PESAR POR NÃO SER ATLAS, por não poder sacudir os ombros para assistir ao desmoronamento desta risível matéria… a raiva segue o caminho inverso da cosmogonia. Por que mistério despertamos certas manhãs com a sede de demolir o conjunto inerte e vivo? Quando o diabo penetra em nossas veias, quando nossas ideias sofrem convulsões, e nossos desejos cortam a luz, os elementos se inflamam e se consomem, enquanto nossos dedos filtram a cinza.

Que pesadelos suportamos durante as noites para acordarmos inimigos do sol? Devemos liquidar a nós mesmos para acabar com o todo? Que cumplicidade, que laços nos prolongam em uma intimidade com o tempo? A vida seria intolerável sem as forças que a negam. Donos de uma saída possível, da ideia de uma fuga, poderíamos facilmente nos abolir e, no auge do delírio, expectorar este universo. Ou, então, rezar e esperar outras manhãs.

(Escrever seria um ato insípido e supérfluo se pudéssemos chorar à vontade, e imitar as crianças e as mulheres tomadas pelo furor… Na matéria de que somos moldados, em sua mais profunda impureza, encontra-se um princípio de amargura que só as lágrimas suavizam. Se cada vez que os desgostos nos assaltam tivéssemos a possibilidade de nos livrar deles pelo pranto, as doenças vagas e a poesia desapareceriam. Mas uma reticência inata, agravada pela educação, ou um funcionamento defeituoso das glândulas lacrimais, condena-nos ao martírio dos olhos secos. Aliás, os gritos, as tempestades de pragas, a automaceração e as unhas cravadas na carne, com as consolações de um espetáculo de sangue, não figuram mais entre nossos procedimentos terapêuticos. Daí se segue que estamos todos enfermos e que necessitaríamos de um Saara cada um para berrar à vontade, ou das margens de um mar elegíaco e fogoso para mesclar a seus lamentos desenfreados nossos lamentos mais desenfreados ainda. Nossos paroxismos exigem o cenário de um sublime caricatural, de um infinito apoplético, a visão de uma força onde o firmamento serviria de patíbulo a nossas carcaças e aos elementos.)

CIORAN, E. M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

Um comentário sobre ““Certas manhãs” (E.M. Cioran)

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