“Cioran, entre filosofia e poesia: ambivalência, hibridismo, temeridade” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“Já que tudo o que se concebeu e empreendeu dede Adão é ou suspeito ou perigoso ou inútil, que fazer? Dessolidarizar-se da espécie? Seria esquecer que nunca se é homem tanto como quando se lamenta sê-lo.” (La chute dans le temps)

O “pecado original” de Cioran é ser demasiado filósofo, pensador. Corrijo-me: é não ser simplesmente filósofo, pensador, nem escritor, artista; nem puramente um teórico, um crítico, nem puramente um espírito poético e criador. Historicamente, esta condição alegre e tragicamente indeterminada é necessariamente pós-nietzschiana.

O “pecado original” de Cioran: a (am)bivalência, a dualidade, o hibridismo, e a terrível temeridade que daí resulta (fonte de mal-entendidos, confusões, controvérsias), inerentes ao seu logos (“pensar-dizer”) fragmentário e paradoxal por princípio, ou por natureza.

Nem (puramente) filósofo, nem (puramente) poeta, artista, nem isso nem aquilo; Cioran, espirito negativo (apofático), e irônico, do nem-nem

Não se trata simplesmente de indecisão, mas antes de um estado de indecidibilidade involuntária (talvez congênita!): condição (am)bivalente e temerária que ele mesmo desejou, se é que estava ao seu alcance não desejá-la, evitá-la. “Regra de ouro: deixar uma imagem incompleta de si”, escreve Cioran, sem saber, talvez, que tal regra não é o produto de um raciocínio seu, do labor intelectual e consciente, mas a expressão espontânea de uma natureza marcada pelo claro-escuro, por altos e baixos, cumes e abismos, infernos e invernos, sóis negros e luas incandescentes. Vacilações, hesitações, ruminações: expressões de um espírito ondulante, inquieto, que (já) não pode aderir a nada… Auscultemo-lo:

Não ter nunca a oportunidade de tomar partido, de decidir-me ou de definir-me: não há desejo que tenha com mais frequência. Mas nem sempre dominamos nossos humores, essas atitudes em germe, esses esboços de teoria. Visceralmente inclinados à estruturação de sistemas, nós os construímos sem descanso, sobretudo em política, domínio de pseudoproblemas, onde se dilata o mau filósofo que reside em cada um de nós, domínio do qual gostaria de afastar-me por uma razão banal, uma evidência que aparece a meus olhos como uma revelação: a política gira unicamente em torno do homem. (História e utopia)

Culpa sua (ou mérito seu), afinal, de sua natureza indecisa, indeterminada, flutuante e inaderente, que Cioran seja amiúde alvo de críticas tão desproporcionais quanto (em grande medida) injustificadas, críticas que também deveriam dirigir-se a outros, tantos outros, e que só não se dirigem porque, provavelmente, nenhum outro radicalizou tanto a (am)bivalência, a dualidade, o hibridismo e a temeridade que configuram essa Poética (e Ontologia) da Impureza praticada por Cioran no mínimo a partir do Breviário da decomposição (se não até mesmo antes deste que é seu primeiro livro escrito diretamente em língua francesa).

Deus só podia ser o fruto de nossa anemia: uma imagem vacilante e raquítica. É bom, suave, sublime, justo. Mas quem se reconhece nessa mistura com perfume de água de rosas exilada na transcendência? Um ser sem duplicidade não possui profundidade e mistério; não esconde nada. Só a impureza é sinal de realidade. (Breviário de decomposição)

Costuma-se cobrar, exigir de Cioran um bom-senso, uma moderação ou sobriedade, uma prudência que ele não está disposto, que não pode prometer, garantir, oferecer: pois não tem nada a ver com ele, não seria ele. É como exigir de um músico que não viva e pense musicalmente, através da Música, ou a um poeta que não viva e pense poeticamente, através da Poesia. No tocante à visão da Filosofia (enquanto tal, universalmente considerada), a atitude tendencial (ambivalente, dual, irônica, crítica) pode ser encontrada também em um Chestov, ou mesmo Pascal; é esta, exposta em “Adeus à filosofia”, um dos mais importantes (e autobiográficos) aforismos do Breviário:

