Aqueles de meus amigos que tiveram a ocasião de estadiar no Brasil retornaram todos com o mesmo sentimento dominante: de uma excepcional animação e alegria de viver, junto a um sentido agudo do desastre e da catástrofe iminente. Eu experimentei pessoalmente esse mesmo sentimento assistindo ao belíssimo filme de Marcel Camus consagrado ao Brasil e ao carnaval do Rio de Janeiro, Orfeu Negro. Enquanto a animação popular atinge o clímax e um casal de jovens apaixonados experimenta sua primeira alegria de “estar a dois”, a Morte faz irrupção, na figura de um dançarino mascarado e anônimo, sombra ameaçadora que rodeia em torno dos amantes e prefigura o acidente mortal que porá um termo súbito à vida da jovem: sed nox atra caput tristi circumvolat umbra, diz Virgílio, na Eneida, — “mas uma noite negra aí está que voa e envolve sua cabeça com sua sombra triste”. Sinistro acompanhante da festa, ele faz uma reviravolta em torno da alegria como a noite em torno do dia e a morte em torno da vida. Sinistro acompanhante, mas acompanhante necessário: pois uma ligação indissolúvel une o gozo da vida ao conhecimento da morte, o conhecimento da vida àquele da tragédia. Não há triunfo da vida sem um igual triunfo da morte, nem um verdadeiro transbordamento de alegria sem um igual transbordamento de desespero. Toda a alegria que pretendesse desconsiderar o trágico, ou ignorá-lo graças à aparente e passageira plenitude de sua felicidade, é necessariamente uma alegria falsificada (e aliás tão logo desmentida por um nada de experiência ou de lucidez), enfim, aquilo que se chama correntemente em francês, sem levar demasiadamente em consideração as implicações profundas desta expressão, uma “falsa alegria”. Tal como eu creio pressenti-lo, o sentimento da festa e da vida que prevalece no Brasil constitui em contrapartida uma alegria verdadeira, porque constantemente impregnada do sentimento da tragédia. De sorte que a divisa da sabedoria brasileira me parece principalmente residir, não nas palavras de Auguste Comte que ornam a bandeira brasileira “Ordem e progresso”, mas antes numa fórmula do gênero: “Sejamos felizes, tudo vai mal”.

Ora, acontece que uma tal divisa sempre foi a minha, e que ela é mesmo o ponto de partida de tudo o que eu pude pensar até hoje. Mais ainda: é ela precisamente que me determinou nesta loucura que consiste em redigir ensaios filosóficos. Parecia-me com efeito — e parece-me sempre — que este pensamento, a meus olhos essencial, da ligação entre a alegria de existir e o caráter trágico da existência, se ela estava presente, .ao menos em filigrana, em muitos dos grandes escritos literários, estava em contrapartida praticamente ausente no domínio dos grandes escritos filosóficos (à exceção do caso Nietzsche, notadamente em A Origem da tragédia). A toda forma de filosofia do bem ou de um melhor por vir, a toda empresa de racionalização ou de justificação do real, eu empreendi então opor a barragem sistemática de uma “lógica do pior” — de modo algum por um gosto, que seria em si absurdo, do trágico, mas ao contrário para tentar descrever aquilo) que me parecia a natureza exata da alegria de viver. Para me resumir numa palavra: falar bem da realidade significa quase sempre pensá-la secretamente mal. É por isso que o verdadeiro apaixonado da vida tem por principal e no fundo único objeto de aversão o otimismo e a estampa do trágico, culpados a seus olhos de constituir, sob as cores ordinariamente morais e bem-pensantes, um atentado permanente contra o real e a alegria de ser. Testemunho exemplar Jean-Jacques Rousseau, cuja mania paranóica, a  retórica empolada, o moralismo obsessivo, não são senão a expressão visível de um mal mais profundo: de uma pura e simples incapacidade de suportar a realidade. Esta incapacidade, por ser o problema da maioria, é o que explica o sucesso universal deste autor.

Resta-me precisar que minha lógica do pior, pelo menos aqui neste livro, gira em torno da idéia de acaso, — pensamento sombrio e desesperador entre todos, do ponto-de-vista da maior parte dos filósofos. E saudar, por ocasião desta tradução, meus distantes e desconhecidos amigos do Brasil.

ROSSET, Clément, “Prefácio à edição brasileira”, Lógica do pior. Trad. de Fernando J. Fagundes Ribeiro e Ivana Bentes. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.

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