Tomo emprestado ao comunicado de Henri Birault, no colóquio Royaumont sobre Nietzsche, em 1964, o termo “beatitude”, para definir o tema central da filosofia nietzschiana. Provavelmente, do mesmo modo, outros termos conviriam: alegria de viver, gáudio, júbilo, prazer de existir, adesão à realidade, e ainda muitos outros. Pouco importa a palavra, aqui é a ideia ou a intenção que conta, de uma fidelidade incondicional à nua e crua experiência do real, a que se resume e se singulariza o pensamento filosófico de Nietzsche. Vá lá, pois, “beatitude”, Seligkeit, a quem nós conviremos de conceder a honra de representar tal pensamento, de ser, em suma, seu embaixador devidamente credenciado. […] Os três primeiros aforismos do Livro IV da Gaia Ciência — livro com o subtítulo Sanctus Januarius, “São Januário”, e escrito durante um inverno eufórico em Gênova — dão uma ideia bastante precisa e bastante complexa do que é a beatitude em Nietzsche.

O primeiro desses textos, o aforismo 276, intitulado “Para o ano novo”, se apresenta na forma de um voto de ano novo contendo instruções intelectuais válidas para todos os anos por vir e para tudo o que seu autor, que também é seu destinatário, será suscetível de pensar em seguida. Esse voto de ano novo, que Nietzsche faz a si mesmo, consiste em uma intenção geral de estar doravante de acordo com tudo o que existe, de viver como amante incondicional de uma realidade considerada sob os auspícios de uma necessidade tão óbvia que ela poderá dali em diante prescindir de fundamento, de qualquer espécie de “pertinência”: “Cada vez mais quero aprender a ver a necessidade nas coisas como a Beleza em si: assim, serei um daqueles que embelezam as coisas. Amor fati: que isso seja doravante meu amor! Não entrarei em guerra contra a feiúra; de modo algum acusarei, nem mesmo os acusadores acusarei. Desviar o olhar: que esta seja minha única negação! E, afinal de contas: quero, a partir de qualquer momento, ser tão-somente pura afirmação.”

O segundo texto, o aforismo 277 intitulado “Providência pessoal”, consiste em uma espécie de radicalização das teses otimistas de Leibniz. Pois o mundo aparece aí não apenas como o melhor dos mundos possíveis, considerando-o em geral, mas ainda como o melhor dos mundos, considerando-o em particular, e mesmo o considerando unicamente em cada um de seus instantes, fosse ele o pior, ou em cada uma das criaturas que o compõem, fosse ela a menos favorecida pelo que Nietzsche chamaria de a sina, e Leibniz, de a economia dos bens implicada pela harmonia universal: “Agora, com efeito, o pensamento de uma providência pessoal se apresenta a nós da maneira mais invasiva, e ele tem para si o melhor porta-voz, a aparência, já que nos é tangível que todas as coisas, absolutamente todas as coisas que nos advêm, tornam-se constantemente favoráveis a nós. A vida de todo dia, de cada hora, parece não querer mais outra coisa senão confirmar por novas provas esta tese: quer se trate de qualquer coisa, do mau como do bom tempo, da perda de um amigo, de um pé pisado, de uma olhadela numa revista, de um contra-argumento, de um livro aberto ao acaso, de um sonho, de uma fraude: o acontecimento se revela imediatamente ou logo depois, como alguma coisa que não podia deixar de acontecer — pleno de sentido profundo e de lucro, precisamente para nós!” O que aparece aqui como uma generalização nietzschiana do otimismo leibniziano não acontece, naturalmente, sem um desmentido último de Leibniz. Pois, enquanto Leibniz atribui a Deus a organização da providência geral, Nietzsche atribui ao “acaso”, concebido como princípio ateísta, ou melhor, como antiprincípio, o mérito dessa providência pessoal que vela pela sorte de cada um em particular: “Bem — quero dizer: apesar de tudo isso –, deixemos os deuses em paz e do mesmo modo os gênios servis, e contentemo-nos em supor que nossa própria habilidade prática e teórica na interpretação e coordenação dos acontecimentos terá alcançado aqui seu ponto culminante. Não presumamos demais da destreza de nossa sabedoria se por vezes a maravilhosa harmonia que se forma ao tocar nosso instrumento tem que nos estupeficar: harmonia de uma ressonância perfeita demais para que ousemos atribuí-la a nós mesmos. Na realidade, aqui e ali alguém toca conosco — o acaso: ele leva nossa mão no momento oportuno, e a mais sábia providência não poderia inventar música mais bela do que aquela que então chega a nossa insensata mão.” Seria um contra-senso ler nestas linhas a expressão de um desencanto último, de uma desilusão no sentido “moral” do termo (pois há efetivamente neste texto de Nietzsche uma vontade de desiludir, mas isso no sentido intelectual, de acabar com uma ilusão supérflua e alheia à economia propriamente nietzschiana da felicidade): como se o pensamento de uma providência pessoal acrescentasse à experiência da beatitude, enquanto que, de fato, é ela que corre o risco de operar ali, aos olhos de Nietzsche, um nítido corte. E isso, mais uma vez, não em razão de uma pretendida vaidade de Nietzsche, que teria por efeito turvar a experiência da felicidade a partir do momento em que se devesse agradecer a um deus qualquer. Não há pensador algum que tenha tanto quanto Nietzsche prestado homenagem à existência, nem feito questão a esse ponto de lhe render graças e justiça. Nietzsche não rende homenagem a Deus pela existência, porque ele estima, com razão ou sem ela, que o pensamento de Deus é um pensamento insuficientemente grato, pensamento meio-grato, que precisa da caução divina para disfarçar os múltiplos inconvenientes ou “deficiências” ligadas à existência. E nisso Nietzsche se opõe muito a Leibniz, mas somente porque ele é, se se pode dizer, ultraleibniziano, insólito e incorrigível “ultra” do otimismo que pensa, em suma, que se Leibniz precisou de Deus, foi porque não era bastante otimista, porque não acreditava o bastante na felicidade. De modo geral, aliás, Nietzsche liga o ceticismo não ao desapontamento, e sim a uma superabundância de felicidade (e nisso também, é óbvio, seu ceticismo não tem exemplo nem precursor na história da filosofia cética). É o que vemos neste notável aforismo do Crepúsculo dos ídolos, a propósito de Carlyle, sobre o qual voltarei a falar mais adiante: “A ânsia de uma fé poderosa não é a prova de uma fé poderosa, é antes o contrário. Quando se a tem, pode-se dar o luxo do ceticismo — se está bastante certo, bastante firme, bastante sólido, bastante comprometido para isso.”

ROSSET, Clément, Alegria: a força maior.  Trad. de Eloísa Araújo Ribeiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000, p. 35-39.

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