O universo não se discute; se exprime. E a filosofia não o exprime. Os verdadeiros problemas só começam após havê-la percorrido ou esgotado, após o último capítulo de um imenso tomo, que põe o ponto final em sinal de abdicação ante o Desconhecido, onde se enraízam todos os nossos instantes, e com o qual precisamos lutar, porque é naturalmente mais imediato, mais importante que o pão cotidiano. Aqui o filósofo nos abandona: inimigo do desastre, ele é sensato como a razão, e tão prudente quanto ela. E ficamos em companhia de um velho pestilento, de um poeta instruído de todos os delírios e de um músico cuja sublimidade transcende a esfera do coração. (Breviário de decomposição)

É um contra-senso, ocioso e indelicado, esperar (exigir!) que alguém seja diferente de como é, que não seja como é (e quer ser), que deva ser como eu, como nós! Mas talvez o próprio Cioran nos tenha enganado, mediante essa “trapaça salutar” que é, segundo Roland Barthes, a écriture, sem querer (querendo), como por uma ilusão de ótica, ou por uma ironia passageira, no meio de uma conversa, e afinal não esclarecida, de que ele era, queria, podia ser diferente, talvez como eu, como nós, como qualquer outro, exceto (como) aquele que é!; ou filósofo, ou poeta, ou isto ou aquilo, em todo caso, algo (muito bem definido), alguémuma identidade, uma posição, uma atitude, um modo de ser…

A propósito da questão dessa recepção equívoca de Cioran, leiamos o que ele escreve sobre Nietzsche — do qual nega veementemente ser um continuador, um “discípulo” (à diferença de sua juventude, nietzschiana e alucinada), e que é doravante a sua maneira paradoxal — pela via negationis — de existir, pensar e criar após Nietzsche et al. Nada mais digno de nota do que o fato de que Cioran decide iniciar um texto sobre o “comércio dos místicos”, tema que não poderia ser mais alheio aos interesses de Nietzsche, com uma consideração exegética sobre… o próprio Nietzsche! Na verdade, pelo desvio em Nietzsche (e nos místicos), Cioran está falando indiretamente de si :

Nada mais irritante do que essas obras que apresentam be ordenadas as ideias densas de um espírito que se preocupou com tudo excepto com o sistema. De que serve dar uma aparência de coerência às de Nietzsche, a pretexto de que se movem em torno de um motivo central? Nietzsche é uma soma de atitudes, e é rebaixá-lo procurar nele uma vontade de ordem, uma preocupação de unidade. Cativo dos seus humores, registou-lhes as variações. A sua filosofia, meditação acerca dos seus caprichos, é erradamente considerada pelos eruditos como portadora de constantes, que se trataria de evidenciar, quando tudo nela as recusa. (A tentação de existir)

A julgar por espíritos radicalmente (e paradoxalmente) modernos, como Cioran e Baudelaire, ou mesmo um Ortega y Gasset, alheio a toda ambivalência, a toda temeridade, só haveria dois modos de existir na Modernidade, de ser moderno (ou, agora, “pós-moderno”): por um lado, a existência típica do homem-massa (Ortega y Gasset), filisteu, néscio, espírito gregário, ideológico, e por outro lado a existência — internamente perigosa, solitária, temerária, desastrosa — pela via — descensional — da singularidade, que, quanto mais radical é, mais violentamente se configura, afirma. É o caso de Charles Baudelaire, por exemplo, na França do século XIX; é o caso de Nietzsche, na Alemanha da mesma época; é também o caso de um certo romeno, oriundo da Transilvânia, no rodapé dos montes Cárpatos, filósofo de formação (e de vocação, muito embora a uma “filosofia lírica“, em que “as ideias têm raízes tão profundas quanto a poesia”), autoproclamado “exilado metafísico” em Paris (“estrangeiro para a polícia, para Deus, para si mesmo”), e que abandonara a língua materna, rompendo definitivamente com o seu passado, para tornar-se outro, ou antes ninguém (e poder falar como Ulisses ao ciclope), para deixar de ter um “eu”, ser “alguém”, quem quer que seja (trabalho de désoeuvrement), para dedicar-se ao apagamento ou esfacelamento poiético de si através da escritura  como désoeuvrement; doravante, erige em seu lugar um “símbolo”, uma “lápide”, uma “imagem” , um sucedâneo de si, um espantalho: um tal de E.M. Cioran, “inexistencialista” (Sloterdijk) e docetista (Docetismo, do grego δοκέω [dokeō], “para parecer”, é o nome dado a uma doutrina cristã do século II, considerada herética pela Igreja primitiva). Cioran se retira da Criação, como um Demiurgo arrependido, deixando-nos aqui, desamparados e irremediavelmente solitários, na presença de sua acolhedora obra — seu corpo ilusório, sua lápide (soma/sema).

