SONHOS MONSTRUOSOS povoam as mercearias e as igrejas: nunca surpreendi ninguém que não vivesse no delírio. Como o menor desejo oculta uma fonte de insanidade, basta conformar-se ao instinto de conservação para merecer o asilo. A vida, acesso de loucura que sacode a matéria… Respiro: é o bastante para que me enclausurem. Incapaz de alcançar as claridades da morte, rastejo na sombra dos dias, e ainda existo somente pela vontade de deixar de existir.

Antigamente imaginava poder pulverizar o espaço com um murro, brincar com as estrelas, deter a duração ou manobrá-la segundo meus caprichos. Os grandes capitães pareciam-me grandes tímidos, os poetas, pobres balbuciantes; não conhecendo em absoluto a resistência que nos opõem as coisas, os homens e as palavras, e julgando sentir mais do que o universo permitia, entregava-me a um infinito suspeito, a uma cosmogonia surgida de uma puberdade incapaz de concluir… Como é fácil julgar-se um deus pelo coração, e como é difícil sê-lo pelo espírito! E com que quantidade de ilusões devo ter nascido para poder perder uma a cada dia! A vida é um milagre que a amargura destrói.

O intervalo que me separa de meu cadáver é uma ferida para mim; todavia, aspiro em vão às seduções da tumba: não podendo separar-me de nada, nem cessar de palpitar, tudo em mim assegura-me que os vermes permaneceriam inativos sobre meus instintos. Tão incompetente na vida como na morte, odeio-me, e neste ódio sonho com outra vida, com outra morte. E por haver querido ser um sábio como nunca houve outro, sou apenas um louco entre os loucos…

CIORAN, E.M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

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