, concebido como um todo, é um livro profundamente autorreferencial, uma longa retratação e uma palinódia, os exercícios negativos de um ex-legionário, de um ex-fanático, como também, dentro dele, há inúmeros aforismos em que essa intencionalidade autocrítica é mais sensível: a começar por “Genealogia do fanatismo” e “O Antiprofeta”, entre outros. Por exemplo, “Defesa da corrupção”, que dialoga diretamente com O Livro das ilusões, que por sua vez dialoga, em certos pontos, com Schimbarea la fata a Romaniei, o lamentável libelo político de Cioran, por serem livros contemporâneos, publicados no mesmo ano de 1936. Abaixo, “Defesa da corrupção”.

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SE SE PUSESSE em um prato da balança o mal que os “puros” espalharam sobre o mundo e no outro o mal proveniente dos homens sem princípios e sem escrúpulos, é o primeiro prato que inclinaria a balança. No espírito que a propõe, toda fórmula de salvação erige uma guilhotina… Os desastres das épocas corrompidas têm menos gravidade do que os flagelos causados pelas épocas ardentes; a lama é mais agradável que o sangue; há mais suavidade no vício que na virtude, mais humanidade na depravação que no rigorismo. O homem que reina e não crê em nada, eis não o modelo de um paraíso da decadência, de uma soberana solução da história. Os oportunistas salvaram os povos; os heróis os arruinaram. Devemos sentir-nos contemporâneos, não da Revolução e de Bonaparte, mas de Fouché e de Talleyrand: faltou à versatilidade destes apenas um suplemento de tristeza para que nos sugerissem com seus atos uma Arte de viver.

Às épocas dissolutas cabe o mérito de haver desnudado a essência da vida, de nos haver revelado que tudo não passa de farsa ou amargura, e que nenhum acontecimento merece ser embelezado, já que é necessariamente execrável. A mentira enfeitada das grandes épocas, de tal século, de tal rei, de tal papa… A “verdade” só é vislumbrada nos momentos em que os espíritos, esquecidos do delírio construtivo, deixam-se arrastar pela dissolução das morais, dos ideais e das crenças. Conhecer é ver; não é nem esperar nem empreender.

A estupidez que caracteriza os cumes da história só tem equivalente na inépcia de seus agentes. Se levam até o fim os atos e os pensamentos, é por uma falta de finura. Um espírito liberado tem aversão à tragédia e à apoteose: as desgraças e as palmas o exasperam tanto quanto a banalidade. Ir longe demais é dar seguramente uma prova de mau gosto. O esteta tem horror ao sangue, ao sublime e aos heróis… Só aprecia ainda os farsantes…

“Ir longe demais”, ou seja, ir até o fim, lançar-se irreversivelmente, embalado por uma paixão, numa determinada direção, irreflexivamente, sem espírito crítico, incapaz de hesitar, duvidar, manter-se aquém. O jovem Cioran, durante algum tempo, torna-se um fanático do lirismo e do desespero, no sentido de ir, ou querer ir, longe demais, até o fim (jusqu’au bout) de uma experiência-limite (de onde o adjetivo francês intraduzível jusqu’auboutiste, aquele ou aquela que vai até o fim sempre, para bem ou para mal). O autor do Breviário, por sua vez, se quer um esteta e um cético, com ares de cinismo ou mesmo de um niilismo desiludido, enfim, todo o contrário do idealista, do revolucionário, do fanático. Afirma-se doravante como um Geniesser, um consommateur, isto é, um “experimentador”, um “degustador”, um diletante, um amador em tudo (de onde o seu elogio da frivolidade, o melhor antídoto contra as profundidades do eu e o “o mal de ser o que se é”). Isto fica patente, por exemplo, quando ele escreve, no Breviário, que “a vida é o lugar de minhas paixões: tudo o que arranco da indiferença, restituo-lhe quase imediatamente. Não é esse o procedimento dos santos: escolhem de uma vez por todas. Vivo para desprender-me de tudo o que amo; eles, para embevecer-se com um só objeto; eu saboreio a eternidade, eles se abismam nela.” (Breviário de decomposição)

No Livro das ilusões, este tema de “ir longe demais” também é colocado em pauta, mas não na perspectiva (e na intencionalidade) crítica que será o caso em “Defesa da corrupção”. O jovem autor do Livro das ilusões é um pensador lírico obcecado pela ideia de uma pureza sempre inatual e irreal, contrapartida de uma realidade que é sinônimo de impureza e confusão. O jovem Cioran é simpático à ideia de “ir longe demais”, como uma forma de heroísmo absurdo, fundamento do que ele conceberá, no livro de 1936, como uma “ética do sacrifício“. Não por acaso o adjetivo “fanático” aparece nesta passagem, e não de maneira crítica, aversiva, mas elogiosa: “a fanática coragem de afrontar o insolúvel…”

SÓ NO UNILATERAL existe a tragédia, só um homem que se lança em uma direção até o final, sem espírito crítico, embriagado pelas sacudidas de sua própria solidão, só esse pode suportar aquilo que os outros jamais chegarão a imaginar. E para que é preciso imaginar? É tão cômodo imaginar tudo, compreender tudo, que para esses homens nem sequer concedemos a honra de menosprezá-los. Ter a fanática coragem de afrontar o insolúvel e de violar com uma fúria cega o irreparável, ser tão absurdo que os pensamentos se lancem em uma dança desenfreada, que se elevem como fogos em trevas longínquas. A profundidade de um pensamento está em função do risco que corre. Ou morremos pelos nossos pensamentos, ou renunciamos a continuar pensando. Se pensar não é um sacrifício, para que pensar então? Reservemos para nós apenas as questões árduas, insolúveis e últimas. Os professores responderão às outras. Porque para isso são pagos. Se a vida, o sofrimento, a morte, o destino ou a doença se resolvessem ou fossem esgotadas na compreensão, teria ainda sentido continuar pensando?

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