Ici Cioran: esta plaqueta, fixada no umbral da porta da mansarda parisiense do autor do Breviário de decomposição, poderia ser colocada também nas proximidades do planeta Terra, como mensagem de boas-vindas, a nossos visitantes interestelares, a uma charmosa e irresistível estrelinha que se decompõe a olhos vistos…

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“Outrora tive um ‘eu’; agora sou apenas um objeto… Empanturro-me de todas as drogas da solidão; as do mundo foram fracas demais para me fazer esquecê-lo. Tendo matado o profeta em mim, como terei ainda um lugar entre os homens?” — escreve o autor do Breviário de decomposição, não por acaso no aforismo inicial intitulado “O Antiprofeta”, que é o próprio Cioran contra (“anti”) si, no lugar dele mesmo.

Enquanto efeito, radicalização e culminação do processo ontológico e natural  da individuação (principium individuationis), a singularidade é fator e princípio de ambivalência, temeridade e indeterminação: quanto mais se torna, quanto mais se é o que se é, quanto mais coincide-se consigo mesmo, mais se percebe, mais se descobre que não se é nada em particular, nada em especial, nada tout court, e que não é possível coincidir consigo mesmo nem com nada, pois a lucidez do espírito é uma solidão em que nada parece existir, e no entanto, tudo existe, em que tudo já foi, e no entanto, nada ainda foi.

Nós percebemos primeiro a anomalia do fato puro de existir, e apenas em seguida o de nossa condição específica: o espanto de ser precede o espanto de ser homem. Todavia, o caráter insólito de nosso estado deveria constituir o dado primordial de nossas perplexidades: é menos natural ser homem do que simplesmente ser. E isto, nós sentimos instintivamente; de onde essa volúpia que sentimos sempre que nos desviamos de nós mesmos para nos identificar com o bem-aventurado sono dos objetos. Não somos realmente nós mesmos antes que, desnudados diante de si, já não coincidimos com nada, nem com a nossa singularidade. (La chute dans le temps)

*

Discernir que o que você é não é você, que o que você tem não é seu, não ser mais cúmplice de nada, nem mesmo de sua própria vida — isso é ver bem, é descer até a raiz nula de tudo. Quanto mais nos abrimos à vacuidade e dela nos impregnamos, mais nos subtraímos à fatalidade de ser si, de ser homem, de ser vivo. Se tudo é vazio, essa tripla fatalidade também o será. (Le mauvais démiurge)

O “pecado original” de Cioran é conduzir equivocamente (Aurélien Demars emprega o verbo francês malmener, “conduzir mal, erradamente”) o leitor ingeri-lo, processá-lo e julgá-lo filosoficamente (moralmente, politicamente), pelo crivo da razão suficiente, natural e pública, quando ele se declara, como Chestov, um Privat Denker (“Pensador Privado”), quando o seu pensamento não é (nem de longe!) “puramente” filosófico (apodítico, dialético, processual, argumentativo), mas lírica e impuramente filosófico (tendencialmente poético, musical, performativo, rítmico, e ao mesmo tempo conversacional, prosaico, intimista). Agradeço ao autor por transmitir-me as suas taras e tormentos, as suas marcas do pecado original.

“Não-filosofia: as ideias sufocam de sentimento.” (Amurgul gîndurilor)

No tocante a inserir-se na Modernidade, a ser “lançado” (Heidegger) em tal canto do mundo em determinado momento da História, e sobretudo no tocante à experiência e intuição da Modernidade enquanto situação histórica (aporética, incerta, turbulenta, tediosa), Cioran não deve ser buscado entre os filósofos (Descartes, Kant, Hegel, Heidegger, Sartre), mas (deslocando) entre os poetas, como um “parasita dos poetas” (Breviário). A sua, como a de Baudelaire, é (sempre foi, desde o começo, Nos cumes do desespero) uma intuição poética da existência, ou antes filopoética (combinação lírica, impura e temerária de razão filosófica e inspiração poética), em todo caso, em hipótese alguma puramente filosófica, racional, dialética, etc. De onde a sua Poética cioraniana da Impureza, paralelamente a duas outras: a Poética da Desnaturação e a Poética do Fracasso.

 

 

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